A uma semana de seu fim, Coração Acelerado fracassou em vários aspectos, e o principal deles foi a ausência de enredos próprios para a mocinha e a vilã da trama. Agrado (Isadora Cruz) e Naiane (Isabelle Drummond) viveram em função de João Raul (Filipe Bragança) durante praticamente toda a história.
Agrado até formou uma dupla sertaneja com Duda (Gabz), mas a trajetória das duas sempre esteve subordinada ao que acontecia entre a protagonista e o mocinho. É claro que o romance central costuma ser um dos pilares de qualquer novela, mas, neste caso, isso se tornou uma âncora para a personagem, que ficou refém de um enredo exaustivo envolvendo uma paixão de infância surgida em um único encontro, que durou apenas alguns minutos. As idas e vindas com João dominaram a narrativa, assim como a rivalidade com Naiane.
Com a vilã, o problema foi ainda maior. Naiane não tinha outro objetivo na vida além de conquistar o cantor e aumentar sua popularidade como influenciadora. Não havia qualquer outro conflito que movimentasse a personagem.
Ela passou a novela inteira repetindo as mesmas armações para afastar João de Agrado e ficar com ele.O mais irônico é que essa dependência narrativa em relação aos homens também atingiu as respectivas mães de Agrado e Naiane, as irmãs Janete (Leticia Spiller) e Zilá (Leandra Leal). Todos os embates entre elas giraram em torno de Alaorzinho (Daniel de Oliveira), e o principal plot da novela existe justamente por causa da obsessão de Zilá em ficar com o namorado da irmã, a ponto de acusá-la falsamente de ter empurrado Jean Carlos (Ricardo Pereira), seu ex, de um precipício apenas para destruir sua saúde mental.
Nem mesmo o envolvimento de Naiane com Gael (André Luiz Frambach) alterou sua trajetória. Ainda que a relação tivesse sido mais desenvolvida, a personagem continuaria tendo sua história definida em função de outro homem.
O nível de dependência narrativa é tão grande que, até nos momentos finais, a mocinha toma decisões motivadas pelo protagonista. Agrado decide priorizar a crise enfrentada por João Raul, o que acaba prejudicando sua parceria com Duda e culmina no fim da dupla. Vale lembrar que as duas já haviam rompido anteriormente por causa de outro homem: Leandro (Davi Jr.), que se envolveu amorosamente com ambas.
É uma pena que a narrativa de Coração Acelerado seja tão rasa a ponto de deixar suas principais personagens femininas reféns de histórias centradas nos homens. A novela foi vendida como uma produção revolucionária por retratar o espaço das mulheres no universo sertanejo, historicamente marcado pelo machismo. No entanto, o texto de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento acaba reproduzindo justamente essa lógica ao construir protagonistas e antagonistas sem conflitos próprios, sempre dependentes das trajetórias masculinas para mover a narrativa.
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