O Brasil se despede de uma de suas maiores damas da dramaturgia. Glória Menezes morreu nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 91 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais. A partida aconteceu menos de 24 horas depois da morte de outra gigante da nossa arte, Laura Cardoso, aos 98 anos. Em um intervalo de poucas horas, o país perdeu duas mulheres que ajudaram a construir a história do teatro, do cinema e, principalmente, da televisão brasileira.
É difícil encontrar palavras para uma perda tão grande. O público mal havia começado a assimilar a ausência de Laura Cardoso e precisou, quase imediatamente, se despedir também de Glória Menezes. Duas damas da dramaturgia, duas artistas amadas por gerações e duas trajetórias que atravessaram décadas, deixando personagens que permanecerão para sempre na memória afetiva do país.
Glória marcou época. Foi admirada pelo público e pela crítica e construiu uma carreira extraordinária no teatro, no cinema e na televisão. Só na TV Globo, onde estreou em 1967, participou de mais de 40 telenovelas.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, Glória recebeu de seus pais o nome de Nilcedes Soares de Magalhães — uma combinação das letras de Nilo e Mercedes. Aos seis anos, mudou-se com a família para São Paulo, cidade onde sua vocação artística começaria a ganhar forma. Apaixonada por teatro, ingressou na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo. Durante os estudos, criou o grupo de teatro amador Jovens Independentes, que acabou ocupando tanto espaço em sua vida que ela decidiu deixar a faculdade para se dedicar inteiramente aos palcos.
A escolha não poderia ter sido mais decisiva. Em 1959, já em seu primeiro espetáculo, Glória recebeu o prêmio de Atriz Revelação em um festival de teatro amador promovido pelo diretor Antunes Filho. No mesmo ano, estreou na televisão na novela Um Lugar ao Sol, também premiada. Pouco depois, Antunes Filho a convidou para As Feiticeiras de Salém, montagem que se tornaria um dos primeiros grandes marcos de sua trajetória. Foi também nos bastidores dessa peça que Glória conheceu Tarcísio Meira, o homem que se tornaria seu companheiro de vida e um dos parceiros mais importantes de sua carreira.
O cinema também a recebeu muito cedo. Impressionado com seu trabalho no teatro, o cineasta Anselmo Duarte a convidou para participar de O Pagador de Promessas, filmado em 1960. Lançado em 1962 no Festival de Cannes, o filme entrou para a história ao conquistar a Palma de Ouro.
Na televisão, Glória e Tarcísio Meira formaram uma das duplas mais emblemáticas da dramaturgia brasileira. Em 1963, os dois protagonizaram 2-5499 Ocupado, da TV Excelsior, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira. O romance que começou durante o trabalho transformou-se em casamento, e a união dos dois se tornou, ao longo das décadas, uma das histórias de amor mais queridas do público.
Ainda na Excelsior, o casal esteve junto em produções como A Deusa Vencida (1965) e Almas de Pedra (1966). Em 1967, os dois chegaram à Globo para protagonizar Sangue e Areia, de Janete Clair. Era o início de uma parceria que se tornaria uma das marcas da televisão brasileira.
Glória esteve em Passo dos Ventos (1968), enquanto Tarcísio fazia A Gata de Vison, mas a pressão do público logo fez com que os dois voltassem a atuar juntos em Rosa Rebelde (1969). No ano seguinte, vieram Irmãos Coragem, um fenômeno de audiência e um dos maiores sucessos da história da televisão brasileira. Na novela, Glória protagonizou um dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira: viveu Lara, Diana e Márcia, três mulheres de personalidades distintas dentro da mesma personagem.
A parceria com Tarcísio continuou em O Homem que Deve Morrer (1971), Cavalo de Aço (1973) e O Semideus (1974). Em 1975, Glória participou de O Grito, de Jorge Andrade, interpretando uma mãe angustiada diante dos problemas mentais do filho. Dois anos depois, voltou a contracenar com Tarcísio em Espelho Mágico (1977), de Lauro César Muniz, uma experiência inovadora de dramaturgia em que os dois interpretavam um casal de atores que, dentro da trama, gravava uma novela.
Durante os anos 1970, Glória também brilhou em episódios de Caso Especial, entre eles O Crime do Silêncio (1971), Meu Primeiro Baile (1972) — primeiro programa integralmente exibido em cores na televisão brasileira — e A Dama das Camélias (1972), que marcou a estreia de Gilberto Braga na Globo.
Glória e Tarcísio ainda protagonizaram diversos programas juntos, incluindo o seriado Tarcísio & Glória, dirigido por Daniel Filho, uma produção que contava, de maneira ficcional, a história de um empresário corrupto e uma extraterrestre.
Em 1979, Glória viveu uma personagem que representou uma nova virada em sua carreira: Ana Preta, de Pai Herói, novela de Janete Clair. Dona de uma casa de samba e envolvida em um triângulo amoroso com os personagens de Tony Ramos e Elizabeth Savala, Ana Preta tornou-se uma das figuras mais populares de sua trajetória.
Vieram depois Jogo da Vida (1981) e Guerra dos Sexos (1983), ambas de Silvio de Abreu. Em Guerra dos Sexos, mesmo contracenando novamente com Tarcísio Meira, sua personagem terminava a novela ao lado de Nando, interpretado por Mário Gomes.
Na década seguinte, Glória mostrou mais uma vez sua enorme capacidade de se reinventar. Em Rainha da Sucata (1990), interpretou Laurinha Figueroa, uma socialite falida casada com Betinho, personagem de Paulo Gracindo. A vilã cômica se tornou inesquecível e entrou para a história das novelas por ser a primeira personagem a aparecer cometendo suicídio em uma produção do gênero.
Glória e Tarcísio voltaram a dividir a cena em Torre de Babel (1998), de Silvio de Abreu, na qual ela interpretou Marta Toledo, uma mulher rica que percebe o fracasso de seu casamento e decide buscar uma nova aventura amorosa. Em O Beijo do Vampiro (2002), os dois viveram novamente personagens completamente diferentes: ela era a esotérica Zoroastra, enquanto ele interpretava o vampiro Boris Vladesco.
A parceria ainda se repetiria em Páginas da Vida (2006), de Manoel Carlos, e A Favorita (2008), de João Emanuel Carneiro. Em Páginas da Vida, Glória emocionou o público como Lalinha, mãe de seis filhos com Tide, personagem de Tarcísio. Sua morte logo nos primeiros capítulos deixava para a família a missão de realizar seu desejo de criar uma casa de cultura.
Foram décadas de trabalho, personagens e histórias. E, mesmo depois de tantos anos, Glória continuava sendo lembrada e celebrada. Seu último trabalho em novelas foi como Stelinha, em Totalmente Demais, exibida originalmente em 2015 e reprisada em 2020. Naquele mesmo ano, ela e Tarcísio participaram do especial Os Casais que Amamos, do canal Viva, que revisitou algumas das novelas mais importantes da trajetória dos dois.
Em 2020, Glória e Tarcísio deixaram a Globo após 53 anos de parceria com a emissora, quando seus contratos não foram renovados. No ano seguinte, Tarcísio Meira morreu, aos 85 anos, vítima da Covid-19, deixando uma ausência profunda na vida de Glória e também no coração de milhões de brasileiros.
Em 2025, Glória foi uma das homenageadas pela série Tributo, da Globo e do Globoplay. O programa revisitou sua trajetória por meio de imagens de arquivo e depoimentos de artistas como Tony Ramos, Claudia Raia e Sandra Annenberg, reafirmando o tamanho de sua importância para a televisão brasileira.
E como se a vida tivesse preparado uma última celebração, poucos dias antes de sua morte, em 12 de agosto de 2026, Glória Menezes foi homenageada na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, em Curicica, no Rio de Janeiro. Por não poder comparecer, a atriz foi representada pelo filho, Tarcísio Filho.
Glória Menezes deixa muito mais do que uma filmografia, uma lista de novelas ou uma coleção de personagens inesquecíveis. Deixa uma história de dedicação ao ofício, de amor pelo teatro, de pioneirismo na televisão e de uma capacidade rara de fazer o público acreditar em cada personagem que interpretava.
Ela foi heroína, vilã, mãe, esposa, mulher apaixonada, personagem cômica, personagem dramática, mulher forte e mulher vulnerável. Foi Lara, Diana, Márcia, Ana Preta, Laurinha Figueroa e tantas outras. Em cada uma delas, havia um pouco de sua genialidade.
Glória também deixa a lembrança de uma das maiores parcerias da dramaturgia brasileira ao lado de Tarcísio Meira. Juntos, atravessaram gerações, construíram uma história de amor admirada pelo público e ajudaram a escrever capítulos fundamentais da televisão nacional.
Hoje, quando as cortinas se fecham para Glória Menezes, o sentimento é de gratidão.
Gratidão por tudo o que ela nos deu.
Pelas histórias que contou.
Pelas personagens que jamais esqueceremos.
Pelos palcos que iluminou.
Pela televisão que ajudou a construir.
Pelo cinema que também teve a honra de recebê-la.
O Brasil perde uma de suas grandes damas. Mas artistas como Glória Menezes não partem por completo. Permanecem nas cenas, nos personagens, nos arquivos, nas reprises e, principalmente, na memória de quem um dia se emocionou diante de seu talento.
Depois de mais de seis décadas dedicadas à arte, Glória Menezes deixa seu nome gravado para sempre na história da dramaturgia brasileira.
Descanse em paz, Glória. Obrigado por uma vida inteira de arte.
Seu brilho permanece.
8 comentários:
Em 24 horas duas perdas tão grandes e importantes!!!
Agora as duas vão se encontrar e atuar juntas lá no Alto! Ambas deixaram histórias por aqui!
abraços, chuica
Minhas 10 favoritas da diva, que assisti na tv e no streaming
Lara (Irmãos Coragem)
Roberta (Guerra dos Sexos)
Ana Preta (Pai Herói)
Marta (O Grito)
Rosemere (Brega e Chique)
Thereza (Corpo a Corpo)
Laurinha (Rainha da Sucata)
Julia (A próxima vítima)
Baroa Laura (Senhora do Destino)
Stelinha (Totalmente Demais)
Olha só que carreira. Queria botar a Irene que é icônica mais acho que JEC exagero na dosis de tolice.
Daniel
Geniales actrices. Te mando un beso.
Há artistas que simplesmente interpretam. E há aqueles que conseguem transformar uma personagem em lembrança, sentimento e parte da nossa própria história. Glória Menezes pertence, sem dúvida alguma, ao segundo grupo.
Falar sobre ela é difícil justamente porque qualquer elogio parece pequeno diante de uma trajetória tão grandiosa. Seu talento JAMAIS precisou de exageros: bastava entrar em cena para que a personagem ganhasse vida, verdade e emoção.
Glória não era apenas uma grande atriz. Era presença, intensidade e delicadeza ao mesmo tempo. Uma daquelas intérpretes capazes de fazer o público esquecer que estava diante de uma atuação e acreditar completamente na mulher que aparecia na tela.
E como não lembrar de Ana Preta, em Pai Herói? Uma personagem que ganhou uma força especial justamente porque Glória sabia emprestar humanidade a tudo o que fazia. Sua interpretação ficou guardada na memória de quem acompanhou aquela história e continua sendo uma das demonstrações mais bonitas de seu talento.
Sua carreira é dessas que dispensam apresentações. Décadas de televisão, teatro e cinema ajudaram a construir um legado que pertence não apenas à atriz, mas à própria história da dramaturgia brasileira.
Glória Menezes é dessas artistas raras que não passam simplesmente pela televisão. Elas deixam marcas.
Por isso, diante de uma trajetória tão extraordinária, talvez não seja necessário encontrar palavras perfeitas. Basta reconhecer aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos:
Glória Menezes é talento. E ponto.
Uma atriz imensa, uma referência, uma joia da nossa teledramaturgia e uma presença que continuará emocionando mesmo quando as luzes já estiverem apagadas.
Eu sou fã. E continuarei sendo.
Obrigado por tudo, Glória. Seu talento é eterno.
Uma atriz única e marcante. Bela homenagem que você realizou para ela.
Boa semana!
O JOVEM JORNALISTA está em Hiatus de inverno entre 03 de agosto à 07 de setembro, mas comentaremos nos blogs amigos. Mesmo em Hiatus, o JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Uma grande e linda atriz. RIP.
Nunca se esquecerá.
Adeus Ana Preta, Rosa, Laura Albuquerque Figueroa, Marquesa de Santos, Emily, Doña Sol, Lara / Diana / Márcia, Marta Mourão, Baronesa de Bonsucesso, Leila Lombardi / Rosana Noronha, Jordana, Roberta Carneiro Leone, Tereza Fonseca, Rosemere, Baby Bueno, Marta Simões Toledo, Zoroastra, Camila Matarazzo, Kiki de Queensbürg, Irene Fontini, Violeta Corrêa, Stela Carneiro de Alcântara, entre tantas...
Obrigado mesmo Glória Menezes, ❤️❤️❤️❤️❤️
Que Glória Menezes e Laura Cardoso descansem em paz! As duas semanas atrás foram tristes no quesito de falecimentos de celebridades queridas. Saindo dessa tristeza, comprei bottons personalizados do Marc du Pontavice e Alix de Maistre na Shopee e usei na universidade, meus colegas de universidade, a UFC perguntaram quem eram eles, pois com exceção de mim, eles não são conhecidos pelos meus amigos de universidade daqui do Ceará, sou a única da minha sala que conheço e estudo sobre eles, recentemente a minha mãe reencontrou uma amiga de universidade dela, a Verônica que é a minha professora neste semestre de psicologia. Falando do meu estado, o governador Elmano do PT aliado do Presidente Lula daqui no meu estado chegou a visitar ontem o meu bairro onde eu moro, Bonsucesso na corrida eleitoral para a reeleição, ele chegou a visitar a minha antiga escola de ensino médio daqui do meu bairro. Pois bem, tenha uma boa semana Sérgio!
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