quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Flagra de Ademir em "Quem Ama Cuida" entrega catarse e ainda faz homenagem certeira a "Mulheres Apaixonadas"

 Uma das cenas mais aguardadas de Quem Ama Cuida finalmente foi ao ar nesta quarta-feira, dia 10, e correspondeu às expectativas. O flagra de Ademir (Dan Stulbach) em Dora (Mariana Ximenes) e André (Henrique Barreira), armado por Adriana (Letícia Colin), foi uma sequência catártica, construída com tensão, boas atuações e, para completar, uma série de referências à própria teledramaturgia brasileira.


A armação de Adriana deu resultado. Determinada a se vingar ainda mais de Ademir, ela usa a nova senha do apartamento da Dora para criar uma situação em que o ex-marido a encontre ao lado de André. Enquanto o casal passa a noite junto no apartamento, Adriana garante que Ademir tenha acesso ao local por meio de um telefonema anônimo e ainda conta com a ajuda de Lyris (Pri Helena) para colocar o plano em prática.

Ao entrar no apartamento, Ademir estranha o silêncio. Mas logo encontra roupas espalhadas pelo chão e reconhece as peças de Dora. A descoberta faz sua raiva crescer até o momento em que ele entra no quarto e se depara com a ex-mulher ao lado do próprio sobrinho.

Dora e André ficam completamente assustados, enquanto Ademir é tomado pela indignação e pelo choque.

A partir daí, a sequência cresce em intensidade. Ademir parte para cima de André e chega a aplicar um mata-leão no rapaz, sendo contido por Dora. Dan Stulbach, Mariana Ximenes e Henrique Barreira entregaram uma atuação bastante convincente, mas o grande protagonista simbólico daquele momento foi o conjunto de referências ao papel mais marcante da carreira de Stulbach: o violento Marcos, de Mulheres Apaixonadas, fenômeno de Manoel Carlos exibido em 2003.

Não é tão comum ver um autor reverenciar o trabalho de outro dessa maneira, mas Walcyr Carrasco e Claudia Souto acertaram muito ao construir uma cena que dialoga diretamente com a memória afetiva do público. E a ótima direção de Amora Mautner potencializou ainda mais essa proposta.

A principal referência, claro, foi a raquete utilizada por Dora para ameaçar Ademir e impedir que ele continuasse agredindo André. É impossível não lembrar das inúmeras cenas de extrema violência protagonizadas por Marcos contra Raquel (Helena Ranaldi), personagem que sofreu nas mãos do marido em uma das tramas mais marcantes da novela. O enredo, inclusive, tornou-se parte importante do debate social que culminaria na criação da Lei Maria da Penha.

Nesse sentido, a cena de Quem Ama Cuida funciona quase como uma espécie de vingança simbólica. Dora não chega a agredir Ademir — o que foi frustrante porque havia contexto dramático para isso —, mas a simples presença da raquete já estabelece uma conexão bastante evidente com Mulheres Apaixonadas. É como se, décadas depois, o mesmo ator estivesse novamente diante de uma mulher que se recusa a aceitar passivamente a violência.

A referência também aparece no texto. Quando Ademir diz a Dora que acreditava que ela fosse uma mulher diferente, mas que agora estava com um “menininho”, a escolha da palavra remete ao modo como Marcos se referia à relação de Raquel com Fred, aluno da professora de natação. É importante, porém, destacar que as situações são muito diferentes: André não é menor de idade, como era Fred, e a relação entre os personagens de Quem Ama Cuida está inserida em outro contexto.

Ainda assim, a homenagem funciona justamente porque não tenta reproduzir Mulheres Apaixonadas, mas evoca sua memória de maneira inteligente. A presença de Dan Stulbach torna a associação inevitável, e a novela soube explorar isso sem transformar a cena em uma simples cópia do passado.

Foi uma sequência muito bem interpretada e dirigida, embora pudesse ter durado mais. O público costuma responder muito bem a cenas de tensão quando elas têm espaço para respirar, e um momento tão aguardado merecia talvez alguns minutos adicionais para explorar melhor o choque de Dora, André e, principalmente, a devastação de Ademir.

Mesmo assim, foi uma sequência merecedora de elogios. Além de movimentar a história, o flagra entregou o tipo de catarse que o público esperava e ainda reverenciou a teledramaturgia brasileira ao resgatar, por meio do próprio Dan Stulbach, a lembrança de um dos maiores fenômenos de sua carreira.

Mais do que um simples flagra, foi uma cena que conversou com a memória da televisão e mostrou que uma novela pode olhar para o passado sem deixar de construir sua própria identidade.

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