quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"Quem Ama Cuida" acerta ao retratar a escalada da violência doméstica

 A vingança de Adriana é o eixo central de Quem Ama Cuida, atual novela das nove escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Como a trama tem mais de 200 capítulos, a história vem sendo desenvolvida em etapas, fazendo com que a protagonista avance gradativamente sobre aqueles que considera responsáveis por sua desgraça. Somente agora Adriana conseguiu concluir sua vingança contra Ademir (Dan Stulbach) e partiu para o próximo alvo, Ulisses (Alexandre Borges).


É uma estratégia que ajuda a sustentar a narrativa principal por um período tão longo, mas a novela também encontrou nos núcleos paralelos histórias capazes de produzir um impacto que vai além da trama da vingança. O melhor exemplo, atualmente, é o drama de Elenice (Mariana Sena).

A personagem chegou a perder espaço, mas voltou a ter seu conflito desenvolvido com mais atenção. E isso permitiu que os autores construíssem, com bastante cuidado, uma das representações mais interessantes da novela: a escalada de uma relação abusiva até a violência física.

O grande mérito está justamente em não transformar Tom (Allan Souza Lima) em um agressor desde sua primeira aparição. A violência foi crescendo diante do público. Vieram as intimidações mais sutis, depois os gritos, o controle sobre as decisões da esposa e, posteriormente, o apertão no braço que deixou uma mancha roxa em Elenice.

É assim que relações violentas precisam ser retratadas na ficção: como um processo. O abuso não precisa começar com uma agressão física para ser reconhecido como violência. O controle, o medo e a intimidação já fazem parte dessa dinâmica.

A marca no braço de Elenice ainda teve outra função importante na narrativa. Rosa (Tatiana Tibúrcio), que desde o princípio não aprovava o casamento da filha, ficou ainda mais desconfiada e atenta. A personagem passa a enxergar aquilo que Elenice tenta suportar em silêncio.

Há ainda uma ligação interessante desse núcleo com a história principal. Tom foi responsável pelo depoimento que ajudou a condenar Adriana, depois de receber um suborno de Ademir. Ele, portanto, também está na mira da protagonista. Isso significa que a história de Elenice não está isolada da trama central e ainda deverá ganhar novos desdobramentos.

Mas a melhor decisão dos autores foi trazer Dafne (Arlyane Carvalho) para o centro desse conflito.

Até pouco tempo atrás, a filha do casal praticamente não tinha função dramática. Aparecia tão pouco que o público poderia até esquecer que Elenice e Tom tinham uma filha. A situação mudou quando Daphne quis participar de um passeio da escola e encontrou a resistência do pai.

Tom proibiu a viagem. Elenice, inicialmente, permitiu. Mas bastou o marido elevar o tom e intimidá-la para que ela cedesse.

A consequência foi uma das cenas mais importantes para a construção dessa história. Dafne percebeu o comportamento da mãe e verbalizou aquilo que Elenice talvez ainda tivesse dificuldade de admitir. A menina deixou claro que estava cansada daquela submissão e observou que, ao aceitar os gritos do pai contra ela, a mãe também estava permitindo que ele passasse a gritar com a própria filha.

É um momento fundamental porque Elenice finalmente se vê através dos olhos de Dafne.

A personagem percebe que aquilo deixou de ser apenas um problema entre marido e mulher. A violência já contaminou a relação do pai com a filha e está moldando a maneira como aquela criança enxerga a própria família.

Com o incentivo de Rosa, Elenice então encontra coragem para permitir que Dafne faça o passeio. E é justamente no retorno da menina que Quem Ama Cuida entrega a sequência mais forte desse núcleo até agora.

A direção de Amora Mautner foi brilhante porque entendeu que não era necessário mostrar a agressão para que o público sentisse a violência ---- ainda que isso possa ser exposto em cenas futuras porque também tem a sua função narrativa.

Tom agarra Elenice pelo braço e a tira do quarto da filha. Dafne se desespera e grita pela mãe. Elenice, mesmo sendo arrastada para fora do quarto, ainda grita o nome da menina para impedir que ela vá atrás.

Dafne permanece na porta.

E então pega uma caixinha de música com uma pequena bailarina negra e coloca Clair de Lune, de Claude Debussy, para tocar.

A imagem é delicada, mas o contexto é devastador. A menina tenta usar a música para não ouvir o pai agredindo a mãe. Enquanto isso, o público também não vê diretamente o que está acontecendo. Enxerga apenas as sombras de Tom jogando Elenice contra a parede e ouve os sons da violência.

A sequência encontra sua força exatamente nessa escolha.

Ao invés de transformar a agressão em espetáculo, a novela coloca o espectador na perspectiva de uma criança que sabe o que está acontecendo, mas tenta desesperadamente não ouvir. A música infantilmente reconfortante funciona como uma espécie de barreira contra uma realidade que Dafne não consegue impedir.

E é impossível falar da força dessa sequência sem destacar o trabalho do elenco. Mariana Sena, Allan Souza Lima e Arlyane Carvalho estão bem demais. .

Mariana consegue transmitir a fragilidade de Elenice sem transformá-la em uma personagem passiva ou unidimensional. O medo, a hesitação, a vergonha e, principalmente, o impacto provocado pela percepção de que a filha também está sofrendo aparecem em pequenos gestos e mudanças de expressão. É uma atuação que entende que, numa situação como essa, muitas vezes o silêncio comunica mais do que um grande discurso.

Allan também merece elogios pela maneira como constrói Tom. O ator não precisa recorrer a uma caricatura de agressor para deixar evidente a ameaça do personagem. Os gritos, a postura corporal e a mudança brusca de comportamento fazem parte de uma construção que acompanha a escalada da violência já estabelecida pelos autores. O resultado é um personagem assustador justamente porque sua agressividade surge inserida em situações cotidianas, e não como um comportamento permanentemente exagerado.

Já Arlyane tem um desempenho particularmente tocante como Dafne. A atriz consegue transmitir o desespero de uma criança que entende que alguma coisa muito errada está acontecendo, mas não tem condições de impedir aquilo. A maneira como Daphne tenta se proteger colocando a música para tocar, permanece na porta e depois se encolhe na cama traduz o trauma sem necessidade de explicações.

A força do trio está também na interação. Mariana Sena não precisa verbalizar tudo para que Arlyane Carvalho reaja, assim como Arlyane não precisa explicar o que sente para que o público compreenda o que aquela situação provocou em Dafne. Allan, por sua vez, sustenta a tensão da cena sem que o núcleo dependa de uma agressividade teatralizada.

É um trabalho de atores que potencializa uma construção de texto e direção que já era muito bem resolvida.

Depois, quando Elenice entra no quarto e encontra a filha encolhida na cama, a cena ganha uma segunda camada. Ela não precisa dizer nada. Apenas se deita ao lado da menina.

É o momento em que mãe e filha compartilham silenciosamente as consequências daquela violência.

E a sequência ainda termina com outro golpe. Dafne vai até a rua e vê Tom subindo na moto. Antes que ele vá embora, grita que o odeia.

É uma conclusão simples e, justamente por isso, muito forte.

A novela não precisou de gritaria, sangue ou uma agressão exibida em detalhes para produzir impacto. Tudo o que precisava mostrar estava na reação de Daphne, no rosto de Elenice, nas sombras projetadas na parede e naquela caixinha de música tocando enquanto uma criança tentava não ouvir o que acontecia dentro da própria casa.

Esse é o grande acerto da abordagem.

E não deixa de ser significativo que a violência contra a mulher também tenha sido discutida em Por Você, atual novela das sete, escrita por Dino Cantelli e Juliana Peres, no mesmo período. Em outra cena forte, Lucas (Amaury Lorenzo) alerta sua turma depois que um aluno agride a professora Margô (Regiane Alves). É nesse contexto que o personagem menciona o dado de que, no Brasil, uma mulher é morta a cada seis horas.

A coincidência de as duas novelas tratarem do assunto no mesmo dia chama atenção e mostra como a teledramaturgia continua encontrando diferentes maneiras de colocar a violência contra a mulher em discussão. Em Por Você, o tema aparece a partir de uma agressão contra uma professora e do diálogo de Lucas com os alunos. Em Quem Ama Cuida, a discussão é construída dentro de uma família, mostrando a escalada do abuso e o trauma provocado em uma criança que presencia a violência contra a própria mãe.

São abordagens distintas, mas igualmente importantes dentro de suas respectivas histórias.

E Quem Ama Cuida acerta especialmente ao não apresentar a violência doméstica como algo que começa no momento em que o agressor coloca a mão na vítima. A novela mostra que, antes do apertão no braço, vieram a intimidação, o controle, os gritos e a submissão construída pelo medo.

Quando finalmente chega à agressão física, o público já compreende toda a dimensão daquela relação.

Por isso a sequência desta quinta-feira, dia 17, teve tanto impacto. Ela não é apenas uma cena forte colocada no capítulo para provocar reação. É a consequência de uma construção que vem sendo feita aos poucos e que ganhou em Dafne um elemento dramático fundamental.

Elenice não está mais sozinha nessa história. A filha viu, ouviu e entendeu.

Talvez seja justamente por isso que a caixinha de música tenha sido tão simbólica. Enquanto Dafne tenta se refugiar em Clair de Lune, a novela lembra que, dentro de muitas casas, crianças também aprendem a conviver com aquilo que não deveriam sequer conhecer.

Infelizmente, abordar a violência doméstica nunca se torna ultrapassado. E quando a televisão consegue falar sobre o assunto de forma bem construída, faz o público compreender o ciclo da violência e suas consequências, o que gera discussão.

Quem Ama Cuida encontrou uma maneira particularmente eficiente de fazer isso com Elenice, Tom e Dafne. E fez isso sem precisar mostrar tudo, ainda que não tenha nada de errado em mostrar. A teledramaturgia não pode ter medo de chocar, mas às vezes basta uma sombra na parede, uma criança fechando os ouvidos e uma música delicada tentando vencer os gritos.

Um comentário:

chica disse...

Esse tema da violência doméstica quanto mais tratado e mostrado melhor para alertar todos os tipos que exisstem dela.

òtimo fds! abração,chica