O casal “Loquinha”, de Três Graças, entrou para a história recente da teledramaturgia não apenas pela química arrebatadora entre Juquinha, de Gabriela Medvedovsky, e Lorena, interpretada por Alanis Guillen, mas pela maneira como a novela rompeu um padrão cansativo e limitador imposto aos casais lésbicos nas novelas brasileiras. Pela primeira vez em muito tempo, duas mulheres se apaixonaram livremente desde o início, sem um homem servindo como intermediário emocional, sem um casamento hétero frustrado como gatilho narrativo e sem a velha lógica de “descoberta” baseada em sofrimento conjugal. Era desejo, encanto e paixão acontecendo de forma direta, espontânea e luminosa. E talvez tenha sido justamente por isso que o público tenha reagido tão mal ao desfecho.
O desenvolvimento de Juquinha e Lorena foi um pequeno acontecimento cultural dentro da própria Globo. Em uma emissora historicamente conservadora em suas cúpulas, acostumada a impor limites velados à representação LGBTQIA+, a novela surpreendeu ao blindar o casal de censuras tradicionais. Não houve “cota de beijos”, nem aquele constrangimento clássico de sugerir intimidade sem mostrá-la. Juquinha e Lorena tiveram um relacionamento completo: trocaram olhares, desejo, afeto, cenas domésticas e muitos beijos em horários nobres, sem a narrativa pedir desculpas por isso. O sucesso internacional da novela ajudou a consolidar essa liberdade criativa e transformou as duas em um dos casais mais populares da dramaturgia recente. Por isso o final foi tão decepcionante.
O problema nunca esteve na ideia de barriga solidária em si. Famílias plurais existem e podem render histórias emocionantes. O erro foi a escolha completamente artificial de Juquinha como gestante do filho de Viviane, vivida por Gabriela Loran, e Leonardo, personagem de Pedro Novaes.
Ao longo de toda a novela, Juquinha praticamente não construiu vínculo com Leo. Os dois mal contracenaram. Também não havia intimidade suficiente entre ela e Viviane para justificar uma decisão tão profunda. A conexão entre as personagens se limitava aos momentos em que enfrentavam o preconceito de Ferette, interpretado por Murilo Benício. Isso está muito longe de sustentar dramaticamente uma barriga solidária.A sensação transmitida foi de uma solução escrita às pressas para amarrar núcleos queridos pelo público sem respeitar a lógica emocional da narrativa. E ficou ainda mais estranho quando os autores decidiram engravidar Lorena simultaneamente. Duas protagonistas lésbicas grávidas ao mesmo tempo, dentro de um arranjo que sugeria uma convivência coletiva entre os quatro personagens, acabou criando uma impressão de “quadrilátero familiar” que lembrava diretamente os problemas vistos em "Dona de Mim". Lá, a tentativa de unir um casal lésbico e um casal gay em uma dinâmica doméstica acabou apagando a individualidade do casal sáfico, que perdeu espaço e identidade narrativa assim que os homens passaram a ocupar o centro da convivência. E o mais frustrante é que “Três Graças” não precisava disso.
Viviane e Leonardo tinham torcida própria, química própria e funcionavam perfeitamente como casal independente ---- e importante ressaltar: um par hétero. Não havia necessidade de conectar a realização familiar deles ao corpo de Juquinha. A novela já havia apresentado alternativas muito mais coerentes dramaticamente. A própria Zenilda (Andreia Horta) poderia ter sido barriga solidária, por exemplo. Ou melhor ainda: os autores poderiam ter seguido o caminho da adoção, algo que a própria Viviane verbalizou durante o jantar em que enfrentou Ferette (Murilo Benício) ao revelar ser uma mulher trans. Aquela fala tinha força simbólica, coerência temática e dialogava com a construção humanista da personagem. Ignorá-la no final fez parecer que a novela abandonou suas próprias ideias.
Se ainda quisessem insistir em uma barriga solidária dentro da família, Lorena faria muito mais sentido como escolha. Sua relação com Leo sempre foi afetuosa, cúmplice e genuína. Ela torcia pelo irmão e por Viviane desde o começo. Existia ali uma intimidade emocional real. Com Juquinha, porém, a decisão pareceu puramente mecânica.
A reação negativa nas redes sociais foi, portanto, compreensível. O público não rejeitou famílias alternativas nem maternidade compartilhada. O que desagradou foi a falta de organicidade. Depois de uma construção tão delicada, moderna e corajosa para Juquinha e Lorena, o final pareceu desmontar parte daquilo que fazia o casal especial. Em vez de encerrar a trajetória das duas reforçando sua autonomia afetiva, a novela terminou diluindo-as em uma configuração excessivamente calculada para agradar todos os fandons ao mesmo tempo.
E, no fim, acabou desagradando justamente quem mais esteve ao lado delas durante toda a novela.
5 comentários:
Sérgio, lograste plasmar perfectamente el sentir de una parte del público (no solo de las lesbianas en general sino también de parte del público hétero al que tampoco le gustó ese final).
Solo agregaría que además se siente como una descarectización de Juquinha.
Gracias por expresar tan bien el sentir de muchos.
Olá, Sérgio.
Não acompanhei essa novela.
Beijos,
Lulu on the sky
Perfeito. As reclamações do fandom são exatamente por esses motivos que você pontuou.
Análise perfeita! Outras alternativas poderiam ser tomadas! A adoção seria a mais correta pela a história da novela já que houve o tráfico de bebês....Triste pelas meninas... mas alegre pelo sucesso delas! Que venham mais trabalhos! Elas merecem
Sim, talvez seja isso também; mas, quando você tenta agradar fãs tóxicos, acaba recebendo algo de volta — e não venha me dizer que esse grupo de fãs nunca foi tóxico, pois você estaria apenas mentindo para si mesmo e se tornando infeliz. Bem feito para o Aguinaldo: eu quero uma novela dramática, não um mero *fanservice*. É incrível que nem mesmo a Lígia tenha recebido uma narrativa adequada; a história da bebê da Joelly foi tratada de forma superficial e, quanto à Dira Paes — por uma questão de moralidade —, ela nunca mais precisará fazer uma novela com o Aguinaldo. Aquele casal, Lorena e Juquinha, nem sequer precisava de um cenário fixo; a história deles resumia-se na verdade, a provocar a Ferette. E nada além disso — o que ficou comprovado nos últimos meses da ausência de narrativa para as mininas.
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