Após o problemático e catastrófico remake de "Vale Tudo", é possível afirmar que "Três Graças" foi um verdadeiro sopro de esperança no horário nobre da Globo. A novela, que chegou ao fim nesta sexta-feira (15/05), marcou o retorno de Aguinaldo Silva à emissora após seu desligamento motivado pelo fracasso e pelas inúmeras polêmicas que cercaram "O Sétimo Guardião", sua última obra até então. Naquela produção, tudo deu errado: do enredo aos bastidores, passando pelo elenco e pelas decisões criativas. Ironicamente, Aguinaldo foi recontratado justamente no período em que a Globo produzia o remake de "Vale Tudo", novela da qual foi um dos autores originais ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères. O único autor vivo do fenômeno viu sua obra ser mutilada por Manuela Dias e, conhecido por sua língua ferina, preferiu não comentar diretamente o resultado. Resolveu responder da melhor maneira possível: escrevendo novela.
E a resposta veio forte. Aguinaldo declarou que queria descobrir se ainda sabia fazer novelas. Descobriu --- e provou --- que sabe muito. Ao lado de Virgilio Silva e Zé Dassilva, entregou uma obra que abraçou sem vergonha o folhetim clássico, entendendo perfeitamente aquilo que parte da dramaturgia atual parece ter desaprendido: novela precisa de construção, catarse e emoção. Não basta parecer uma série de streaming de quinze capítulos esticada até não poder mais. Em "Três Graças", os conflitos tiveram tempo para amadurecer, as viradas foram preparadas e os dramas nunca surgiam de maneira gratuita. Tudo era cuidadosamente trabalhado para atingir o telespectador no momento certo.
A trama centrada em Gerluce (Sophie Charlotte), Lígia (Dira Paes) e Joélly (Alana Cabral) foi um dos grandes acertos da novela. Três mulheres de gerações diferentes marcadas pela maternidade precoce e pelo abandono masculino serviram como retrato de milhares de brasileiras.
A identificação do público foi imediata. A partir desse núcleo dramático, os autores souberam inserir todos os elementos tradicionais do melhor melodrama: vilania caricata, romances arrebatadores, humor popular, suspense, traições e até sequências de ação.A dupla de vilões formada por Arminda (Grazi Massafera) e Ferette (Murilo Benício) entrou para a galeria de grandes antagonistas recentes da teledramaturgia. Arminda carregava o DNA clássico das vilãs exageradas de Aguinaldo Silva, enquanto Ferette surgia como um antagonista frio e calculista, usando uma fundação beneficente como fachada para fabricar remédios falsos distribuídos à população pobre enquanto enriquecia às custas da morte de inocentes. A morte de Lígia, causada indiretamente por esse esquema criminoso, serviu como elo definitivo entre mocinha e vilões e deu à trama uma motivação emocional poderosa. Ao mesmo tempo, os personagens foram mergulhando na ironia e comicidade, o que fez a dupla crescer ainda mais.
A ousadia dos autores apareceu de vez quando Gerluce formou uma quadrilha para roubar a estátua das Três Graças. A sequência do assalto virou um dos momentos mais celebrados da novela justamente porque rompeu com a ideia da protagonista perfeita e moralmente impecável. O público comprou a causa porque Gerluce era falha, impulsiva, vingativa e humana. A utilização da mitologia grega como paralelo às três mulheres centrais --- Lígia Maria das Graças, Gerluce Maria das Graças e Joélly Maria das Graças ---- foi criativa e sofisticada sem soar pretensiosa.
Outro grande mérito da novela foi a construção dos casais. Paulinho (Rômulo Estrela) surgiu como um mocinho extremamente ético, mas abalado ao descobrir que sua própria namorada era a mentora do crime que investigava. O relacionamento dos dois foi desenvolvido com calma e inteligência, fazendo o público genuinamente torcer pela reconciliação.
Mas nenhum casal furou tanto a bolha quanto Loquinha, formado por Juquinha (Gabi Medvedovsky) e Lorena (Alanis Guillen). O romance virou fenômeno nacional e internacional, ajudando a blindar as personagens de possíveis interferências conservadoras da própria emissora. Pela primeira vez na teledramaturgia brasileira, um casal lésbico foi tratado exatamente como qualquer casal hétero: com beijos frequentes, desejo, intimidade e até uma cena de sexo sugerida de maneira elegante e sensível. O sucesso foi tão grande que as personagens ganharam uma “novelinha” vertical nas redes sociais da Globo.
A novela também acertou ao investir em romances secundários carismáticos. Kellen (Luiza Rosa) e Zé Maria (Túlio Starling) conquistaram o público rapidamente, assim como Junior (Guthierry Sotero) e Maggye (Mell Muzzillo). Houve ainda o curioso reencontro de Belo e Viviane Araújo em cena, numa jogada assumidamente calculada para repercutir nas redes sociais. Ainda que Consuelo pouco acrescentasse dramaticamente, o impacto midiático funcionou.
Outro destaque foi o romance entre Leo (Pedro Novaes) e Viviane (Gabriela Loran). A descoberta de que Vivi era uma mulher trans gerou uma das cenas mais fortes da novela, extremamente bem interpretada pelos dois atores. O roteiro conseguiu abordar representatividade sem transformar a personagem apenas em discurso, algo raro em produções recentes. A trajetória de Leo, confrontando o próprio preconceito para viver o amor, emocionou bastante, embora faltasse uma punição mais dura pela cumplicidade dele no esquema criminoso do pai.
Apesar dos inúmeros acertos, "Três Graças" não foi perfeita. A principal falha esteve justamente na forma como o roteiro tratou os homens que abandonaram as protagonistas. A essência da novela era discutir mulheres que criaram os filhos sozinhas, mas vários personagens masculinos acabaram excessivamente perdoados. Jorginho Ninja (Juliano Cazarré), por exemplo, terminou praticamente santificado após surgir convertido e morrer como herói. Joaquim (Marcos Palmeira) ignorou Lígia e suas descendentes durante anos para depois receber reconciliação quase sem consequências. É verdade que depois Lígia flagrou o resto do dinheiro da expropriação com ele, o que motivou o término definitivo, mas ficou a dúvida sobre um desfecho planejado desde o início ou uma mudança de rumo pelas fortes críticas na imprensa e nos comentários do público nas redes sociais.
Houve também alguns tropeços narrativos. O núcleo do porteiro Rivaldo (Augusto Madeira) começou muito promissor, mas perdeu completamente a força após a chegada da família, composta pela esposa e os sogros. As situações cômicas ficaram repetitivas e deslocadas, resultando em um núcleo que parecia existir apenas para preencher tempo. Um desperdício do talento de Juliana Alves, Rejane Faria e Otávio Muller. A tentativa de inserir uma trama sobre autismo no personagem Cristiano (Davi Luis Flores) acabou soando artificial e mal desenvolvida, especialmente porque o comportamento anterior do garoto não sustentava a mudança brusca proposta pelo roteiro.
Outro desperdício foi Rogério (Eduardo Moscovis). O clichê do personagem dado como morto retornando para se vingar costuma funcionar muito bem em novelas, mas aqui faltou ação concreta. Durante meses, o empresário parecia apenas reunir aliados e formular planos que nunca saíam do papel. Também é preciso sublinhar a exaustiva obsessão de Kasper (Miguel Falabella) na escultura das Três Graças. Virou um ciclo repetitivo que tirou a paciência de quem assistia. E o que dizer do arco dramático de Lucélia (Daphne Bozaski)? A atriz brilhou na pele de sua primeira vilã e se saiu muito bem em todas as cenas da menina invejosa que amava vomitar barbaridades, mas ter virado chefe do tráfico sem ter trocado um tiro sequer com os bandidos da favela não fez qualquer sentido. Aliás, que bandidos? Os únicos criminosos da comunidade eram Bagdá (Xamã), Vandilson (Vinicius Teixeira) e Alemão (Lucas Righi). A sensação é que a Globo mais uma vez não quis pagar mais figuração para dar realismo nas cenas, vide o que acontece em "A Nobreza do Amor". Um corte de custos que só prejudica. Também é preciso mencionar a perda da força de Bagdá ao longo dos meses. O todo poderoso da favela meteu medo só no começo da trama porque depois se revelou um frouxo. Vale destacar ainda mais uma deficiência narrativa perto da reta final, em que houve uma clara quebra de ritmo na novela, o que afetou o interesse do público, uma vez que os números de audiência, que costumam aumentar significativamente nas emoções derradeiras, não reagiram.
Ainda assim, são problemas pequenos diante da força da obra. A direção de Luiz Henrique Rios foi um espetáculo à parte. O diretor compreendeu perfeitamente o tom da novela e apostou sem medo no dramalhão clássico, utilizando closes exagerados, trilha incidental carregada e uma encenação quase mexicana em determinados momentos. Tudo isso poderia soar cafona em outra produção, mas aqui combinou perfeitamente com o espírito folhetinesco da trama.
O elenco também merece elogios generosos. Além dos já citados, vale destacar Lorrana Mousinho (Cláudia), Glaura Lacerda (Gisleyne), Lucas Righi e Vinicius Teixeira como ótimas revelações. Bárbara Reis brilhou como Lena, Enrique Diaz deu humanidade ao pastor Alberico e Carla Marins fez um retorno divertido às novelas como Xênica. Já Arlete Salles finalmente recebeu um papel à altura de seu talento como dona Josefa, protagonizando cenas memoráveis ao lado de Grazi Massafera e Sophie Charlotte. Mas a personagem perdeu importância depois que Gerluce e Arminda saíram da mansão. Os autores pareceram perdidos quanto ao papel da veterana no enredo quando passou a conviver com Rogério.
E um núcleo que cresceu enormemente ao longo da novela foi o da delegacia. Paulinho (Rômulo Estrela), Juquinha (Gabi Medvedovsky) e o delegado Jairo (André Mattos) formaram um trio absolutamente delicioso de acompanhar. Mais do que colegas de trabalho, os personagens funcionavam como uma verdadeira família afetiva, daquelas que o público abraça naturalmente. O crescimento desse núcleo também aconteceu porque a novela soube explorar muito bem a investigação criminal. Sempre havia um novo mistério, um assassinato, uma pista ou alguma movimentação envolvendo os vilões, o que mantinha os personagens ativos e relevantes dentro da narrativa. A dinâmica entre o policial ético, a investigadora sarcástica e o delegado excessivamente cauteloso, mas carismático, gerou cenas divertidas e humanas.
Também merece muitos elogios Kelzy Ecard na pele da governanta Helga. A personagem cresceu ao longo da trama e isso aconteceu muito mais graças ao talento da atriz do que propriamente ao planejamento inicial dos autores, que chegaram a declarar que Helga seria apenas uma participação rápida. Kelzy transformou a governanta em uma figura cheia de personalidade, humor ácido e humanidade, roubando cenas até nos momentos mais simples, vide sua paixão platônica por Arminda revelada perto do fim da obra.
Outro destaque do elenco foi Paulo Mendes como Raul. O ator soube defender muito bem um personagem problemático, covarde e emocionalmente frágil, que passou boa parte da novela fugindo das próprias responsabilidades. Sua redenção foi a mais crível porque Raul nunca foi tratado como um herói absoluto. Ainda assim, a novela falhou ao não aprofundar devidamente a questão do vício do personagem. Abordar o tema das drogas de maneira tão genérica acabou desperdiçando a oportunidade de discutir algo realmente necessário. A sugestão subliminar de que Raul seria dependente de maconha soou simplista, conservadora e até um pouco ridícula diante da complexidade que o tema exigia.
"Três Graças" também devolveu ao telespectador um prazer que parecia proibido na dramaturgia recente: vibrar com a clássica surra da mocinha na vilã. Sororidade é fundamental na vida real, mas a ficção não precisa abrir mão de um clichê tão delicioso quando ele funciona dramaticamente. Gerluce deu uma verdadeira surra em Arminda em uma das cenas mais comemoradas da novela, depois puxou os cabelos da rival através das grades da cela em outro momento e ainda lhe acertou um tapa em mais uma sequência explosiva. O público vibrou exatamente porque a novela compreendia a natureza folhetinesca dessas situações e não tinha vergonha de abraçá-las.
E não foi só Gerluce que perdeu a paciência com a vilã. Zenilda, interpretada brilhantemente por Andreia Horta, protagonizou outro momento antológico ao espancar Arminda e Ferette após flagrar o marido com a amante. Andreia foi um dos grandes nomes do elenco e entregou uma trajetória extremamente consistente. Sua personagem começou a novela como uma mulher completamente submissa ao marido poderoso, mas aos poucos encontrou forças para se libertar daquela relação tóxica e assumir um papel importante na narrativa ao advogar para Gerluce e os demais envolvidos no roubo das Três Graças.
Vale elogiar também as participações de Cláudio Gabriel e Regiane Alves como o desembargador Henrique e a designer Violeta, pais de Juquinha. Mesmo com poucas cenas, os personagens tiveram enorme importância ao representar uma família que acolhe a sexualidade da filha com amor, respeito e naturalidade. O contraste funcionava perfeitamente diante da realidade de Lorena, que sofreu intensamente com a homofobia do próprio pai. Foi uma maneira simples, mas eficiente, de mostrar diferentes reações familiares sem transformar tudo em discurso panfletário.
A breve participação de Luiz Fernando Guimarães como Michelângelo também foi um acerto. O personagem retornou na última semana para celebrar os casamentos de Juquinha e Lorena, além de Leo e Viviane, trazendo leveza e emoção para o desfecho. Ainda conheceu João Rubens (Samuel de Assis), recém-separado de Kasper. Já Aline Fanju se destacou como a inescrupulosa delegada Marize, outra ótima antagonista inserida no enredo.
E Aguinaldo Silva ainda brincou com um divertido crossover envolvendo dois personagens lembrados de suas novelas: Crô (Marcelo Serrado), de "Fina Estampa", e Téo Pereira (Paulo Betti), de "Império". Ambos os personagens, extremamente caricatos e estereotipados, fizeram sucesso em suas novelas originais e retornaram aqui de maneira surpreendentemente orgânica. Aguinaldo teve inteligência para utilizá-los dentro do contexto da narrativa sem exagerar no tempo em cena, transformando o crossover em fan service divertido ao invés de algo gratuito ou cansativo.
O penúltimo capítulo ficou marcado pela cena de pura galhofa, quando Arminda foi flagrada por Ferette ao beijos com Joaquim, e enlouqueceu de vez. A vilã roubou o caminhão-guinjo do dono do ferro-velho, que se chama Nazaré, e atropelou Lucélia, enquanto o dinheiro guardado na caçamba voou e ocasionou um caos na Chacrinha. A vilã morreu diante das notas que tanto cobiçava, enquanto as pessoas disputavam a tapa cada cédula e Arminda ia presa em flagrante por Paulinho. Embora a sequência tenha dividido opiniões nas redes sociais, é importante salientar que nada é melhor do que autor que sabe rir de si mesmo. E os três Silvas mostram isso nessa cena.
Já o último capítulo teve o clichê do sequestro. Samira, mancomunada com Ferette e vestida de Nazaré Tedesco, roubou a quarta Graça (a carismática Iris Marins), para o desespero de Gerluce, que precisou adiar mais um pouquinho o seu casamento e final feliz com Paulinho. Mas tudo se resolveu rapidamente. Paulinho atirou na mão de Ferette, prendeu o vilão, enquanto Juquinha e Jairo pegaram Samira. Os mocinhos se casaram em uma cerimônia linda e deu gosto torcer por eles. Oito anos se passaram e Samira apareceu em um presídio sem receber a visita de ninguém, enquanto Ferette alucinava em outra unidade carcerária tendo a Gerluce vestida de policial como seu maior pesadelo. Vale um adendo na coragem dos autores em botarem no texto que Ferette só não foi pior do que Hitler. E a formatura de Joelly em medicina foi o momento mais delicado do final, com direito a uma justa homenagem a nomes como Nise da Silveira, Zilda Arns e Margareth Dalcomo.
No fim, "Três Graças" encerrou sua trajetória com a mesma média de audiência do remake de "Vale Tudo": 23 pontos. Mas a repercussão foi completamente diferente. Enquanto o remake passou boa parte de sua exibição cercado por críticas e rejeição, a novela de Aguinaldo Silva mobilizou redes sociais, criou fandoms, gerou debates e reconectou o público com o prazer de acompanhar um novelão clássico. A parceria entre Aguinaldo, Virgilio Silva e Zé Dassilva mostrou-se extremamente afiada e deixou claro que ainda existe espaço para folhetins assumidamente populares, emocionantes e cheios de personalidade no horário nobre brasileiro.
Mais do que um sucesso, "Três Graças" foi a prova de que a novela tradicional ainda pulsa forte quando encontra autores que entendem sua essência.
2 comentários:
Olha cara, não vejo isto como algo assim tão controverso. Se me dissesse que o Juquinha se apaixonou recentemente pelo irmão da Lorena, aí sim acho que poderia argumentar. Porque isso seria considerado uma traição à personagem; nesse caso, a simples menção de uma ideia de "romance" entre os dois casais soaria um pouco exagerada. Mas, no final de contas, até o Aguinaldo vai acabar por provar um pouco do hate de certos club de fãs tóxicos.
Antes que eu me esqueça: até porque a atriz que interpreta a Vivienne (acho que o nome dela é Gabriela) foi convidada pela própria irmã para servir de barriga de aluguel e gerar um bebê para ela.
https://caras.com.br/atualidades/gabriela-loran-fala-sobre-planos-para-ser-mae-e-define-prazo-sonho-numero-um.phtml
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