quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

"As Five" tem boas qualidades, mas não foi feita para quem acompanhou "Viva a Diferença"

 O título do texto parece contraditório. Afinal, todo spin-off que se preza é oriundo de um produto de imenso sucesso com o intuito de agradar aos fãs 'órfãos', após o fim de uma determinada série, novela ou filme. Porém, "As Five" foge da regra. A série, escrita por Cao Hamburger e dirigida por José Eduardo Belmonte, é repleta de qualidades e merece o sucesso que vem fazendo na Globoplay (a primeira temporada, exibida semanalmente pelo serviço de streaming da Globo, chegou ao fim nesta semana). A questão é que os problemas do roteiro ficam evidentes para o telespectador de "Malhação - Viva a Diferença". 

O primeiro e mais perceptível é o arco temporal. A série é exibida seis anos após o encerramento de "Malhação". E a história foi exibida pela Globo (reprisada atualmente, já na reta final) em 2017. Mas a trama de "As Five" é de 2019 (ano em que foi gravada) e as personagens se referem ao passado como se fosse por volta de 2012 ou até na década de 90. Vide uma fala de Keyla (Gabi Medvedovski) dizendo que a última vez que saiu para dançar a banda Jota Quest estava no auge. Parece bobagem, mas é justamente através dos pequenos diálogos que a confusão do período do enredo sobressai. 

Outro fato impossível de não ser questionado é a premissa da série. As cinco protagonistas se reencontram no enterro da mãe de uma delas (Tina - Ana Hikari), após seis anos de afastamento e três sem mensagens enviadas no grupo de WhatsApp. A ideia é ótima, pois retrata o oposto do primeiro encontro do quinteto em "Malhação": o nascimento de uma criança.

Mas as razões para o afastamento não são nada convincentes. É normal que amizades da escola não sejam mantidas na vida adulta. Só que todas nunca enviaram mensagens há três anos? Só uma foi enviada para comunicar o velório? Para piorar, nenhuma desenvolveu novos vínculos. Ninguém tem novas amigas ou amigos. 

A premissa do afastamento fica ainda pior em torno de Keyla e Benê (Daphne Bozaski). O pai de Keyla praticamente se casou com a mãe de Benê. Roney (Lúcio Mauro Filho) e Josefina (Aline Fanju) passaram quase a temporada toda de "Malhação" juntos. Como as duas amigas nunca se falaram? Aliás, o fato implica em outro problema visível do roteiro: como estão tão desamparadas com familiares tão amorosos? Keyla era mãe solteira, mas sempre teve total suporte do pai e de seu namorado, o íntegro Tato (Matheus Abreu). O rapaz lutou praticamente a história toda para se casar com a filha de Roney e assumir o filho que não era dele. Já Josefina nunca deixou a filha autista sem apoio. Benê ainda tinha um irmão implicante, mas presente: Julinho (Davi Souza). Tudo bem que é natural pais e filhos se desvincularem um pouco na vida adulta, mas não da forma que a série mostra. Elas parecem largadas. Claro que há o fato da escalação de elenco, mas tudo se resolveria com simples telefonemas ---- até para explicar ao público o que houve com eles. Tato morreu? Roney sofreu um infarto fulminante? Josefina viajou para Londres com o filho? Houve um terremoto e todos morreram?

O descobrimento a respeito da verdadeira sexualidade de Guto (Bruno Gadiol) já foi analisada no blog. O autor sempre quis que o personagem fosse gay, mas recuou diante do sucesso do par "Gunê" em "Malhação". E acabou desenvolvendo um detalhado roteiro sobre pessoas assexuais (que não sentem desejo por ninguém). Se havia uma vontade tão grande de desenvolver a questão da homossexualidade na série, qual a razão da forma tão rasa como foi apresentada? O rapaz, após seis anos morando com Benedita, simplesmente disse que era gay e mandou a então esposa sair de casa. Ainda confessou que estava traindo a companheira. Na maior frieza. Precisava transformá-lo em um canalha? E a reação de Benedita também não foi nada crível. Todos os seus términos com Guto em "Malhação" (e foram vários) resultavam em profundas crises na menina que sofre da Síndrome de Asperger. Mas, na série, a personagem não só aceitou tranquilamente, como sentiu tesão em vê- beijando outro homem. Também não demorou para sentir interesse em um novo pretendente, no caso o complexado Nem (Thalles Cabral). Na verdade, foi assim que o viu. 

O plot de Benê na série, ao menos, é o mais interessante. Vale a pena acompanhar a descoberta da sexualidade da personagem. É tudo muito bem colocado, até com alguns instantes cômicos. E Daphne Bozaski segue como grande trunfo do quinteto. Mas o conjunto do novo relacionamento é quase igual ao da personagem com Guto em "Malhação". Guto não transava com a menina porque se dizia assexual e ela sentia horror ao toque. Já Nem é um viciado em pornografia e por isso se vê impotente diante do sexo "presencial". O garoto é tão introvertido quanto Guto e a relação com Benê foi iniciada através de uma aula de piano. A diferença é que ele era o aluno e Benedita a professora (em "Malhação" era o contrário). O rapaz também é, em alguns momentos, tão grosseiro com Benedita quanto o ex da autista. Nem não deixa de ser uma espécie de 'Guto Gótico'. E a revelação sobre a verdadeira sexualidade de Guto serviu apenas para retirar o talentoso Bruno Gadiol da série. Porque a descoberta da sexualidade da personagem poderia ter sido desenvolvida ao lado do então marido. Em nada atrapalharia o conflito. Até porque a personagem morar com Lica (Manoela Aliperti) era o maior atrativo da separação do casal, mas não foi bem explorada. O maior destaque nas diferenças da rotina entre as amigas fica apenas no primeiro episódio. E qual a razão do Nem ser tão problemático? Nada é explicado, até porque o foco tem que ser nas cinco protagonistas. Mas Thalles Cabral e Daphne estão muito bem juntos. É o lado positivo. 

Voltando ao drama de Keyla, a personagem diz na série que seu maior sonho é ser atriz de musical. Tudo bem, sonhos mudam, assim como metas de vida, mas esse desejo nunca foi sequer cogitado em "Malhação". E o arco dela é justamente esse: a luta para atingir o sucesso diante de tantos testes e obstáculos, como a criação sozinha de Tonico (Matheus Dias). Não seria mais 'fácil' com um pai músico? Já os dramas de Lica, Tina e Ellen (Heslaine Vieira) são quase todos focados em chifres. Ou seja, traições. É um pouco decepcionante observar que o mote dos problemas de cada uma seja um clichê tão batido. Nada contra clichê. A dramaturgia não vive sem eles. Mas poderiam ao menos variar o conflito de cada uma. Ellen virou uma profissional respeitada e perfeccionista ao extremo, o que prejudica bastante seu estado emocional. Poderia esse ser o foco. Todavia, seu maior problema foi a traição do noivo 'gringo'. A personagem nem pensou muito para traí-lo com um garoto que conheceu em uma balada. O desgaste do relacionamento fica claro. O mesmo desgaste ocorre com Tina e Anderson (Juan Paiva), que moravam juntos há anos. A filha de Mitsuko (Lina Agifu) ainda o traiu com um garoto branco, embora essa outra problemática mereça mais ser abordada apenas por quem tem lugar de fala. Outro detalhe importante: a menina perdeu a mãe e o pai, Noboru (Carlos Takeshi), que sempre foi maravilhoso com a filha, nunca fez uma visita ou deu um telefonema. Já Lica segue a mesma irresponsável de "Malhação". Mas no caso dela a traição é de Samantha (Giovanna Grigio), que chifra a namorada com a ex, termina e ainda se vê sem rumo diante da imaturidade de Heloísa. Conflitos, por sinal, que poderiam ser abordados em qualquer temporada de "Malhação". O detalhe é a presença de algumas cenas de sexo, ainda assim bem subentendidas.

O último episódio peca pela má estruturação. Nem parece que é final de temporada e ocorre um corte brusco perto do desfecho. Demora um pouco para entender que de fato acabou. O êxito é o maior foco em Ellen e sua aprovação no mestrado. Seus diálogos com sua orientadora são maravilhosos. Já em torno das outras protagonistas tudo fica um tanto jogado, sem maiores conclusões ou ao menos com fechamentos de arcos dramáticos. E muitas cenas mostradas em teasers ou nos bastidores não foram ao ar. 

"As Five" é uma série que mantém a qualidade vista na elogiada "Viva a Diferença". E honra o êxito que fez e vem fazendo. É um sucesso merecido. A direção é primorosa, as cinco atrizes seguem em plena sintonia e a bem selecionada trilha é quase um personagem à parte. Mas o roteiro falha quando praticamente ignora todo o passado das meninas em "Malhação". Tanto que o melhor episódio (de título "Geração Z") é justamente o único que relembra a essência e a potência do quinteto central, vistas na temporada exibida na Globo. Resta torcer para que os equívocos do roteiro sejam corrigidos ou amenizados na segunda temporada, já encomendada pela emissora. Fará toda a diferença, com o perdão do trocadilho. 

18 comentários:

Anônimo disse...

Obrigada por traduzir em primorosos parágrafos tudo o que eu senti vendo a série. Pensei que era má vontade minha.

Gabriella disse...

Sérgio, parabéns por falar o que muitos não tiveram coragem. Achei um absurdo o Roney ter largado a filha naquela merda de vida que é mostrada na série. Não tem lógica. E ele casou com a Josefina e ela e Benê nunca se falaram em seis anos? Há falhas graves e visíveis.

Anônimo disse...

Todos os críticos que falam de As Five nunca viram nem 5 capítulos de Viva a Diferença. Você não, você tem base no que fala. Criticar com bons argumentos é outro nível. Parabéns pelo texto.

Heitor disse...

Se tivesse um lugarzinho para assinar embaixo eu assinava.

Anônimo disse...

O que eu percebi é que a série foi feita para as Limanthas insuportáveis, o resto é mero adorno e sem importância.

Quércia disse...

Josefina, Roney, Tato morreram e todas as cinco sofrem de mudanças de personalidade a cada episódio. E nao tinha reparado que tudo se resumia a chifre. Tem toda razão.

Lois Racca disse...

Você é incrível, Sérgio.

Anônimo disse...

O que fica claro é que essa série ruim foi feita pra dar biscoito para as limanthas siririqueiras do Twitter e dane-se o quinteto central. A história é chata, nada acontece, os familiares morreram todos e só sobraram os da Ellen, as protagonistas mudam de personalidade de acordo com o episódio.

Anônimo disse...

Só discordo que merece o sucesso. Não merece. E só fez sucesso mesmo com aquela bolha insuportável das Limanthas do Twitter pq os fãs de Malhação acharam uma bomba essa série Nem deveria ter segunda temporada.

Anônimo disse...

Sérgio, confesso que até queria acreditar que gostaria tanto de "As Five" como o fiz com "Malhação - Viva A Diferença" (2017), mas os muito bem embasados argumentos como de costume que você apresentou no texto meio que me desestimulam a querer acompanhar essa primeira temporada na íntegra e não me despertam ânimo algum para a estreia da segunda. Se fosse para haver essa ruptura com as tramas da fase de sucesso de "Malhação", seria melhor que esse spin-off nunca tivesse sido produzido. A intenção de compensar o encurtamento em um mês de "Malhação - Viva A Diferença" até foi boa, mas os comparativos entre as duas produções apresentam furos inadmissíveis para um autor do calibre de Cao Hamburger. E se o público não gostou do que viu em "As Five", sequer demonstrará interesse em ver o "Making Five" e o "Talk Five", e eu não os critico por isso, pelo contrário. Esperava mais de "As Five".

Guilherme

Marcos disse...

Sérgio, pra mim o grande problema da série foi realmente o roteiro. Porque eu já esperava que eles não explicassem o " sumiço " de vários personagens, mas ainda assim me senti muito incomodado. Por exemplo, Josefina jamais deixaria Benê desamparada, Roney jamais negaria ajuda a keyla pra criar o tônico, mesmo que ele quisesse que ela tivesse uma vida independente.
Outro problema pra mim foi a quantidade limitada de tempo dos episódios, que acabou minando o desenvolvimento das próprias personagens. Havia muitas mudanças repentinas entre uma cena e outra, principalmente nos primeiros episódios, que para mim não soavam criveís. Acho que se os episódios tivessem ao menos uma hora de duração cada, daria pra fazer algo melhor.
Então, pra mim, a série foi um pouco decepcionante. O Cao teve a chance de fazer um de seus melhores trabalhos, mas acabou pecando no roteiro.

Michelle disse...

Todos pontos que você colocou eu assino em baixo e ainda acrescentaria mais um aqui, assim como Bene e Keyla são quase irmãs, Ellen e Anderson SÃO IRMÃOS e ela não sabia da situação da sogra dele? Sendo que em tese ela e a cunhada eram amigas? Nenhum comentário?
Pq no primeiro episódio todas comentam que não sabia que era grave.

Karine Hemilly disse...

Tato podia até se separar de Keyla, mas jamais abandonaria o Tônico. Roney nem se fala, né!?

Maluca por series disse...

Concordo plenamente com a sua colocação.

Maluca por series disse...

Perfeito. Muitos deslizes

Maluca por series disse...

Perfeito tudo o que foi colocado no texto. Representou toda a minha opinião. E acho q o sucesso de Malhação não se deu apenas pelas “five” mas pelo elenco maravilhoso. Diante disso eu acredito que se o autor tivesse incluído mais personagens de malhação, a série teria uma sucesso maior. E concordo com os colegas sobre essa encheção de saco das “Limanthas”. Gentinha chata!

Chaconerrilla disse...

Não assisti a série e depois do seu texto, fiquei com menos vontade. Sinceramente, parece não ter nada de bom.

Walliton Contins disse...

Além de tudo que foi dito não entendi Keila passar dificuldade e nunca dar nenhuma telefonema para Deco que é pai da criança.O autor deve ler todas as críticas possíveis e tentar ajustar o roteiro, eu ainda acho que não precisava ter tantas senas de sexo. Parece que jovem não faz nada a não ser pensar nisso.