sábado, 31 de outubro de 2026

Mau Mau e Felipe em "Quem Ama Cuida": um beijo à altura da expectativa e que não precisa ser tratado como exceção

 Nesta sexta-feira (30/10), foi ao ar uma das cenas mais aguardadas de Quem Ama Cuida: o primeiro beijo de Felipe (Pietro Antonelli) e Maurício (João Victor Gonçalves), o nosso querido Maumau. Com quase quatro minutos de duração, a sequência foi lindamente conduzida pela diretora Amora Mautner e teve uma repercussão extremamente positiva nas redes sociais. E não poderia ser diferente. Afinal, depois de tanta expectativa, o público finalmente pôde acompanhar o momento em que a amizade e o sentimento que crescia entre os dois personagens se transformaram em um romance assumido.


É importante lembrar que Felipe e Maurício são, em boa medida, um casal construído a partir da mobilização do público nas redes sociais. Walcyr Carrasco sempre foi um autor atento à audiência, alguém que não tem receio de fazer mudanças significativas em suas histórias quando percebe que existe um caminho narrativo mais interessante a ser explorado. Não por acaso, emplaca um sucesso atrás do outro. E, desta vez, não foi diferente. Ao lado de Claudia Souto, sua talentosa parceira de longa data, o autor soube aproveitar a identificação espontânea dos telespectadores com a dupla e transformá-la em uma história de amor.

A sinopse original previa que Maurício se envolvesse com Fernando (Pedro Alves), mas o público se apaixonou por Felipe antes mesmo de a novela estrear. É evidente que essa mudança acabou interferindo no espaço inicialmente imaginado para o talentoso Pedro Alves, mas os autores tiveram o cuidado de não simplesmente descartar Fernando ou fazê-lo desaparecer da trama.

Pelo contrário: construíram um triângulo amoroso, uma escolha que se mostrou bastante benéfica para o enredo, sobretudo por colocar em cena uma configuração ainda pouco explorada na teledramaturgia: um triângulo amoroso gay.

Outro acerto foi a construção do relacionamento entre Felipe e Maumau. Os autores não resolveram juntar os dois repentinamente apenas para atender aos pedidos da audiência. Houve um processo de aproximação bem desenvolvido, que começou com uma amizade, ganhou intimidade e se tornou cada vez mais significativo. Maurício já demonstrava sentimentos que iam além da amizade, enquanto Felipe se identificava como heterossexual e não enxergava a relação da mesma maneira. Essa diferença foi trabalhada ao longo da narrativa, permitindo que a transformação dos sentimentos acontecesse de forma gradual e convincente.

Entretanto, se existe uma ressalva a fazer, é justamente a demora excessiva para esse beijo acontecer. É claro que uma história de amor precisa de construção, conflitos e desenvolvimento para despertar envolvimento e torcida. Nada mais frustrante do que um romance construído às pressas, sem profundidade ou justificativa narrativa. Mas também não é necessário prolongar tanto a expectativa, especialmente quando estamos falando de um casal homoafetivo. Infelizmente, ainda parece existir uma preocupação excessiva em preparar o público para demonstrações de afeto entre dois homens, como se fosse preciso testar a aceitação da audiência antes de permitir que esses personagens vivam um romance como qualquer outro.

E isso é particularmente questionável diante do momento em que estamos. Casais gays não deveriam precisar de uma preparação especial para protagonizar beijos, abraços e declarações de amor. Casais heterossexuais não passam por esse tipo de avaliação prévia, e não há justificativa para que os homoafetivos sejam tratados de maneira diferente.

Aliás, circularam notícias de que a Globo teria solicitado duas versões do beijo: uma mais contida e outra mais intensa, para avaliar qual delas iria ao ar. Se isso realmente aconteceu, seria uma situação bastante preocupante. Vale lembrar que algo semelhante ocorreu em Amor à Vida, quando Walcyr Carrasco entrou para a história da teledramaturgia com o beijo entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), exibido no último capítulo da novela. Na ocasião, também foram gravadas diferentes versões, e o público acabou recebendo um selinho de poucos segundos.

Aquilo aconteceu em 2014. Estamos em 2026. É inadmissível que uma demonstração de carinho entre dois homens ainda possa ser tratada como uma questão tão delicada dentro de uma emissora que se apresenta como atenta às transformações da sociedade.

Também surgiram informações de que a Globo teria preferido aguardar o encerramento das eleições para exibir o beijo. Não há confirmação pública suficiente para tratar essa informação como fato, e a emissora certamente poderá apresentar outra versão. Mas a simples circulação desse tipo de notícia já evidencia o quanto ainda existe uma percepção de que a representação homoafetiva precisa ser administrada com cautela, como se um beijo pudesse provocar algum tipo de consequência política ou comercial que não seria considerada diante de um casal heterossexual.

Mas voltemos ao que realmente importa: a cena!

Tudo foi realizado com uma sensibilidade admirável. Dos quase quatro minutos de sequência, praticamente dois foram dedicados exclusivamente aos toques, carícias e beijos dos personagens. Não houve necessidade de recorrer à penumbra, esconder os gestos de carinho ou utilizar enquadramentos que disfarçassem a intimidade dos dois. Felipe e Maurício puderam simplesmente se beijar, demonstrar afeto e viver aquele momento diante do público.

Pietro Antonelli e João Victor Gonçalves transbordaram química e sintonia. Os dois atores conseguiram transmitir a emoção, o desejo, a descoberta e a felicidade daquele primeiro beijo com muita naturalidade. A entrega dos intérpretes merece todos os elogios, assim como o texto de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, que preparou o terreno para que o momento tivesse o peso emocional necessário. E a direção de Amora Mautner foi outro grande destaque: a sequência teve delicadeza, beleza e intensidade na medida certa.

Para completar, a escolha de "Preciso Dizer que Te Amo", na interpretação de Cazuza e Bebel Gilberto, foi perfeita. A música ajudou a potencializar a emoção da cena sem tirar o protagonismo dos personagens. Foi um daqueles momentos em que texto, interpretação, direção e trilha sonora trabalham em perfeita sintonia.

Agora, resta torcer para que o beijo seja apenas o começo de uma nova fase para Felipe e Mau Mau. Que os dois continuem protagonizando cenas românticas, trocando carinhos e se beijando com a mesma naturalidade que qualquer casal heterossexual costuma ter nas novelas. Não adianta construir uma história de amor homoafetiva, conquistar a torcida do público e, depois do primeiro beijo, economizar nas demonstrações de afeto.

E vale lembrar o exemplo de Juquinha e Lorena, o casal Loquinha de Três Graças, interpretado por Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky. As duas protagonizaram momentos de carinho e beijos ao longo da trama, sem que a demonstração de afeto entre suas personagens precisasse ser transformada em um acontecimento excepcional a cada aparição. A recorrência desses momentos ajudou a naturalizar a relação e mostrou que é perfeitamente possível contar uma história de amor entre duas mulheres sem restringi-la a uma única cena emblemática.

É justamente isso que se espera de Quem Ama Cuida. O primeiro beijo de Felipe e Maumau foi lindo, emocionante e merecidamente celebrado. Mas o mais importante agora é que a novela não trate esse momento como uma cota de representatividade cumprida. Um casal homoafetivo precisa ter o direito de existir plenamente na ficção, com os mesmos conflitos, alegrias, intimidade e demonstrações de amor concedidos aos demais casais.

Porque, convenhamos, em pleno 2026, ainda estabelecer uma espécie de limite para a quantidade de beijos entre personagens do mesmo sexo é algo que não faz mais sentido. Representatividade não pode se resumir a um beijo aguardado durante meses e celebrado como uma conquista extraordinária. Ela também está na continuidade, na naturalidade e na liberdade de mostrar o amor sem ressalvas.

Felipe e Mau Mau finalmente se beijaram. E que venham muitos outros! Afinal, beijo não precisa ser evento, exceção ou concessão. Precisa ser apenas beijo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei o texto! Muito bem colocado. Cena linda. E que venham mais cenas como essa, com toda a naturalidade do mundo.