sábado, 9 de maio de 2026

Reta final de “Três Graças” banaliza os traumas das protagonistas em nome da redenção masculina

 Quando Três Graças foi anunciada por Aguinaldo Silva, Virgilio Silva e Zé Dassilva, a promessa era acompanhar a trajetória de três mulheres --- avó, mãe e filha --- marcadas pelo abandono, pela violência e pelas dificuldades impostas pelos homens que cruzaram seus caminhos. A força da novela estava justamente nessa rede feminina construída na ausência masculina. Porém, há poucos capítulos do fim, a sensação é de que a trama decidiu santificar justamente os homens responsáveis pelos maiores traumas das protagonistas.

A história de Lígia, Gerluce e Joelly sempre foi movida pela dor causada por seus parceiros. Dira Paes vive Lígia, abandonada grávida por Joaquim, personagem de Marcos Palmeira. O mais revoltante nem era o abandono em si, mas o fato de Joaquim ter permanecido a vida inteira praticamente ao lado da ex-companheira, na mesma favela da Chacrinha, sem nunca procurar a filha, a neta ou sequer demonstrar qualquer remorso verdadeiro.

Já Gerluce, interpretada por Sophie Charlotte, teve sua juventude destruída por Jorginho Ninja, papel de Juliano Cazarré. Na sinopse original, Joelly nasceria de um estupro cometido pelo traficante. A novela suavizou isso ao longo do caminho ---- talvez por censura da Globo, talvez por recuo dos próprios autores ----, mas manteve um relacionamento igualmente abusivo.

Jorginho perseguia Gerluce, não aceitava o fim da relação, a mantinha trancada em casa e a impedia de viver. Tudo isso era narrado pela mocinha porque iniciou a história já separada dele. Mesmo sem o estupro explícito, continuava sendo um homem violento, controlador e traumatizante.

E Joelly, vivida por Alana Cabral, também sofreu nas mãos de Raul, personagem de Paulo Mendes. Assim que descobriu a gravidez, o rapaz se recusou a assumir o bebê, sugeriu o aborto e, diante da negativa, participou diretamente da negociação da própria filha com Samira, a traficante de crianças interpretada por Fernanda Vasconcellos.

O problema não é a novela trabalhar redenção. Toda novela trabalha. O problema é a maneira como isso foi conduzido, quase transformando esses homens em mártires incompreendidos.

Jorginho Ninja foi o primeiro a passar pelo processo de “canonização”. Virou evangélico na cadeia, saiu da prisão regenerado e passou a ser tratado como exemplo de superação. Mesmo contra a vontade de Gerluce, conseguiu se aproximar de Joelly, virou um pai dedicado e morreu como herói ao tentar salvar a filha durante o parto, assassinado por Samira. A partir daí, praticamente todos os personagens passaram a tratá-lo com carinho e respeito, como se sua trajetória de violência tivesse sido apagada por uma conversão religiosa e um ato heroico final.

Gerluce nunca o perdoou completamente, mas a novela claramente esperava que o público perdoasse.

No caso de Raul, existe ao menos uma construção psicológica mais consistente. O personagem nunca foi retratado como um psicopata ou um homem cruel por natureza. Era um jovem irresponsável, emocionalmente destruído pela criação tóxica de Arminda, personagem de Grazi Massafera, que o comprou ainda bebê de Samira e jamais demonstrou afeto verdadeiro por ele. Depois, ainda descobriu ser filho biológico justamente de Samira com Ferette, vivido por Murilo Benício.

Só que o roteiro força demais a barra ao tentar inocentá-lo. A novela repete inúmeras vezes que Samira “roubou” a filha de Raul e Joelly, quando isso simplesmente não aconteceu. Eles venderam a criança e depois se arrependeram. Quem rompeu o acordo criminoso foram eles. Ainda assim, Raul não passou sequer um dia preso até agora, como se arrependimento e pedido de desculpas resolvessem automaticamente um crime tão grave.

E então chega Joaquim, talvez o caso mais frustrante de todos. Durante meses, Marcos Palmeira sustentou um personagem cheio de silêncios e mistérios, dando a impressão de que existia um segredo devastador por trás do abandono de Lígia e Gerluce. Isso não justificaria suas atitudes, claro, mas poderia ao menos servir de base dramática para uma reaproximação gradual.

Só que a revelação foi simplesmente: ele era covarde.

E pronto.

Nenhuma grande tragédia, nenhuma ameaça, nenhum motivo complexo. Apenas um homem que escolheu abandonar mulher, filha e neta por comodismo. Ainda assim, bastou ver a bisneta recuperada para chamá-la de “minha bisneta”, Lígia achar tudo lindo e os dois reatarem quase instantaneamente.

A química entre Dira Paes e Marcos Palmeira é inegável --- construída ao longo de trabalhos como os remakes de "O Rebu" e "Pantanal" ----, mas nem isso sustenta uma reconciliação tão apressada e pouco convincente. Ainda mais lembrando que, até semana passada, Joaquim estava se agarrando com Arminda em plena rua, ao lado da estátua das Três Graças.

E vale abrir um parêntese para Leonardo, personagem de Pedro Novaes. Embora não tenha ligação direta com as protagonistas, ele foi cúmplice ativo do pai no esquema dos remédios falsos que matou milhares de pessoas pobres. Mesmo assim, não ficou um dia sequer preso e ainda ganhou o perdão de Viviane, vivida por Gabriela Loran ---- ainda que essa reconciliação tenha sido minimamente mais trabalhada.

No fim, a sensação é de que "Três Graças" enfraqueceu justamente sua principal proposta. A novela começou como uma história sobre mulheres obrigadas a sobreviver sozinhas diante do abandono masculino, mas termina oferecendo absolvição quase irrestrita aos homens que mais feriram essas protagonistas. A mensagem que fica é estranha: pouco importa o tamanho da dor causada, porque no último capítulo sempre haverá espaço para redenção, romance e perdão. Mesmo quando nada foi realmente reparado.


8 comentários:

Anônimo disse...

Gosto de dizer que Três Graças é o melhor exemplo da diferença entre o feminino e o feminista. O primeiro coloca a narrativa feminina no centro, enquanto o segundo busca resgatar e melhorar o lugar da mulher na sociedade. Não posso ignorar o quanto Três Graças tem do primeiro e muito pouco do segundo. O fato de a mulher estar no centro é algo que reconheço, mas algo me parece errado, talvez a perspectiva de Aguinaldo de criar personagens masculinos fracos para melhorar a personagem feminina. Isso criou um problema porque, se você só cria homens fracos que são facilmente perdoados pelas mulheres como se fossem deusas, involuntariamente, você cria uma fraqueza que perpetua a noção de masculinidade e machismo que a telenovela busca desconstruir. Nunca acreditei que Aguinaldo fosse progressista ou "woke", e para ser honesta, nem eu, mas mesmo eu não posso negar que tudo parece mais uma regressão do que uma progressão. Essa é uma das razões que fizeram de Lorena e Juquinha o melhor casal. Aguinaldo chegou a criar a insegurança de Paul, que quase destruiu seu relacionamento perfeito com Gerluce. Depois do "roubo" no episódio 50, parece que a falta de noção do Twitter desapareceu. Aparentemente, o autor se sente mais confortável se preocupando menos com críticas e erros. Mas, de qualquer forma, posso esquecer isso que nada me machucará (de verdade) mais do que a narrativa desperdiçada de Lena, Samira e o bebê, indigna de um ex-jornalista policial e o autor de "Senhora do Destino".

Anônimo disse...

Aprecio muito que, a menos que tenham feito Gerluce não perdoar a ex, num mundo perfeito eu gostaria de um final em que Joelly decidisse criar o filho sozinha em homenagem às duas mulheres que a criaram. Quanto a Joaquin, ainda consigo acreditar na ideia de um homem covarde que tinha medo de amadurecer, em vez de um abusador ou um explorador de crianças. Ele foi o único que agiu para mudar e tentou ser uma pessoa melhor sem buscar perdão.

Pedrita disse...

escrita por homens. e um deles forçou o q muitas igrejas forçam q a igreja cura, deus cura. e concordo, um mudar dá pra engolir, mas 3 é banalizar e invalidar o machismo e a violência das mulheres em um país q mata 3 mulheres por dia por feminicídio. é reforçar nas mulheres que elas precisam perdoar pra morrer um pouco depois. beijos, pedrita

Shayane Guerra disse...

Exatamente o que eu pensei o pior desse tipo de narrativa e que ela perpétua o machismo estrutural que inválida a mulher, o mais triste que a novela três graças da ideia da mulher salvadora que tem que ser paciente e compreensiva que acaba criando um ciclo de violência que leva ao feminicidio onde a mulher perdoa o seu agresor por que ele se diz arrependido e no dia seguinte acaba morta

Marly disse...

Isso só mostra o quanto é difícil erradicar costumes e sistemas que se perpetuam por milênios. Parece que haveremos de enfrentar muita resistência, em nossa tentativa de mudar essas coisas.

Beijão

Leitora disse...

Olá, Sérgio!
Confesso que desanimei muito da novela nessa reta final, além de incoerências temos justamente esse ponto. Quando percebi que Lígia voltaria com Joaquim aí eu murchei de vez.
A Joélly e o Raul são novos deveriam pagar pela venda da filha? Deveriam. Meu ódio é eles falando que a criança foi roubada quando ela foi vendida pelos dois. Erraram? Muito, mas estão se aprumando. O Raul decidiu assumir a filha e criar ela com a Joélly, embora eles não mereçam e bato na tecla que não basta o arrependimento é preciso que haja uma punição. Pode ser que venha até o último capítulo, mas eu não queria isso no final, eu queria antes. Mas infelizmente fica todo mundo tratando os dois feito coitadinhos...

Leitora disse...

Sobre Lígia e Joaquim pra mim é o pior dos casos. No penúltimo capitulo ela diz para ele que não existe um nós isso dá a entender que ambos não ficaram juntos, eu não sei se o autores mudaram de ideia devido as críticas ou se a ideia sempre foi fazer isso, enfim não importa porque de qualquer forma é ridículo. A Lígia não devia dar moral nenhuma para o Joaquim. Eu me lembro de uma cena do Belo falando lá no início de que não era bom ele, Joaquim ficar sozinho na velhice e realmente não é bom, mas uma pessoa como o Joaquim somente estaria colhendo o que plantou e veja só ao falar isso ele as coloca na condição de cuidadoras e cuidar é um ato muito nobre, mas não é justo que este homem que não cuidou venha se beneficiar desse cuidado ou pior exigi-lo. Como falei é ridículo em muitos níveis ela estar novamente com um homem que nunca esteve ali por ela, mesmo que tenha sido uma breve ficada é ridículo, vergonhoso e humilhante E ela dizer que não fica com ele de vez porque se acostumou a viver sozinha é de uma preguiça. Ela não deveria ficar com ele por uma questão de respeito. Respeito por si mesma, pela filha que ela criou sozinha, pelas lutas que ela enfrentou e ele não estava lá. Enfim, motivo não falta.

Leitora disse...

Por fim, Jorginho. Até pensei no início que ele era um falso convertido, infelizmente existem muitos por aí. E infelizmente enganando pessoas e fazendo maldades. Eu sou evangélica, Jesus pregou sobre o perdão, a Bíblia fala sobre o perdão, o perdão é pregado no culto. Mas perdão é uma coisa pessoal de cada um, não é um sentimento é uma decisão. Porém ele não pode ser forçado, obrigado ou manipulado. A história já nos apresenta um Jorginho convertido, se fala que ele era ruim, se vê que os personagens o temem, mas logo isso se dissipa. O que prevalece é o homem arrependido e convertido e que agora quer ser um bom pai. Não se pede que o público esqueça o que ele foi, afinal nem vimos o que ele foi, soubemos. E apenas ouvir falar faz uma diferença no julgamento das pessoas. Como falei na minha crença, acredito eu que na maioria das crenças, eu gosto de saber sobre as outras e o mínimo que eu sei eu vejo que o perdão é pregado, mas ocorre que muitas vezes se acolhe o arrependido e estou partindo do princípio do verdadeiro arrependido e não do falso, enfim se acolhe o arrependido e claro é motivo de alegria alguém que verdadeiramente se arrepende, mas não se ampara o ferido. Não há sequer o estancamento da ferida e já se exige o perdão, a aceitação. E aqui a vítima se sente culpada ou mais culpada. Não é justo que se faça tal coisa. E claro que perdoar não é esquecer. E não estou falando tudo isso porque passo pano para o personagem, tampouco estou dizendo que a Gerluce tinha obrigação de perdoá-lo, porque isso é escolha pessoal. O fato dele ter mudado não apaga o que ele fez, não desfaz a dor que ele causou, da a chance dele fazer diferente a partir de então. Por fim eu não dou conta de mim falando de pessoas fictícias como se fossem reais. Hahahahah, mas eu vejo a arte também como um reflexo da própria vida e uma forma de se fazer pensar sobre dilemas humanos.
Inclusive não tenho problema com redenção de personagem desde que 1° seja crível. 2° não diminua os fatos, não faça parecer que o mal causado foi coisa boba. 3° Não me apresente justificativas indigestas do tipo sou covarde. 4° Não me faça engolir absurdos do tipo uma Lígia sem um pingo de respeito.