segunda-feira, 22 de junho de 2026

Julgamento de Adriana em "Quem Ama Cuida" teve muitos furos, mas rendeu ótimas cenas

 O julgamento de Adriana (Letícia Colin) em "Quem Ama Cuida" foi um daqueles momentos em que a emoção conseguiu superar a lógica. As cenas exibidas entregaram tensão, grandes atuações e momentos marcantes para os personagens, mas também foram marcadas por uma sucessão de situações pouco críveis que enfraqueceram o impacto da injustiça sofrida pela protagonista.


O primeiro problema esteve na própria construção do caminho até o tribunal. A prisão preventiva de Adriana se sustentou em bases extremamente frágeis. A acusação de que ela estaria fugindo da Justiça, feita por Pilar (Isabel Teixeira), dificilmente justificaria tantos meses de prisão quando havia uma explicação simples e facilmente verificável para sua viagem: visitar a mãe no hospital. A novela perdeu ali a oportunidade de conceder uma pequena vitória à protagonista antes da queda definitiva. Se Adriana tivesse conseguido reverter a prisão naquele momento para depois ser condenada injustamente, o impacto emocional do julgamento teria sido ainda maior.

Os problemas aumentaram quando o julgamento finalmente começou. A revelação de que Pedro (Chay Suede) não poderia continuar na defesa porque havia sido arrolado como testemunha pelo Ministério Público funcionou como um plot twist dramático, mas esbarrou na falta de verossimilhança.

Um procedimento desse tipo não costuma surgir de surpresa no início da sessão, sem que a defesa tenha sido previamente informada. Além disso, toda a situação pareceu existir apenas para afastar Pedro do posto de advogado no momento mais decisivo da história.

A própria condenação de Adriana também encontrou dificuldades para convencer. Grande parte das acusações se apoiou em depoimentos de personagens que possuíam interesses pessoais, ressentimentos ou motivações evidentes para prejudicá-la. Pilar, Diná (Rosi Campos), Ulisses (Alexandre Borges) e Tom (Allan Souza Lima) apresentaram versões carregadas de subjetividade, enquanto as evidências materiais permaneceram frágeis. O resultado foi a sensação de que o veredito surgiu mais por conveniência dramática do que pela força das provas apresentadas em plenário.

Por isso, teria sido mais convincente se a trama tivesse mostrado de forma explícita uma interferência externa no resultado. A influência de Ademir (Dan Stulbach) foi sugerida ao longo da narrativa, mas nunca ficou claro até que ponto ela alcançou o julgamento. Uma demonstração concreta de corrupção ou manipulação institucional teria tornado a condenação injusta muito mais plausível aos olhos do público.

Apesar dos inúmeros furos, o capítulo foi salvo pelo trabalho do elenco. Letícia Colin brilhou do início ao fim e encontrou seu melhor momento na leitura da sentença. O choque, o desespero e a sensação de impotência da personagem transformaram uma condenação questionável em uma sequência genuinamente emocionante. Isabel Teixeira também entregou mais uma atuação impecável como Pilar, dominando cada cena em que apareceu. Dan Stulbach teve momentos de grande intensidade como Ademir, enquanto Tony Ramos e Isabela Garcia contribuíram para ampliar a carga emocional dos acontecimentos. Mereceu destaque especialmente a cena posterior em que Elisa recebeu a notícia da condenação da filha, um dos momentos mais comoventes dessa fase da trama.

Também chamou atenção o beijo entre Adriana e Pedro logo após a sentença. Dentro da lógica dos acontecimentos, o gesto poderia até reforçar as suspeitas daqueles que acreditavam na culpa da protagonista, já que aconteceu diante de várias pessoas no tribunal. Ainda assim, a sequência funcionou como uma licença poética para marcar o primeiro beijo do casal e encerrou o julgamento com a carga emocional que a novela buscava alcançar.

No saldo final, o julgamento de Adriana esteve longe de ser um exemplo de coerência narrativa. Houve exageros, atalhos de roteiro e situações difíceis de aceitar até mesmo dentro da lógica novelesca. Ainda assim, as cenas cumpriram aquilo que talvez fosse seu principal objetivo: prender a atenção do público do começo ao fim. Muito disso se deve ao talento do autor Walcyr Carrasco (agora escrevendo ao lado de Claudia Souto), que mais uma vez demonstrou sua habilidade de construir sequências de forte apelo emocional e gerar discussões entre os espectadores.

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