sexta-feira, 8 de maio de 2026

Rogério foi o personagem mais inútil de "Três Graças"

 Todo personagem dado como morto que retorna vivíssimo para se vingar costuma despertar a atenção do público. É um dos maiores clichês da teledramaturgia e um recurso frequentemente utilizado por autores quando precisam criar conflitos capazes de movimentar a trama. Não foi diferente em "Três Graças", novela das nove escrita por Aguinaldo Silva, Virgilio Silva e Zé Dassilva.


A suposta morte de Rogério, personagem de Eduardo Moscovis, carregava mistério desde os primeiros capítulos, e seu retorno rendeu uma das melhores catarses da novela. A cena em que surgiu vivo diante de Arminda, vivida por Grazi Massafera, e Ferette, interpretado por Murilo Benício, seus algozes que tentaram assassiná-lo, teve impacto e prometia uma verdadeira virada na história.

O problema é que, ao longo dos meses, Rogério foi sendo escanteado até virar praticamente um espectador da própria trama.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

"A Nobreza do Amor" tem início bem estruturado e sem pressa, mas escassez de figurantes é um problema

 Há um contraste curioso e bastante positivo no trabalho de Duca Rachid, Elisio Lopes Jr. e Julio Fischer em "A Nobreza do Amor". Depois de uma experiência anterior marcada por atropelos narrativos em "Amor Perfeito", o trio demonstra, agora, um domínio muito mais consciente do tempo dramático e isso faz toda a diferença.


Há quase dois meses no ar, a novela das seis se revela um folhetim agradável de acompanhar justamente por aquilo que antes faltou: paciência. A construção das tramas é cuidadosa, sem a pressa que compromete o envolvimento do público. O romance entre a princesa Alika, vivida por Duda Santos, e o plebeu Tonho, de Ronald Sotto, é o melhor exemplo disso. Desde o primeiro encontro atravessado, com direito a esbarrão e troca de farpas, até o início do namoro, houve um percurso gradual, convincente e saboroso de acompanhar. Nada soa apressado, ao contrário, cada avanço do casal parece merecido.

A própria chegada da protagonista a Barro Preto, fugindo do golpe de estado liderado por Jendal (Lázaro Ramos), estabelece bem o tom da narrativa. A perda do pai, a adaptação a uma nova realidade e a construção de novas relações ---- inclusive sob a identidade de Lúcia ---- são desenvolvidas com equilíbrio.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Núcleo da delegacia rouba a cena em "Três Graças"

 O núcleo da delegacia em "Três Graças" se consolidou como um dos grandes acertos da novela, muito por conta da sintonia deliciosa entre Rômulo Estrela, Gabriela Medvedovsky e André Mattos. Desde o início, o trio se destaca ao dar vida aos policiais Paulinho e Juquinha e ao delegado Jairo com uma naturalidade gostosa de ver, daquelas que fazem o público acreditar que eles são, de fato, uma família.


E essa é a palavra-chave: família. André Mattos constrói um delegado Jairo que é firme quando precisa, mas atravessado por uma ternura quase paternal que dá o tom das relações dentro da delegacia. Ele funciona como um eixo emocional, um verdadeiro pai para Juquinha e Paulinho, conduzindo os dois com uma mistura equilibrada de autoridade, afeto e ironia.

Já Gabriela Medvedovsky e Rômulo Estrela entregam uma dupla deliciosa de acompanhar. Juquinha e Paulinho têm uma relação de irmãos que pulsa verdade --- há carinho, cumplicidade e parceria, mas também espaço para implicâncias e provocações que soam absolutamente naturais.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

“Terra Nostra”: um épico da imigração italiana que conquistou o público

 Exibida entre 20 de setembro de 1999 e 2 de junho de 2000, Terra Nostra foi mais um fenômeno de audiência de Benedito Ruy Barbosa, que já havia conquistado enorme sucesso com "O Rei do Gado". A novela — reprisada no “Vale a Pena Ver de Novo” em 2004 e também no Canal Viva em 2019 — foi dirigida por Jayme Monjardim e teve como foco central o romance entre Matteo e Giuliana, ambientado no contexto da imigração italiana no Brasil.


Situada entre o final do século XIX e o início do século XX, a trama se desenvolve majoritariamente nas fazendas de café do interior de São Paulo, destino de muitos italianos que buscavam melhores condições de vida. A história ressalta a importância da imigração na formação da sociedade brasileira, acompanhando o casal vivido por Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda, que enfrenta inúmeros obstáculos para ficar junto.

A narrativa começa em 1894, com o navio Andrea I partindo de Gênova rumo ao Brasil, trazendo camponeses que fugiam da crise econômica na Itália. A bordo estão Giuliana com seus pais (Júlio e Ana — Gianfrancesco Guarnieri e Bete Mendes), além de Matteo, que viaja sozinho em busca de uma nova vida. O romance entre os protagonistas surge rapidamente, mas é interrompido por uma epidemia de peste no navio, que mata os pais da jovem e quase leva Matteo à morte.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Fernanda Vasconcellos brilha como Samira em "Três Graças"

 A atuação de Fernanda Vasconcellos em "Três Graças" confirma sua maturidade artística ao assumir um dos papéis mais sombrios da trama. Como Samira, uma vilã psicopata envolvida com tráfico de bebês, a atriz opta por um caminho menos óbvio e justamente por isso mais perturbador na trama de Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgilio Silva. 


Enquanto outros antagonistas da novela seguem uma linha mais expansiva, com explosões, gritos e gestos largos, Fernanda constrói sua personagem com contenção. Sua interpretação é econômica, quase minimalista. A ameaça não está em discursos inflamados, mas na frieza calculada. O olhar parado, o sorriso discreto fora de contexto e a postura sempre controlada criam uma tensão constante. Samira assusta não pelo excesso, mas pelo vazio emocional que transmite.

Essa escolha se mostrou especialmente eficaz nas cenas recentes envolvendo o parto de Joelly. No momento em que a protagonista viveu a vulnerabilidade extrema do nascimento da filha, Samira surgiu como uma presença silenciosa e atenta, mais interessada na “mercadoria” do que no drama humano diante dela.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

As justiças e as injustiças do "Troféu Imprensa" de 2025/2026

 O "Troféu Imprensa, exibido pelo SBT neste domingo, dia 26 de abril, começou de forma especialmente simbólica. A abertura acertou ao revisitar as personalidades mais marcantes dos 75 anos da televisão brasileira, criando um clima de celebração e memória que valorizou a história do meio e emocionou o público.


A cerimônia foi apresentada por Celso Portiolli e Patricia Abravanel, que adotaram um tom mais sóbrio e menos eufórico do que na edição anterior ---- uma mudança que se mostrou acertada e deu mais ritmo e credibilidade à condução do prêmio.

Ao longo da noite, ficou evidente que a premiação teve seus momentos de justiça, mas também acumulou injustiças e indicações difíceis de justificar sob qualquer critério mais rigoroso. Até porque a composição do júri segue controversa.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"BBB 26": a temporada que superou o fracasso anterior e devolveu intensidade, jogo e relevância ao reality

 Depois do fracassado "BBB 25", o "BBB 26" surge como um raro caso de reconstrução bem-sucedida dentro da franquia. A temporada não apenas corrigiu rumos evidentes da edição anterior, como também conseguiu elevar o nível do jogo em quase todas as suas estruturas, devolvendo ao público a sensação de imprevisibilidade, conflito real e participação ativa na narrativa.


Um dos maiores acertos foi a curadoria do elenco. A mistura entre Camarote, Pipoca e o chamado “Time Veterano” funcionou de forma mais orgânica do que em anos anteriores, evitando a separação artificial entre grupos e criando uma convivência naturalmente tensionada. A decisão de inserir Pipocas em casas de vidro antes da estreia televisiva também foi fundamental: além de ampliar o engajamento pré-programa, dividiu com o público parte da responsabilidade na formação do elenco, fortalecendo o sentimento de participação coletiva.

Mesmo os mecanismos mais polêmicos acabaram se provando eficazes. O chamado “Quarto Branco”, que desta vez se estendeu além do esperado e chegou a gerar questionamentos do Ministério Público, acabou se tornando um dos principais motores de mobilização da temporada ---- especialmente quando o público passou a exigir a entrada de quatro participantes em vez de apenas dois.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ana Paula Renault construiu sua vitória do primeiro ao último dia de "BBB 26"

 A vitória de Ana Paula Renault no "BBB 26" não foi apenas um resultado de popularidade — foi a conclusão inevitável de uma temporada moldada, conduzida e tensionada por ela do primeiro ao último dia. Raramente um reality show teve uma protagonista tão dominante em todas as frentes: narrativa, conflito, estratégia e, principalmente, engajamento do público. Ela entrou favorita e não perdeu o favoritismo em nenhum momento.


Desde a estreia, Ana entendeu algo que muitos participantes ignoram: o BBB não é um retiro confortável, é um jogo de exposição e movimento. Enquanto parte do elenco parecia disposta a viver num “resort all inclusive”, ela fez o oposto ----- criou enredos, tensionou relações e se recusou a deixar a casa cair no marasmo. Mais do que reagir aos acontecimentos, ela os provocava. Seus embates não eram acidentes, eram construções deliberadas.

Um dos seus maiores trunfos foi a habilidade de traduzir conflitos em linguagem acessível e viral. Os apelidos que dava aos adversários não só funcionavam como ataques irônicos e menos agressivos na forma, como também organizavam a narrativa para o público.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Tia Milena fez história no "BBB 26"

 A trajetória de Milena Moreira Lages no "BBB 26" é daquelas que desafiam qualquer análise rasa. Não se trata apenas de uma participante marcante, mas de um fenômeno raro dentro de realities: alguém que transforma suas contradições em combustível narrativo e entrega, sem filtros, uma experiência humana intensa, imperfeita e absolutamente cativante.


Milena entrou no jogo disposta a não se esconder ---- e isso, por si só, já a colocou em um lugar de destaque. Seu jeito franco, corajoso e muitas vezes errático construiu uma jornada imprevisível, daquelas que prendem o público não pela perfeição, mas pela verdade. Ela enfrentou adversários sem hesitar, comprou brigas que nem sempre eram suas e, em diversos momentos, perdeu a medida ----- como quando ultrapassou limites ao sujar as roupas do Cowboy ou ao arquitetar o inusitado “plano” do suco com limão e caldo de frango congelado. Foram episódios controversos, sem dúvida, mas também profundamente humanos, que reforçaram o quanto Milena esteve 100% entregue ao jogo.

Em uma edição dominada pela força protagonista de Ana Paula Renault, é inegável que o brilho da campeã também se reflete na presença constante e fundamental de Milena. Mais do que escudeira, ela foi complemento.

domingo, 19 de abril de 2026

A noite em que o "Big Brother Brasil" foi atravessado pela vida real

 O último domingo do "Big Brother Brasil 26" entrou para a história como um daqueles momentos em que o entretenimento se dissolve completamente e dá lugar à vida em seu estado mais bruto. Não houve jogo, estratégia ou narrativa construída: houve dor crua, inevitável e compartilhada diante de milhões.


A decisão da produção de comunicar Ana Paula sobre a morte do pai, Gerardo Renault, aos 96 anos, respeitando uma cláusula contratual, foi um ponto de tensão ética evidente. Ainda assim, o que se viu não foi exploração, mas a difícil tentativa de equilibrar humanidade e formato televisivo. A escolha de Ana Paula de seguir no programa, enfrentar o paredão e, sobretudo, silenciar sua dor diante dos colegas, transformou sua trajetória em algo que ultrapassa qualquer arco de “protagonista” típico do reality. Foi uma demonstração de força e choque que não se romantizam, porque não há beleza no sofrimento, mas que impressionam pela dimensão.

O contraste mais dilacerante veio na cena com tia Milena. Após semanas de desgaste, desconfiança e afastamento, as duas se reencontram no momento mais improvável. A ingenuidade de Milena, ao perguntar se o choro era por causa de uma injeção, revela o quanto aquele sofrimento ainda estava encapsulado, invisível.