domingo, 10 de maio de 2026

'Loquinha' quebrou paradigmas em “Três Graças”, mas a reta final ficou aquém da grandeza do casal

 A uma semana do fim de "Três Graças", já é impossível negar o tamanho do impacto causado por Loquinha, o casal formado por Gabriela Medvedovsky e Alanis Guillen. Juquinha e Lorena não apenas conquistaram o público, mas entraram para a história da teledramaturgia como o primeiro casal lésbico da televisão aberta brasileira a receber exatamente o mesmo tratamento dado aos casais heterossexuais. Sem censura evidente, sem “cota de beijos”, sem a limitação constrangedora de um único selinho reservado ao último capítulo.


Durante décadas, a representação homoafetiva nas novelas brasileiras caminhou em passos lentos. Em produções mais antigas, sequer existia beijo. Depois, vieram os rápidos selinhos, geralmente exibidos apenas uma ou duas vezes ao longo de quase 200 capítulos, sempre cercados por rumores de cortes, regravações e pedidos para “amenizar” cenas consideradas ousadas demais. Isso mesmo enquanto a Globo sustentava um discurso progressista diante do público.

Nos últimos anos, porém, a pressão das redes sociais e da imprensa tornou esse tipo de censura cada vez mais difícil de sustentar. Um exemplo recente foi o casal Kelvin e Ramiro, interpretados por Diego Martins e Amaury Lorenzo em "Terra e Paixão".

A dupla venceu resistências, ganhou protagonismo no último capítulo, teve direito a casamento e vários beijos de verdade. O peso de Walcyr Carrasco dentro da Globo certamente ajudou. Mas ainda assim havia um detalhe importante: tudo aconteceu apenas na reta final.

Loquinha foi além. Juquinha e Lorena quebraram paradigmas justamente porque viveram um romance livre de censuras durante toda a novela. Desde os flertes iniciais até os inúmeros beijos trocados ao longo da trama, nunca houve a sensação de contenção. Os beijos deixaram de ser “eventos” calculados e passaram a acontecer com naturalidade, como ocorre com qualquer casal hétero nas novelas. Pela primeira vez na história da teledramaturgia brasileira, a televisão aberta também exibiu uma cena de sexo entre duas mulheres ---- ainda que construída através de sombras e sugestões visuais. Foi simbólico, histórico e suficiente para estabelecer uma nova régua.

Depois de Loquinha, o público dificilmente aceitará retrocessos. Qualquer casal homoafetivo daqui para frente inevitavelmente será comparado a Juquinha e Lorena. E o sucesso internacional do casal certamente teve papel fundamental para blindar a trama de possíveis interferências. Qualquer corte repercutiria não apenas no Brasil, mas também em vários outros países onde a novela ganhou repercussão.

Talvez por isso mesmo a reta final decepcione.

É compreensível que Juquinha e Lorena percam espaço nos capítulos derradeiros. Afinal, são personagens terciárias e a novela precisa concentrar forças na conclusão de seus principais arcos dramáticos. O problema não é a redução do destaque, mas sim a fragilidade dos conflitos criados para elas nesse encerramento.

A ideia de unir o casamento de Juquinha e Lorena ao de Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes) simplesmente não funciona dramaticamente. Ainda mais depois da suspensão de Paulinho (Romulo Estrela) da polícia por ter sido flagrado ao lado dos investigados pelo roubo das "Três Graças", algo diretamente ligado ao fato de Juquinha ter prendido Viviane e quase ter colocado Leonardo atrás das grades. Dramaticamente, tudo soa desconexo. E pior: os dois casais mereciam momentos separados para que o público pudesse aproveitar plenamente cada celebração.

Mas o verdadeiro problema está no conflito envolvendo o roubo dos vestidos de noiva, articulado por Ferette, personagem de Murilo Benício, e Lucélia, vivida por Daphne Bozaski. É um enredo pequeno demais para a reta final de uma novela desse porte. Parece trama de temporada de Malhação ---- ou até da novelinha vertical de Loquinha ---- e não um conflito digno de um vilão como Ferette.

Um antagonista construído como ameaça real ao longo da novela jamais se contentaria com uma armação tão banal, cujo único objetivo é atrasar uma cerimônia de casamento. Falta peso dramático, falta intensidade e, principalmente, falta coerência com a grandiosidade que Loquinha alcançou dentro e fora da trama.

"Três Graças" chegará ao fim com uma extensa lista de acertos ---- e o casal Lorena Juquinha certamente estão entre os maiores deles. O casal mudou paradigmas, abriu portas e fez história. Justamente por isso, merecia conflitos mais à altura da importância que conquistou na reta final.

7 comentários:

Anônimo disse...

Tecnicamente, eles são um casal mais confiável e com maior probabilidade de sucesso, pois não há nenhum personagem masculino no meio, entendendo que Aguinaldo escreveu seus personagens masculinos dessa forma para realçar os femininos, mas ele criou, sem intenção, muitos relacionamentos tóxicos. Mas, na realidade, além do romance, não há nada além disso; o ápice do casal se dá com a cena de sexo e nada mais a acrescentar. Parte de mim desejava que Lorena fosse como a filha de Samira ou uma das crianças do tráfico, assim como eu gostaria que fosse Megg, para aproveitar ao máximo ambas as atrizes, mas Aguinaldo não se importou muito com a narrativa. Eles tiveram dificuldades em inserir o casal nas tramas principais, o que prova que seu sucesso é algo que Aguinaldo não previu. Assim como ele nunca acreditou que a história da criança seria mais bem-sucedida do que a trama de suas estátuas. Como isso aconteceu, eu não entendo, mas eu gostaria de ter visto uma relação especial entre Lorena e Raul, algo que só a força do laço de sangue pode explicar quando veio a "revelação posterior", mas na prática não temos nada parecido. Como é que estamos tendo mais cenas de Lorena e Juquinha sem narrativa? Quando seria melhor ter a cena do bebê da Joelly em Portugal. Aguinaldo realmente precisa rever mais novelas e menos séries americanas.
Daniel

Adriana Helena disse...

Ahh que legal esse texto Sérgio, muito bem engendrado!!
Pena que na reta final o casal Juquinha e Lorena não estejam tendo o destaque que tiveram durante a novela, mas já é um grande começo!!
Tenha uma ótima semana amigo!

Anônimo disse...

faz mt sentido! e mais: uma coisa que a globo ainda tá a passos lentos quando o assunto é novela é o Social Listeninng… a globo enquanto empresa usa muito esse recurso para entregar o que o público quer, mas em novelas isso ainda tá muito devagar e eu acho que em parte se deve ao ego dos grandes autores (não só do aguinaldo)… bastava uma rápida olhada no que o público tava comentando e seria possível enxergar ótimas oportunidades de narrativas para aproveitar vários talentos e "sub-tramas" dessa novela.
o Zamenza, nesse texto, chama Loquinha de personagens terciários, mas como? Uma delas é filha do maior vilão e a outra é a algoz desse vilão e tem sede de prendê-lo tanto quanto os mocinhos… já tava tudo pronto pra justificar o peso das personagens na trama e colocá-las em maior foco.
mas felizmente o que fica é o saldo positivo

Anônimo disse...

Bela análise, Sérgio. Mas parece-me que foram os autores que não quiseram desenvolver as personagens. Lorena era não só a filha do Vilão, como a única personagem que sempre desconfiou dele desde o início, sofreu abusos psicológicos do Pai; e Juquinha, a policial que investigava os crimes — estava tudo lá para desenvolver e enquadrar as personagens na trama principal. Curiosamente, quando começa a caça ao vilão, a personagem não participa de nada!
Gradualmente, Lorena pelo menos, foi sendo apagada, e até as cenas de cumplicidade com a mãe tornara-se publicidade. A personagem foi usada como bússola moral e como escada para a redenção do irmão (mais uma vez, a redenção dos homens maus ou fracos).
Loquinha foi o melhor romance, de longe, desenvolvido com sensibilidade, mas, depois de Campos do Jordão, houve recuos explícitos e a mudança de direção geral da trama não ajudou. Acredito que ninguém contava com tanto sucesso e houve alguma decisão para frear, ainda que o sucesso do casal/personagens não ameaçasse a trama principal. Ou seja, os autores tinham a faca e o queijo na mão, tinham boas atrizes e capazes de aprofundar tramas, e simplesmente não souberam ou quiseram aproveitar. Fica o saldo positivo dos avanços em relação a representação de casais homoafetivos, mas o final foi totalmente desastroso.

Sérgio Santos disse...

concordo

Sérgio Santos disse...

bjjjj

Sérgio Santos disse...

concordo com voce