quarta-feira, 6 de maio de 2026

"A Nobreza do Amor" tem início bem estruturado e sem pressa, mas escassez de figurantes é um problema

 Há um contraste curioso e bastante positivo no trabalho de Duca Rachid, Elisio Lopes Jr. e Julio Fischer em "A Nobreza do Amor". Depois de uma experiência anterior marcada por atropelos narrativos em "Amor Perfeito", o trio demonstra, agora, um domínio muito mais consciente do tempo dramático e isso faz toda a diferença.


Há quase dois meses no ar, a novela das seis se revela um folhetim agradável de acompanhar justamente por aquilo que antes faltou: paciência. A construção das tramas é cuidadosa, sem a pressa que compromete o envolvimento do público. O romance entre a princesa Alika, vivida por Duda Santos, e o plebeu Tonho, de Ronald Sotto, é o melhor exemplo disso. Desde o primeiro encontro atravessado, com direito a esbarrão e troca de farpas, até o início do namoro, houve um percurso gradual, convincente e saboroso de acompanhar. Nada soa apressado, ao contrário, cada avanço do casal parece merecido.

A própria chegada da protagonista a Barro Preto, fugindo do golpe de estado liderado por Jendal (Lázaro Ramos), estabelece bem o tom da narrativa. A perda do pai, a adaptação a uma nova realidade e a construção de novas relações ---- inclusive sob a identidade de Lúcia ---- são desenvolvidas com equilíbrio.

Paralelamente, os conflitos vão sendo plantados com inteligência, como na crescente rivalidade com Mirinho (Nicolas Prattes) e Virginia (Theresa Fonseca). Ele, inicialmente cômico em sua obsessão, começa a revelar camadas mais inquietantes; ela, movida por ciúmes, ainda atua nos bastidores, mas já promete embates mais intensos.

Outro acerto importante está nos núcleos paralelos. A trama de Salma, interpretada por Rayssa Bratillieri, traz delicadeza e emoção. Sua amizade com Lúcia rendeu uma das cenas mais bonitas da novela até aqui ---- um momento raro de maturidade emocional, em que a personagem escolheu preservar o afeto acima do desejo. Já no campo da vilania, chama atenção a relação entre Jendal e sua filha Kênia (Nikolly Fernandes), que humaniza o antagonista sem suavizar sua crueldade. É um vínculo torto, mas dramaticamente fértil.

Também merece destaque a presença de Fabiana Karla como Graça, cada vez mais eficiente como cúmplice de Virginia, além do alívio cômico proporcionado pela pequena Aurelinda ---- Antonella Bevenuti é uma grata revelação mirim. Curiosamente, o humor funciona melhor nesses momentos mais orgânicos do que em núcleos claramente deslocados, como o do prefeito Bartolomeu (Fábio Lago), que ainda não encontrou seu lugar na narrativa.

O único problema realmente gritante da produção não está no texto, muito bem escrito, nem na ótima direção de Gustavo Fernández, mas na evidente limitação de figurantes. Trata-se de uma questão estrutural, que afeta diversas produções atuais da emissora, mas que aqui se torna especialmente prejudicial ---- e, pior, perceptível demais em cena. Em Batanga, o suposto reino se resume a poucos ambientes pequenos, onde Jendal aparece quase sempre apenas com a filha e dois súditos fixos, o chefe da guarda (Dumi - Licínio Januário) e o sábio (Chinua - Hilton Cobra). Não há povo, não há circulação, não há sensação de corte. Quando o vilão chama pelos guardas, surgem dois ou três ---- e olhe lá. Nem mesmo momentos que pediam maior grandiosidade escaparam dessa limitação: no quase casamento de Kênia, não havia um número minimamente convincente de pessoas presentes. Até mesmo o grupo revolucionário que deveria ameaçar o poder parece composto por “meia dúzia de gatos pingados”, o que esvazia o peso dramático da resistência. E o que dizer da cena recente em que Omar (Rodrigo Simas) invadiu o reino e apunhalou o rei sem ser contido por absolutamente nenhum guarda? É um castelo deserto. 

O problema se repete em Barro Preto. A ausência de figurantes compromete a verossimilhança de cenas cotidianas. Um exemplo emblemático foi uma briga entre Virginia e Mirinho, em que a personagem pediu para ele não fazer escândalo “na frente das pessoas” ---- sendo que simplesmente não havia ninguém ao redor. A cena, que deveria carregar tensão, acabou soando involuntariamente constrangedora.

A repercussão foi tamanha que o site Notícias da TV chegou a entrar em contato com a emissora para questionar a escassez de figuração. A resposta oficial foi de que a proposta seria retratar uma cidade pacata do interior. A justificativa, porém, não se sustenta: uma cidade tranquila não é sinônimo de cidade fantasma. Falta vida, falta movimento ---- e isso impacta diretamente a imersão do público.

Ainda assim, é importante separar as responsabilidades. Essa limitação orçamentária ---- cada vez mais evidente ---- não apaga os méritos do texto, da direção, do elenco e do roteiro. "A Nobreza do Amor" mostra que seus autores aprenderam com os erros do passado e agora entregam uma narrativa mais segura, envolvente e emocionalmente eficaz. Se a produção conseguir contornar --- ou ao menos minimizar ---- suas fragilidades visuais, há potencial para se consolidar como uma das boas surpresas da faixa das seis.

Nenhum comentário: