terça-feira, 18 de agosto de 2026

Laura Cardoso: a atriz que o Brasil chamou de sua

 O Brasil perdeu nesta segunda-feira, dia 17 de agosto, uma de suas maiores atrizes. Aos 98 anos, partiu Laura Cardoso, de causas naturais, deixando para trás uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão, do rádio, do cinema e do teatro brasileiros.


A notícia era, de certa forma, aquela que o Brasil mais temia. Porque Laura não era apenas uma atriz admirada: era uma presença familiar. Era como se fosse a avó, a mãe, a vizinha, aquela pessoa querida que atravessou gerações levando talento, delicadeza, humor e humanidade para dentro de nossas casas. Sua partida deixa um vazio imenso, mas também a certeza de que alguns artistas jamais morrem por completo. Permanecem vivos nos personagens que criaram e nas emoções que provocaram.

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses humildes, Laura descobriu ainda adolescente que queria ser atriz. Aos 15 anos, iniciou sua trajetória no radioteatro, numa época em que a televisão sequer havia chegado ao Brasil.

Foi no rádio que conheceu Fernando Balleroni, seu marido, companheiro de vida e de profissão, com quem teve três filhos.

Quando a televisão brasileira nasceu, Laura estava lá. Tornou-se uma das primeiras grandes intérpretes do novo meio e construiu uma carreira que atravessaria décadas e transformações profundas na dramaturgia nacional. Foram mais de cem trabalhos, mais de sessenta novelas, dezenas de filmes, peças de teatro, teleteatros, dublagens e participações que ajudaram a construir a memória afetiva de várias gerações.

Laura Cardoso não precisava ser protagonista para dominar uma cena. Bastava aparecer.

Sua galeria de personagens é extraordinária: Marta, em Fera Radical; Iolanda, em Rainha da Sucata; Isaura, em Mulheres de Areia; Dona Guiomar, em A Viagem; Sinhana, em Irmãos Coragem; Madalena, em Esperança; Vó Carmem, em Chocolate com Pimenta; Dona Francisquinha, em Como uma Onda; Lakshmi, em Caminho das Índias; Dona Mariquita, em Araguaia, entre tantos outros.

Também emocionou como a sensível narradora de Hoje é Dia de Maria e brilhou em A Grande Família, interpretando a mãe de Lineu, em uma participação que rendeu alguns dos momentos mais tocantes do seriado.

E houve ainda a Laura que aceitava mergulhar sem medo em personagens completamente diferentes de sua própria personalidade. Em Gabriela, em 2012, viveu Dona Doroteia, personagem criada especialmente por Walcyr Carrasco para a atriz. Cruel, amarga, invejosa e obcecada pela defesa de uma moral própria, Doroteia caiu na boca do povo, especialmente pelo inesquecível “Jesus, Maria, José”. Laura mostrou mais uma vez que sua grandeza estava justamente em não ter medo de experimentar.

A parceria com Walcyr Carrasco se repetiria em O Outro Lado do Paraíso, com a cafetina Caetana, e em A Dona do Pedaço, sua última novela, em 2019. Caetana, que inicialmente teria uma participação menor, conquistou o público de tal maneira que permaneceu até o último capítulo. Sua despedida foi tão irreverente quanto a personagem: um velório em seu próprio prostíbulo, uma apresentação de Pabllo Vittar e, depois, a alma de Caetana seguindo para o céu. Era uma maneira absolutamente brasileira e deliciosamente exagerada de celebrar uma personagem que Laura havia transformado em inesquecível.

No cinema, esteve em filmes importantes como Terra Estrangeira. No teatro, encarou clássicos como A Megera Domada e trabalhos como Laranja Mecânica. E sua voz também ficou registrada na memória de muitos brasileiros através da dublagem, como Betty, de Os Flintstones, na década de 1960.

Ao longo dessa trajetória, vieram também os reconhecimentos: três Prêmios Grande Otelo, cinco APCA, dois Prêmios Shell, dois Troféus Imprensa e, em 2006, a Ordem do Mérito Cultural, uma das maiores homenagens concedidas pelo país a quem contribui para a cultura brasileira.

Mas talvez nenhum prêmio explique o tamanho de Laura Cardoso.

Porque havia algo nela que não cabia em troféus.

Havia a humildade. A simpatia. O sorriso. A alegria de viver. A paixão genuína pela profissão. Mesmo depois de tantas décadas de carreira, Laura jamais pareceu cansada de ser atriz. Ao contrário: continuava trabalhando, estudando, criando e se entregando aos personagens com uma vivacidade admirável.

Laura dizia, com orgulho, aquilo que sempre foi: atriz.

E foi atriz de uma maneira rara. Daquelas que não precisam levantar a voz para serem ouvidas. Daquelas capazes de transformar uma pequena participação em acontecimento. Daquelas que fazem o público acreditar que aquele personagem existia antes de entrar em cena e continuará existindo depois que a novela terminar.

Em 2024, apareceu pela última vez na televisão no especial Tributo, da Globo. Em 2025, ainda esteve presente na tradicional vinheta de fim de ano da emissora e participou da inauguração de sua Calçada da Fama nos Estúdios Globo. Aos 98 anos, continuava pertencendo ao imaginário do país.

Talvez seja por isso que sua morte doa tanto.

Laura Cardoso era uma dessas figuras que pareciam eternas. Uma atriz que atravessou praticamente toda a história da televisão brasileira e que, ao mesmo tempo, nunca perdeu a capacidade de parecer próxima do público.

Ela foi muitas mulheres. Boas, más, engraçadas, dramáticas, doces, amargas, poderosas, frágeis. Foi mãe, avó, vilã, cafetina, matriarca, camponesa, narradora. Foi rádio, televisão, cinema e teatro. Foi uma parte fundamental da nossa cultura.

E, acima de tudo, foi Laura.

A menina do Bixiga que, aos 15 anos, decidiu que queria ser atriz e passou quase oito décadas provando que havia escolhido o caminho certo.

O Brasil se despede hoje de uma de suas maiores intérpretes.

Mas não se despede de sua obra.

Enquanto alguém rever Mulheres de Areia, A Viagem, Irmãos Coragem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, Gabriela ou qualquer uma das inúmeras produções que tiveram a honra de contar com seu talento, Laura Cardoso estará ali. Na tela, na voz, no gesto, no sorriso, na lembrança.

Porque algumas atrizes interpretam personagens.

Laura Cardoso interpretou gerações inteiras.

Descanse em paz, Dona Laura. O Brasil agradece por tudo. E obrigado por nos ensinar, durante quase 80 anos, a beleza de simplesmente amar a arte de ser atriz.

2 comentários:

chica disse...

Bah, que perda essa! Foi GRANDE essa artista! Mas agora ficarão seus legados em tantas e tantas novelas que trabalhou tçao bem! Que descanse em Paz! abração e tudo de bom pra ti! chica

Lucimar da Silva Moreira disse...

Sérgio fiquei sabendo da notícia hoje de manhã, foi uma perda triste, Laura Cardoso foi uma grande atriz, uma triste notícia pra todos, Sérgio abraços.