sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

"Alexandre e outros heróis" prima pela qualidade estética e reforça os vícios de Luiz Fernando Carvalho

A Globo não tem investido muito nos especiais de fim de ano. A emissora, já há algum tempo, prefere apostar exclusivamente nas microsséries do início de janeiro, como aconteceu em 2013 com a série "O Canto da Sereia" e como acontecerá em 2014 com "Amores Roubados". Assim sendo, "Alexandre e outros heróis" foi o único especial produzido para entrar na grade de dezembro. E a série foi ao ar na última quarta-feira (18/12), logo após "Amor à Vida".


Com texto de Luís Alberto de Abreu e do diretor Luiz Fernando Carvalho, a produção é adaptada de contos do escritor alagoano Graciliano Ramos. O especial é protagonizado pelo velho Alexandre (Ney Latorraca), um típico contador de histórias do sertão, que abusa das mentiras para se vangloriar diante dos amigos. Em uma casinha simples, ele vive com sua mulher (Cesária - Luci Pereira) e costuma contar para o cego Firmino (Flávio Bauraqui), o cigano Gaudêncio (Flávio Rocha), a beata Das Dores (Marcélia Cartaxo) e o medroso mestre Libório (Marcelo Serrado) seus feitos na época da juventude ---- entre eles, o de ter perdido um olho e 'devolvido' o dito cujo no lugar logo depois, o que teria deixado seu olho torto.

Como toda produção de Luiz Fernando Carvalho, o capricho da fotografia esteve presente do início ao fim e o resultado ficou visualmente impecável. Porém, suas produções costumam ter um ar 'cult' e pretensioso, o que acabou se repetindo em "Alexandre e outro heróis". Os diálogos eram voltados para uma
linguagem abstrata e até poética, enquanto que a narrativa era lenta e cansativa. Ou seja, um conjunto bonito de se ver, mas um tanto quanto chato.

Embora tenha sido uma produção menos intelectualóide se comparada com "Capitu", "A Pedra do Reino" e "Afinal, o que querem as mulheres?", a série ficou longe da qualidade de "Hoje é dia de Maria", uma minissérie que soube juntar musicalidade, beleza estética, texto e história, com um ar abstrato e lúdico, que agradou não só a crítica como também o público. Entretanto, apesar da história ter sido cansativa, "Alexandre e outros heróis" acertou ao focar quase que exclusivamente na interpretação dos atores e também na expressão corporal de cada um.

O elenco, aliás, esteve impecável. Foi um prazer ver Ney Latorraca de volta à televisão (após quase ter falecido em decorrência de complicações enquanto esteve internado por problemas de saúde) e interpretando tão magnificamente o velho Alexandre. Luci Pereira, Marcelo Serrado, Flávio Rocha, Marcélia Cartaxo (lamentavelmente uma presença rara na teledramaturgia) e Flávio Bauraqui também brilharam em todas as cenas. Porém, é preciso fazer uma ressalva: devido ao sotaque muitas vezes forçado demais, ficou difícil entender o que os personagens diziam em alguns momentos.

Com cenas gravadas em Pão de Açúcar, cidade do sertão de Alagoas, a série é um piloto de sete episódios que Luiz Fernando Carvalho pretende filmar no segundo semestre de 2014, assim que finalizar seu trabalho na direção de "Meu Pedacinho de Chão", remake de Benedito Ruy Barbosa que substituirá "Joia Rara" no horário das seis. Ou seja, é praticamente certo que entre na grade da Globo ano que vem.

"Alexandre e outros heróis" ---- que marcou 19 pontos de média ---- honrou o folclore nordestino com uma história repleta de fantasias e primou pela qualidade estética, além de ter contado com um ótimo elenco, que brilhou absoluto. Entretanto, a linguagem e o 'ar pretensioso' da série acabaram reforçando os vícios de Luiz Fernando Carvalho e deixaram a produção sonolenta e pouco atrativa para o grande público. Pena.

30 comentários:

Má Vegan disse...

Bom acho que todos conhecemos um na vida real: querer ser bem visto no meio dos amigos, impressionar...pena que fazemos às vezes depois de crescer :D

Thallys Bruno Almeida disse...

Sérgio, dessa vez eu vou discordar quanto à narrativa pretensiosa/cult.

Confesso, que quando soube de sua realização, torci o nariz e pensei "deve ser mais uma daquelas séries pretenso-cult chatíssimas do LFC". Só que a chamada acabou me conquistando e me pareceu ser bem divertida, ainda mais por mostrar um lado diferenciado do Graciliano Ramos, fugindo de suas obras óbvias.

Achei a narrativa encantadora, gostei bastante dos diálogos (embora o sotaque comprometesse um pouco), vi boas doses de humor e emoção em cada momento apresentado. Pra mim, longe de ser cansativa, chata ou inferior à HDdM. Gostei da forma como LFC retratou as histórias de Alexandre e as mentiras que fizeram sua fama.

Do elenco, nem preciso falar mto, todo mundo perfeito, com destaque para Ney Latorraca e Marcélia Cartaxo.

No saldo final, pra mim, o telefilme foi maravilhoso em todos os sentidos. Quem diria que o LFC que criou as chatíssimas Pedra do Reino/Afinal o Que Querem as Mulheres/Suburbia, iria me conquistar desse jeito. Foi maravilhoso ver meu estado sendo representado na telinha com uma obra de qualidade, longe das notícias ruins dos jornais. Mas, o que posso temer é que essa ideia de transformar em série, aí sim, torne a história chata. Tanto que às vezes prefiro que fique só no telefilme, pra continuar com essa impressão ótima.

Se bem que é lamentável mesmo a Globo só ter lançado esse especial de fim de ano na área dramatúrgica e priorizando a área musical e as outras coisas de sempre. Abç!

Anônimo disse...

Eu percebo que muita gente tem medo de criticar as obras de Luiz Fernando Carvalho por causa desse ar cult mencionado por você. Tem medo de parecerem ignorantes. Eu acho todas as produções dele chatíssimas incluindo Hoje é Dia de Maria que você elogiou no texto. É algo feito pra crítica e não pro público.

Karina disse...

Me empolguei tanto com esse especial... mas não consegui chegar nem na metade. Fui dormir. Chatinho demais!

Melina disse...

Sérgio, eu gostei do especial mas concordo que esse ar pretensioso deixou a produção cansativa por alguns momentos. E eu não consegui entender várias frases ditas por causa do sotaque exagerado.

Só discordo de você sobre o Marcelo Serrado. Achei uma mistura de Crô com aquele personagem que ele fez no remake de Gabriela. Parecia um deficiente mental. Mas o Latorraca deu um show! Um beijo!

OX disse...

O Luis Fernando Carvalho é assim mesmo. Promove um conjunto de encher os olhos mas que faz dormir depois de dez minutos.

Alexandra Amaral disse...

Todas as obras de Luiz Fernando são esteticamente adoráveis, mas torna se cansativo. Relativamente eu gostei da história, mas o especial pecou pela demora e cansou ao espectador. Ainda com tudo isso, atribuo nota 8 por conta do ótimo elenco (tão bom ver Ney Latorraca devolta), Flavio Bauraqui, Marcelo Serrado (ainda que exagerado), Marcélia Cartaxo, Luci Pereira, a empregada da Donelô e do Dotoxtênio, e outros.
Aliás, hoje faz 3 meses que leio o blog, hehehe abração

Lulu on the Sky disse...

Não assisti esse programa.
Aproveito para desejar um natal abençoado e um feliz 2014!
Big Beijos
Lulu
http://luluonthesky.blogspot.com.br

Diogo S. disse...

Concordo com tudo Sérgio. É lindo mas tinha algo que não tava bacana e você soube capaz: a linguagem pretensiosa... Forte abraço meu caro boas festas!! =)

Georgia disse...

Nas chamadas, a atração lembrava muito Pantaleão e Terta, do grande Chico Anysio. Só depois é que percebi tratar-se da obra de Graciliano Ramos...

Milene Lima disse...

Pão de Açúcar é aqui em Alagoas. E tem até Cristo Redentor, meu bem.

Nem falo mais nada porque não conheço a cidade. E nem a mini série... A TV até tava ligada, mas eu prestei atenção no computador e esqueci, oxente.

Beijo, Sérgio.

Letícia disse...

Boa noite meu caro Sérgio, tudo bem?

Gosto muito do trabalho do Luis Fernando Carvalho, primeiro foi com Os maias e depois com Hoje é dia de Maria. Admiro o capricho que dá aos seus trabalhos... Assisti seu único filme,Lavoura Arcaica e na época gostei, apesar da linguagem.

Em falar do linguagem, de fato o diretor, às vezes, esquece que seu trabalho está direcionado ao grande público e para isso é necessário usar um linguajar mais adequado e próximo de quem assiste.

Gosto dele, sei que muito estranham suas obras, a acham lenta e, muita da vezes são mesmo. Mas acredito que sempre tenta buscar uma linguagem nova, mesmo que cause estranhamento em quem assiste. Reconheço que o ritmo que impõe a sua obra é lento e chega a ser cansativo para alguns... Para mim ele tem apenas um ritmo próprio que não acompanha o ritmo frenético que a grande maioria dos programas têm...

Não gosto por acharem Cult ou coisa parecida, acho que há uma sutileza da sua forma de dirigir. Dentro da Globo, sendo diretor de Núcleo, há um tratamento diferenciado, pois suas obras são mais espaçadas (talvez a emissora o considere seu "biscoito fino", apesar de ser menos popular que os demais.)

Não sei, posso ter falado um monte de bobagens... Mas é o que penso...

Um abraço Sérgio...

Sérgio Santos disse...

Obrigado pelo comentário, Vegan. bjs

Sérgio Santos disse...

Sem problema, Thallys. Eu achei a série bem melhor que as últimas do LFC, fato, porém, ainda assim achei chata e pretensiosa. Deixei a produção grava e confesso que muitas vezes tive vontade de adiantar algumas cenas, mas resisti.

O sotaque atrapalhou pq várias frases ficaram incompreensíveis! Mas o elenco, apesar disso, esteve perfeito, principalmente o Ney! Abçs.

Sérgio Santos disse...

Eu também percebo isso, anônimo, e é algo natural. Afinal algo que se diz "inteligente" causa vergonha em quem acha o mesmo ruim justamente por medo de ser taxada de burra.

Sérgio Santos disse...

Entendo, Karina. bjs

Sérgio Santos disse...

Eu não achei péssimo, Melina, até gostei em comparação com as últimas obras do LFC. Porém, achei chatinha.

Ok, respeito sua opinião sobre o Marcelo, mas eu gostei dele. bjsss

Sérgio Santos disse...

Pois é, OX, pena. abç

Sérgio Santos disse...

Há 3 meses que vc está comigo, Alexandra? Que bom! =) O especial foi bem feito e foi interessante, mas acabou ficando chato em vários momentos e a pretensão ficou presente, não teve jeito. Mas foi um prazer ver o Ney de volta! bjssss

Sérgio Santos disse...

Desejo o mesmo, Lulu. bj

Sérgio Santos disse...

Diogo, forte abraço pra vc também! Boas festas e obrigado! =)

Sérgio Santos disse...

É verdade, Georgia, nas chamadas houve essa impressão msm.

Sérgio Santos disse...

Tava distraída, Milene? Sim, entendo, até pq a série não te fazia prestar mta atenção caso estivesse fazendo outra coisa. Bjão!!!

Sérgio Santos disse...

Olá minha cara Letícia! O LFC é um profissional respeitado e tem 35 anos de carreira. Os Maias foi divino, mas ele """só""" dirigiu, o texto não era dele. Isso se não estiver enganado.

Mas a direção dele é sempre preciosa, isso é fato. Aliás, a fotografia da série estava linda!

Eu não sou fã dos trabalhos dele, não adianta. Acho mt lento, pretensioso e cansativo. Ainda assim, achei Hoje é dia de Maria maravilhoso e justamente porque vi um equilíbrio na produção.

Mas entendo perfeitamente a sua concepção e vc nunca fala bobagens. Deixa de bobagem! Beijão!

Clau disse...

Oi Sérgio!
Gosto da obra de Graciliano Ramos e por isso eu bem que tentei assistir tudo.
(Achei o elenco maravilhoso),
mas vc escreveu algo que concordo plenamente:
'Os diálogos eram voltados para uma linguagem abstrata e até poética, enquanto que a narrativa era lenta e cansativa.'
Talvez por isso,dormi antes do término!

*Um bj, e aproveito para desejar boas festas à vc e sua família e um ano novo repleto de saúde e bençãos.*
Até 2014 \o/

Pedro Bertoldi disse...

Oi Sérgio. Olhei só um pedaço e achei chato apesar da boa fotografia e interpretação dos atores. O que me chamou atenção esse ano na Globo é que a série "A teia" prometida no Vem aí não veio. O que será que aconteceu?
Abraços, querido!

BIA disse...

Olá Sérgio!!!

Eu praticamente não assisto TV mas sempre quando leio suas análises vejo textos muito inteligentes e críticos dentro deste universo, então parabéns à você por suas análises.
Tenha um maravilhoso Natal repleto de realizações!!!
Bjs :)

Sérgio Santos disse...

Talvez por isso vc tenha dormido, Clau. Te entendo! Tenha um lindo Natal e obrigado pelo carinho! Bjssss

Sérgio Santos disse...

Oi Pedro! Foi chatinha mesmo, embora bem produzida.

A Teia tem tudo pra ser uma excelente série e também não entendi a razão de não ter estreado, mas creio que faltou espaço na grade. Ficou pra 2014 mesmo! Abração!

Sérgio Santos disse...

Bia, muito obrigado. Só de saber que vc gosta dos meus textos e vem sempre aqui mesmo sem ver muita tv me deixa honrado. Bjs e bom Natal pra vc também!