O início de "Coração Acelerado", nova novela das sete da Globo, escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, chama atenção menos pelo impacto emocional que promete e mais pela pressa com que tenta chegar a ele. Em seus primeiros capítulos, a trama parece correr contra o relógio, atropelando acontecimentos que, em outra circunstância, pediriam tempo para amadurecer e envolver o público.
Há uma clara sensação de excesso: conflitos surgem e se resolvem rapidamente, personagens são apresentados sem o devido respiro, e pequenas viradas acontecem antes mesmo de o telespectador conseguir compreender plenamente as motivações em jogo. O resultado é uma narrativa fragmentada, que dá a impressão de ainda estar se procurando, sem uma estrutura sólida que organize os eventos de forma orgânica.
O romance dos mocinhos, Agrado (Isadora Cruz) e João Raul (Filipe Bragança), elemento central de qualquer novela, sofre especialmente com essa aceleração. A relação é empurrada goela abaixo do público, sem a construção emocional necessária para gerar identificação ou torcida.
Em vez de expectativa e encanto, fica a sensação de pressão, como se a história temesse perder a atenção do espectador caso não entregasse tudo de uma vez.Os protagonistas se conheceram crianças em um único encontro, onde o menino cantou a música feita pela menina em um festival e despertou a atenção de um produtor musical. Somente por causa dessa situação surgiu uma paixão arrebatadora que os dois nunca esqueceram. Esse tipo de construção em mocinhos é muito arriscado. Amor à primeira vista precisa ter uma base sólida para conquistar o telespectador. Qualquer deslize implica em resistência ao par. E o que mais tem no desenvolvimento é deslize. Que criança lembra da outra por causa de um único encontro, sem qualquer acontecimento especial? Se João tivesse roubado a música de Agrado e atingido o estrelato por causa dela, aí sim teria uma razão plausível para a recordação daquele dia. E ainda provocaria uma expectativa para o reencontro anos depois para um acerto de contas que viraria atração e depois amor. Mas as autoras fizeram tudo com uma pressa sem propósito.
Aliás, os mocinhos já se reencontraram e, após um breve desentendimento, já se beijaram, transaram, iniciaram o processo de gravação de uma música juntos, se declararam perdidamente apaixonados um pelo outro e vivem uma lua de mel no rancho do mocinho. Isso tudo em apenas dois dias. A pressa observada na estreia da novela segue como motriz do roteiro. Vale lembrar que a primeira fase foi contada em menos de 40 minutos no primeiro capítulo, com direito a revelação sobre o passado da mãe da mocinha, que incluiu assassinato e armação da vilã. Tudo tão rápido que não teve qualquer impacto. E são tantos cortes bruscos nas cenas que fica difícil não lembrar da direção equivocada de "Mania de Você", o maior fracasso do horário nobre da Globo. Coincidentemente ou não, Carlos Araújo foi o diretor da novela de João Emanuel Carneiro e agora dirige a trama das sete. Várias sequências são cortadas antes do fim. Pelo menos é a sensação que provoca. O conjunto parece mal encaixado. Não há uma estruturação nas cenas. Tudo acontece e termina em um piscar de olhos.
Essa ansiedade narrativa também se reflete na sucessão de acontecimentos: dramas pessoais, conflitos familiares e ganchos importantes se acumulam em ritmo quase vertiginoso, diluindo o impacto de cada um deles. Falta espaço para silêncios, nuances e desenvolvimento, elementos essenciais para que a novela encontre seu tom e estabeleça uma conexão duradoura com o público.
A passagem de tempo no final do primeiro capítulo terminou com João Raul fazendo um imenso sucesso e Agrado cantando em um bar, sem qualquer prestígio. Não ter apresentado o processo de cada protagonista foi um erro. O público tinha que ter participado da saga de ascensão do mocinho e da caminhada repleta de dificuldades da mocinha. As autoras preferiram cortar e já botar o protagonista no auge e em crise com seu repertório. Para culminar, já juntaram o rapaz com a patricinha Naiane (Isabelle Drummond) e os dois iniciaram um namoro. Só que a relação não durou nem dois capítulos e o protagonista já terminou com a vilã, que vem seguindo com um plano de vingança contra Agrado porque já sabe que é ela quem está com seu ex e também descobriu que ela é sua prima. E, em meio aos inúmeros acontecimentos, colocaram Agrado formando uma parceria sertaneja com Duda (Gabz), após um encontro das personagens que precisaram fugir de uma situação que se desenvolveu de forma corrida. Isso tudo em menos de duas semanas. É até difícil organizar tudo o que já foi exibido para o público em um texto. É preciso até mencionar a aproximação relâmpago de Duda com Naiane, que agora é sua chefe e ambas têm uma relação de intimidade. Isso ocorreu durante a passagem de tempo e o telespectador não acompanhou nada do processo.
"Coração Acelerado" pode até justificar o título pela velocidade com que se apresenta, mas, ironicamente, talvez se beneficiasse de desacelerar. Dar tempo aos personagens, às relações e à própria história pode ser o caminho para transformar a pressa inicial em envolvimento genuíno ---- algo que, por enquanto, ainda parece fora de alcance.
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