segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Marcello Novaes brilhou como Jaques em "Dona de Mim"

 A atual novela das sete tem um vilão que deixa muito malvado do horário nobre parecendo inofensivo. Jaques é o personagem mais repugnante de "Dona de Mim" e Marcello Novaes alcança um desempenho excepcional ao dar vida a um antagonista que se impõe não apenas pela frieza de suas ações, mas pela riqueza de nuances que o ator habilmente incorpora. Desde sua primeira aparição, Novaes domina a cena com uma presença magnética, trabalhando cada gesto e cada silêncio com precisão. Ele transforma Jaques em um vilão que não se limita à maldade óbvia: é um homem estratégico, manipulador e profundamente calculista.


Um dos méritos mais evidentes da atuação de Novaes está na maneira como ele lida com as vilanias repetitivas do personagem. Jaques é recorrente em suas artimanhas: volta a sabotar aliados, manipular emoções, armar intrigas e interferir na trajetória dos que os cercam de maneira persistente e incansável. Esses ciclos de maldade caíram na monotonia ao longo da trama, consequência de uma obra com mais de 200 capítulos, mas Marcello os renova com variações sutis: às vezes um sarcasmo mais ácido, outras vezes uma calma inquietante, ou até uma explosão controlada de fúria. A repetição das vilanias se torna, nas mãos do ator, um instrumento dramático que reforça o caráter obsessivo e tóxico do antagonista.

Marcelo também imprime uma humanidade perversa em Jaques. Suas fragilidades ---- sempre mostradas com cautela, quase escondidas ---- sugerem uma construção psicológica profunda, que impede o público de vê-lo como apenas um vilão de cartilha.

Pelo contrário, sua interpretação faz com que cada ato cruel ganhe peso emocional, pois se entende que ele age movido por feridas, ambições e ressentimentos acumulados. O ator equilibra muito bem essa ambiguidade, criando um antagonista que intriga tanto quanto causa repulsa.

Nas cenas de confronto, a intensidade que Marcello traz é impressionante. Ele domina o ritmo, a expressão e a postura, elevando o nível dramático de qualquer sequência em que participa. Sua química com o elenco, sobretudo nas situações de embate moral ou emocional, é um dos grandes trunfos da novela. Vale citar a sensível cena protagonizada com Suely Franco, quando Jaques se despediu da mãe em um diálogo carregado de emoção. Só que no bloco seguinte, com um plot twist que chocou o público, o vilão jogou a mãe escada abaixo, após uma briga com Samuel. Seu intuito foi usá-la como facilitador de sua fuga para distrair o sobrinho. Foi uma sacada de mestre de Rosane Svartman e a sequência foi muito bem dirigida por Allan Fiterman. Ali ficou cristalina a inexistência de redenção.

No entanto, é preciso fazer uma crítica contundente ao desenvolvimento do vilão. Toda a complexidade do personagem foi brilhantemente trabalhada, mas deixá-lo triunfar sempre resultou na diminuição da temperatura da obra. A novela não teve grandes catarses e uma das razões foi a linearidade da saga de Jaques. Tudo bem que qualquer folhetim precisa que os malvados vençam para movimentar os conflitos, mas as vitórias do irmão de Abel (Tony Ramos) se tornaram maçantes e repetitivas, como sua obsessão pela presidência da Boaz e seus exaustivos planos de demissão em massa. Também foi um banho de água fria o assassinato de Ricardo (Marcos Pasquim), que ficou em coma um longo tempo para absolutamente nada. O pior foi a morte de Vanderson (Armando Babaioff), o 171 que saiu da história sendo acusado de um crime que não cometeu e nem voltou para dar o troco. Também faltou colocar um embate maior entre Jaques e Leona (Clara Moneke). A protagonista era irrelevante para o grande vilão do enredo. Também não deu para entender a romantização de várias cenas entre Jaques e Filipa (Claudia Abreu). O sujeito era um abusador, mas havia cenas musicadas e até fofinhas entre eles. Não deu para engolir. Não há humanização que justifique. Também é preciso criticar outro ponto. Na reta final, quando o vilão finalmente caiu, era a hora do público acompanhar a sua desgraça, mas o vilão foi praticamente retirado da novela e sumiu. Ficou em um casebre com Tânia e apareceu poucas vezes. Um banho de água fria no telespectador, mas o ator não tem nada com isso.

Apesar dos visíveis problemas de percurso, é inegável o excelente papel que Jaques foi para Marcello Novaes. O ator reafirmou sua força como intérprete em "Dona de Mim" e entregou um personagem digno dos grandes vilões da teledramaturgia: repetidamente cruel, estrategista implacável e elegantemente ameaçador. É uma atuação que prende, surpreende e acrescenta densidade à trama a cada capítulo. Tanto que o público espera uma punição implacável para o assassino. Resta torcer para que Rosane não reserve apenas uma cena rápida de prisão, como fez com Theo (Emilio Dantas) no último capítulo de "Vai na Fé", seu sucesso anterior. O ator e o telespectador merecem mais. 

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