terça-feira, 1 de novembro de 2016

Reprise de "Torre de Babel" no Viva comprova a coragem e a ousadia de Silvio de Abreu

O Viva começou a reprisar a polêmica "Torre de Babel" no dia 10 de outubro e desde então tem sido possível observar com mais clareza o quanto a novela de Silvio de Abreu, dirigida por Denise Saraceni, era ousada e corajosa para época. Aliás, seria ousada até nos tempos atuais, levando em consideração o politicamente correto e a rejeição do público por questões mais complexas. A novela, exibida originalmente em 1998, teve um início muito conturbado e problemas de audiência. No entanto, o autor conseguiu reverter a situação, a transformando em um imenso sucesso. E são várias as razões que explicam o porquê da resistência inicial do telespectador 'médio', assim como expõem a riqueza do enredo e a coragem do autor.


As primeiras semanas da história foram muito pesadas e não havia um casal protagonista parta torcer. O enredo se baseava primeiramente em três pontos: a vingança do agressivo Clementino (Tony Ramos), o romance de Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) e as implicações provocadas pelo vício em drogas de Guilherme (Marcelo Antony). Três situações consideradas polêmicas. Para culminar, as cenas do primeiro capítulo foram muito fortes e hoje em dia só poderiam ir ao ar em uma novela das 23h. O personagem vivido magistralmente por Tony flagrou a sua mulher com dois homens e a matou com golpes de pá. Ele também chegou a matar um dos amantes. Uma sequência chocante e grandiosa, toda ambientada em 1978. Já no final da estreia da novela, após uma passagem de vinte anos, houve uma invasão de traficantes na mansão dos pais do rapaz viciado, iniciando um tiroteio no meio de uma luxuosa festa.

Ou seja, foi um início nem um pouco 'suave'. E isso não foi um demérito, pelo contrário. Mostrou a coragem do autor em sair do mais do mesmo, apostando em um enredo denso e repleto de situações extremamente dramáticas. Porém, quem arrisca muitas vezes paga um preço e Silvio pagou com a rejeição do público, que considerou tudo pesado demais.
E, infelizmente, o romance lésbico virou alvo dos preconceituosos, muito em virtude do destaque que Rafaela e Leila tiveram no começo. Elas pareciam, inclusive, as únicas responsáveis pela dose de romance genuíno da trama. É necessário aplaudir o desenvolvimento dessa relação, tratada com muita sensibilidade pelo escritor, destacando a boa sintonia entre Christiane Torloni e Silvia Pfeifer. O par homossexual parecia o principal do folhetim, o que era ótimo e ousado.

Todo o processo de vingança de Clementino também primou pela boa estruturação. O personagem acabou preso em flagrante por culpa da denúncia do poderoso César Toledo (Tarcísio Meira), dono de uma grandiosa construtora, que era seu patrão na época e participava da festa de comemoração do final de uma obra, local onde o crime bárbaro ocorreu. A interpretação esplendorosa de Tony Ramos deixava tudo ainda melhor e a situação ainda provocava uma divisão no público, afinal, o empresário fez o certo e o assassino é quem estava errado. Entretanto, o sofrimento que ele passou na cadeia e o fato do crime ter sido passional provocavam um 'incômodo' no telespectador. Outra questão que despertava reflexão era a envolvendo César, pois o filho dele era justamente o drogado Guilherme. E o rapaz havia se envolvido com traficantes, mas o empresário se recusava a denunciá-lo para a polícia, entrando em contradição ---- afinal, quando denunciou Clementino fez questão de repetir que valorizava os princípios e faria tudo de novo, independente de quem quer que fosse. Tudo ali era complexidade pura. O bem contra o mal se mostrava bastante relativo.

Como a reprise no Viva ainda está no início, é justamente toda essa situação que tem sido mostrada. E impressiona como o enredo era bem amarrado e desenvolvido. A vilã Sandrinha (Adriana Esteves ótima) também já ganha destaque logo no começo, tendo o forte conflito com o pai Clementino (ela não o perdoa por ter matado sua mãe) em foco, assim como a sua relação amorosa com Alexandre (Marcos Palmeira) e suas brigas com a irmã Shirlei (Karina Barum), menina que sofre de uma deficiência na perna ---- cuja personagem vem sendo vivida por Sabrina Petraglia em "Haja Coração". A relação de César com Marta (maravilhosa Glória Menezes) foi outro grande acerto, principalmente nos momentos de sofrimento do casal por causa dos constantes problemas provocados pelo filho drogado. O trio formado por Bina (Cláudia Jimenez em seu primeiro trabalho depois do imenso sucesso como Edileuza em "Sai de Baixo"), Luzineide (Eliane Costa) --- que nunca conseguia falar --- e a tia Sarita (Etty Fraser impagável) compunha a parte cômica do folhetim, merecendo muitos elogios. E Jamanta (Cacá Carvalho genial) não demorou para se transformar em um dos personagens mais icônicos da teledramaturgia.

Entretanto, apesar de todos esses acertos e da ousadia do enredo, "Torre de Babel" sofreu muitas rejeições ---- inclusive em cima de Clementino, pois o telespectador não aceitava Tony Ramos vivendo um tipo violento depois de tantos sujeitos íntegros (uma bobagem, diga-se) ---- e críticas, enfrentando problemas de audiência em seu início. Obviamente, tudo resultou em alterações na trama. Mas, o que costuma muitas vezes piorar o conjunto do folhetim, funcionou plenamente, transformando a novela em um sucesso: graças ao até hoje lembrado momento da explosão do Tropical Tower Shopping, maior empreendimento de César Toledo. O autor matou os três perfis mais polêmicos (Rafaela, Leila e Guilherme) na antológica cena e fez modificações em alguns núcleos, aumentando a comicidade e inserindo mais romance. A morte do casal lésbico e do viciado foi uma perda grande, pois eram personagens riquíssimos. Mas, infelizmente, foi necessário na época e Silvio de Abreu ao menos conseguiu dar a volta por cima, mantendo a qualidade de sua obra.

O mistério em torno do autor da explosão do shopping inseriu um suspense atrativo (algo que o escritor domina como poucos) e o crime ainda implicou na criação de um bordão que caiu na boca do povo: "Jamanta não morreu". A frase era repetida constantemente pelo personagem, que ganhou ainda mais destaque. A dupla formada pela milionária hipocondríaca Deolinda Falcão (saudosa Cleyde Yáconis) e seu mordomo Cláudio (saudoso Carvalhinho) protagonizava cenas impagáveis e os irmãos Gustinho (Oscar Magrini) e Boneca (Ernani Moraes) começaram a se aventurar no universo sertanejo, onde um cantava e o outro só dublava. A psicopata Ângela (Cláudia Raia), que nutria um paixão doentia por Henrique Toledo (Edson Celulari), se tornou mais ativa e a canalha Sandrinha ganhou mais contorno cômicos, embora todos os seus dramas particulares e sua maldade tenham sido mantidos. Até mesmo a abertura mudou. A trilha incidental pesada foi retirada para a entrada da suave "Pra Você", cantada por Gal Costa ---- essa mudança, por sinal, ocorreu bem antes da explosão e já vem até sendo exibida no Viva.

"Torre de Babel" foi um folhetim que precisou de modificações para chegar ao sucesso, mas nunca mereceu a rejeição inicial. Silvio de Abreu escreveu um folhetim muito corajoso e denso, sendo possível observar isso novamente através da acertada reprise do Canal Viva ---- que vem, ironicamente, atingindo ótimos índices de audiência, já entrando na posição das mais vistas. Apesar das mudanças, a novela foi uma grandiosa produção e seu elenco era estelar. Foi um folhetim marcado por críticas, elogios, alterações, preconceito, enredo pesado e uma inesquecível explosão. Sorte do público ter a oportunidade de rever esse novelão, refletindo sobre tudo o que aconteceu na época e como as críticas eram injustas.

35 comentários:

Daniela disse...

Eu não tinha visto na época e estou amando. Como podem ter criticado???

OX disse...

Novela bem produzia, bem escalada e bem desenvolvida. Pena que depois das mudanças ela se perdeu, embora tenha feito sucesso justamente por isso.

Anônimo disse...

Um novelão com todas as letras.Ainda bem que agora está fazendo sucesso desde a estreia, ao contrário do que houve no passado.

Claudio Aparecido Reis Reis disse...

E a novela foi boa quando estava ruim.
Foi um começo sensacional, e depois virou mais do mesmo.

Claudio Aparecido Reis Reis disse...

E a novela foi boa quando estava ruim.
Foi um começo sensacional, e depois virou mais do mesmo.

Anônimo disse...

Foi uma baita novela. Perfeito texto!

Izabel Ramos disse...

O autor Silvio de Abreu foi obrigado a mudar toda a estrutura da história para reconquistar o público perdido, tornando a trama mais "leve". E conseguiu. A novela, que despencou na audiência em sua primeira fase, conseguiu ótimos índices na fase final. Até o tema de abertura foi mudado. Saiu a retumbante música instrumental e entrou a suave "Pra Você", interpretada por Gal Costa. Mas foi com a explosão do shopping center que a trama decolou de vez, iniciando um grande mistério que aguçou a curiosidade do público: quem explodiu o shopping center? Essa explosão serviu também para eliminar alguns personagens que o público rejeitava, como o Guilherme, um personagem drogado e o casal Rafaela e Leila, por serem sapatonas.

Fernanda disse...

Se assistirmo a todas as novelas do Silvio de Abreu veremos a razão dele ter sido colocado como chef de teledramaturgia na Globo. Ele é muito bom.

Anônimo disse...

Amei essa novela e nunca entendi as críticas. Estou revendo e adorando.

Felisberto N. Junior disse...

Olá,Sérgio, esta é uma que vale a pena ver de novo, novela bem produzida,como "disse" com um elenco estelar e um enredo denso e repleto de situações extremamente dramáticas. Ainda me lembro da explosão do Tropical Tower Shopping e do "Jamanta não morreu"...feliz semana, belos dias,abraços!

Lulu on the sky disse...

Essa não foi a minha favorita, mas teve humor, suspense e romance. A minha novela do Silvio de Abreu foi A Próxima Vítima. Perfeita demais.
big beijos
Lulu on the Sky
Saiu vídeo novo no canal!

Elvira Akchourin do Nascimento disse...

Na época, gostei muito da novela, e, especialmente, das atuações de Tony Ramos e Adriana Esteves. Lembro que o público não aceitou o amor entre as personagens de Silvia Pfeiffer e Christiane Torloni, e me recordo bem das cenas do incêndio do shopping. Claudia Raia e Edson Celulari "arrasaram" nos papeis. Realmente, foi uma novela ousada. Aliás, gosto do estilo do Silvio de Abreu.

Lina disse...

Jamanta, Shirley e Sandrinha os melhores personagens da novela

Lina disse...

Jamanta, Shirley e Sandrinha os melhores personagens da novela

Anônimo disse...

Lembro do burburinho na epoca por conta do casal lésbico. Uma pena. Eram duas fortes personagens.

Clau disse...

Oi Sérgio,
Já faz 18 anos e eu lembro da Torre de Babel!rs
O enredo é realmente forte e polêmico,
e o elenco dessa novela, dispensa comentários!
Entre outros grandiosos atores,
nunca esqueci a atuação de Cacá Carvalho!
Beijos!

Marcia Pimentel disse...

Olá,
Essa foi uma das minhas novelas preferidas das oito horas.(Quando a novela das nove era às oito horas).

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P H Amorim disse...

As mortes de Guilherme e Rafaela na explosão já eram previstas na sinopse. Somente Leila, que desenvolveria uma amizade profunda com Marta, teve a morte decretada pelas mudanças da trama. Nestas mudanças, Wilma, que morreria na explosão, ganhou sobrevida na trama, quando tornaram Ângela vilã e Henrique mocinho. Isto porque Henrique seria suspeito da explosão, um personagem ambíguo. E Wilma sabia demais.

Sérgio Santos disse...

Pois é, Daniela.

Sérgio Santos disse...

Não acho que ela tenha se perdido, OX, mas foi um grande começo mesmo.

Sérgio Santos disse...

Ainda bem msm, anonimo.

Sérgio Santos disse...

E novela foi excelente, Claudio. Mas, apesar de ter lamentado a morte das lésbicas, a novela contiuou sensacional.

Sérgio Santos disse...

Obrigado, anonimo.

Sérgio Santos disse...

É verdade, Izabel. E eu achei a mudança na música de abertura péssima.

Sérgio Santos disse...

É bom msm, Fernanda!

Sérgio Santos disse...

Nem eu, anonimo.

Sérgio Santos disse...

São situações inesquecíveis mesmo, Felis. abçs

Sérgio Santos disse...

Eu amei, Lulu. Foi uma das minhas favoritas. bjs

Sérgio Santos disse...

Eu sou fã do estilo do Silvio, Elvira. E amei a novela na época e de vez em quando vejo a reprise, constatando o quanto foi excelente. bjs

Sérgio Santos disse...

Tb adorei eles, Lina.

Sérgio Santos disse...

Eram mesmo, anonimo. E a trama delas era ótima e delicada.

Sérgio Santos disse...

Eu tb lembro direitinho, Clau. Novelão! bjs

Sérgio Santos disse...

Tb foi uma das minhas, Márcia. E naquela época era às oito ainda msm. bj

Sérgio Santos disse...

Interessante, P H Amorim.

Selma disse...

A Sandrinha e Xande acabam juntos?