sexta-feira, 3 de agosto de 2018

"Segundo Sol" apresenta núcleos secundários mais atrativos que o principal

João Emanuel Carneiro ainda não tem um elevado número de novelas em seu currículo, mas várias características suas já ficaram evidentes em muitos trabalhos. Uma delas é a força do núcleo principal e a limitação dos núcleos paralelos. "Da Cor do Pecado", "Cobras & Lagartos", "A Favorita", "A Regra do Jogo" e até mesmo a aclamada "Avenida Brasil" apresentaram tramas centrais muito bem estruturadas e atrativas, enquanto pecaram nas secundárias. Porém, ironicamente, o escritor quebrou o que parecia ser uma regra em "Segundo Sol".


O núcleo central envolvendo a trama de Beto Falcão (Emílio Dantas) e Luzia (Giovanna Antonelli) se mostra frágil, principalmente em torno da falsa morte do cantor e do conformismo da DJ. Os mocinhos acabam se comportando como dois covardes e as situações protagonizadas por eles não movem o enredo. Como até agora são passivos, viram peças pouco fundamentais na história. Claro que mais para frente é bem provável que tudo isso mude, mas o folhetim já passou do capítulo 70 e o que tem sido visto são conflitos muito mais convidativos nos núcleos paralelos, enquanto os mocinhos ficam se escondendo.

A família do corrupto Severo (Odilon Wagner), por exemplo, é a protagonista dos maiores barracos do roteiro e de muitas viradas de "Segundo Sol". O descontrole emocional de Edgar (Caco Ciocler), a submissão de Zefa (Cláudia Di Moura), a fragilidade de Karen (Maria Luisa Mendonça) e a crueldade de Rochelle (Giovanna Lancellotti) são bons ingredientes da problemática estrutura familiar, piorada ainda mais com a volta de um Roberval (Fabrício Boliveira) endinheirado procurando vingança.
O filho da empregada, por sinal, é um perfil complexo que provoca muito mais antipatia do que torcida. E ele movimenta bem o núcleo.

Roberval e Rochelle são os elementos "incendiários". Se parecem na agressividade e na arrogância, sentindo prazer em humilhar os outros. É preciso citar a cena recente do personagem humilhando Cacau (Fabíula Nascimento) em pleno altar, após ser informado por Rochelle que era traído pela futura esposa com Edgar. Uma sequência longa, forte e muito bem interpretada pelos atores. Outros momentos marcantes envolvendo o núcleo foram o barraco entre Rochelle e Manu (Luisa Arraes) em uma festa promovida pela blogueira e a prisão de Severo, logo depois que a própria neta denunciou o esconderijo da fortuna desviada pelo avô para Roberval. Agora há o "sequestro" (bem sem sentido, diga-se) de Manu como foco dos conflitos.

A trajetória de Rosa (Letícia Colin) é mais uma história considerada secundária que se mostra mais atrativa que a central. A dúbia personagem tem proporcionado várias cenas excelentes para a intérprete e já viveu uma avalanche de emoções até o momento. O romance quente com Ícaro (Chay Suede) conquistou logo no início e sua rivalidade com Laureta (Adriana Esteves) rende ótimas ironias entre as duas. O namoro com o chato Valentim (Danilo Mesquita) cansa, mas ao menos implica em enfrentamentos com Karola (Deborah Secco). O curioso é que Rosa virou a pedra no sapato da dupla de vilãs e não Luzia, a maior vítima delas. Isso apenas reforça o maior atrativo dos coadjuvantes. A cena em que Rosa foi expulsa de casa pelo pai Agenor (Roberto Bomfim) foi uma das melhores da novela e o desempenho de Kelzy Ecard na pele de Nice merece menção especial. A dor daquela mãe comoveu. Já a aliança inesperada da prostituta com Laureta e Karola, desistindo de contar o segredo descoberto a respeito do roubo do bebê da mocinha, também se mostrou outro trunfo do enredo.

A trama de Maura (Nanda Costa) é mais uma convidativa. O romance com Selma (Carol Fazu) e o assédio do delegado canalha implicaram em bons desdobramentos, destacando ainda o íntegro Ionan (Armando Babaioff), marido da ciumenta Doralice (Roberta Rodrigues), com quem a personagem tem uma bonita cumplicidade. A expulsão da filha de Nice de casa pelo mesmo Agenor foi outro bom momento dramático, assim como a reaproximação com a mãe. A relação entre a policial e a irmã Rosa vem enfrentando uma ruptura desde que a ex-garota de programa virou cafetina, mas as sequências protagonizadas por elas seguem ricas. Todavia, esse imbróglio a respeito da inseminação artificial desejada pela mesma pode prejudicar um pouco o roteiro em virtude do seu envolvimento com Ionan. Em toda novela do autor um gay ou lésbica termina feliz com alguém do sexo oposto. Já cansou.

E, ironicamente, os personagens ditos principais seguem enganados por todos e sem destaque. É normal mocinhos serem feitos de idiotas, mas há um exagero no atual folhetim. Beto seguir com Karola depois de tudo o que Luzia já falou dela é forçado demais, assim como o fato da mocinha até agora não ter procurado um advogado para saber da sua situação. Fugitiva da polícia por ter assassinado seu marido há 20 anos, a DJ prefere viver como fugitiva trabalhando em festas noturnas e tentando se reaproximar dos filhos, ao invés de ao menos procurar uma defesa da injusta acusação e punir as vilãs que a arruinaram. A própria família de Beto é desinteressante. Apesar da clara tentativa de repetir o sucesso do núcleo familiar de Tufão (Murilo Benício) em "Avenida Brasil", os conflitos em torno de Naná (Arlete Salles), Dodô (José de Abreu), Clóvis (Luis Lobianco) e Gorete (Thalita Carauta) se esgotam facilmente e nem têm graça. Enquanto isso, os dramas paralelos vão se desenvolvendo de forma competente. A atual tentativa de mexer um pouco no roteiro central tem sido as chantagens de Remy (Vladimir Brichta), amedrontando as vilãs e todos que atrapalham seu caminho. Porém, fica evidente que é apenas uma saída do autor para um  famigerado "quem matou?" futuro, da mesma forma como ocorreu com Max (Marcello Novaes) na já citada "Avenida Brasil".

"Segundo Sol" vem se mostrando uma boa novela e João Emanuel Carneiro promete novos trunfos em seu enredo. O núcleo principal tem possibilidade de deslanchar, mas enquanto isso não acontece os secundários vão tomando conta da trama e despertando uma maior atenção do público. Não há dúvida a respeito da maior força dos dramas protagonizados pelos personagens ditos coadjuvantes.

20 comentários:

Fernanda disse...

Eu acho tão chatos quanto o principal.Roberval chama a imprensa pra filmar seu escândalo e agora diz que nao pode aparecer em rede social? A familia de bandidos é uma vergonha alheia.A Rosa se perdeu com isso de se aliar as vilãs.Maura vai ter a cura gay, a familia do Clóvis me dá náusea e os pamonhas Luzia e Beto seguem burros. Larguei.

Anônimo disse...

Sobre o Beto eu concordo plenamente. Mas sobre a Luzia eu discordo, você percebeu como tudo da novela gira em torno da Luzia, a reviravolta da Rosa foi graças a história da Luzia, e a Luzia mesmo já disse várias vezes que vai enfrentar a justiça depois que recuperar os filhos, enfim, eu concordo com a crotica, mas discordo sobre a Luzia, ela ainda e o centro da novela, apesar do pouco destaque

Karina disse...

Me irrita ver a Luzia com medo das vilãs depois de tudo o que houve. Tudo bem querer diferenciar o tema da vingança por causa do sucesso da Clara mas poderia ao menos ser um pouco mais corajosa.

Ruan Campos disse...

Tbm concordo. Desde que comecei a acompanhar a novela, percebi que a novela gira mais em torno da Luzia do que o Beto.E a história dela, Ao meu ver, tem mais sustento do que a história do Beto Falcão.

Germana Araújo disse...

Olá Sérgio!!
Não tenho acompanhado com tanta frequência Segundo Sol, e uma das razões é justamente essa trama central frágil que não me pegou. Mas do que tenho visto concordo plenamente com o texto, a parte da família Ataíde sempre rende cenas ótimas (embora esse plot do sequestro da Manu seja um saco), Rosa tem ares de protagonista (eu amo os embates dela com a Karola e olha que nem shippo Rosa e Valentim) e a trama da Maura é mesmo muito boa, mas tem tudo pra murchar agora (eu espero que não aconteça, mas...).
Por fim, destaco que essa história de núcleos paralelos melhores que o principal é um feito na carreira do João Emanuel Carneiro, já que ele sempre desenvolveu uma boa história central em detrimento das outras. Acho que depois de A Regra do Jogo isso ficou tão evidente que ele resolveu mudar isso de alguma forma e até agora tá conseguindo.
No mais, é isso. Abraços!!

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Nesta novel, o autor soube costurar melhor as histórias paralelas, fato que não ocorreu até na badalada Avenida Brasil... Porém, Segundo Sol não é um novelão... Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

Anônimo disse...

Concordo, Sérgio. A trama principal não me agrada muito, mas tenho acompanhado a do Roberval e esse núcleo chama bastante atenção. E falando em Roberval, é interessante que o nome de Fabrício Boliveira vai no "como" junto com a Déborah Secco na abertura da novela. Vc não acha que é muita moral o ator ou atriz ir no como? Mas o ator merece muito esse reconhecimento! Ele tá prefeito. Amooo seus comentários!

João Pedro disse...

Eu concordo que a trama principal está parada, mas eu acredito que os próximos vão trazer o núcleo central de volta aos holofotes. Pelo que tenho acompanhado nos portais de notícias, que cobrem a novela com uns trinta capítulos de antecedência, esse plot chato do sequestro de Manu vai movimentar a história de Luzia e, logo em seguida, de Beto. Minha torcida é que, superados esses segredos que os prendem ao início da novela (com Luzia inocentada e Beto preso), a história dos protagonistas e o seu confronto com as verdadeiras vilãs deem uma guinada. Até porque gosto da atuação da Giovanna e do Emilio.

Daiane S disse...

Tirando a trama da Rosa, as outras, nenhuma me atrai, o enredo principal é bom, mas é engessado e anda lentamente, poderia ser movimentado com a Luzia buscando provar a sua inocência, com a descoberta de que o corpo do bebê enterrado não é do seu filho, não sei se o JEC está guardando todas as cartas na manga para movimentar a trama principal na reta final, ou se ele realmente resolveu distribuir as atenções com os outros núcleos.

Anônimo disse...

Vejo a trama central mal explorada, mas assistir um capítulo com Remy, Karola e Laureta dominando os holofotes, nem se compara com Roberval, Rochelle, Maura e afins

Sérgio Santos disse...

Eles também têm seus problemas, Fernanda. Isso é fato.

Sérgio Santos disse...

Realmente gira, anonimo, mas ela nada faz. Ou seja, ela poderia até ter morrido que tudo seguiria como está já que os crimes se manteriam "ativos" e as vilãs ameaçadas.

Sérgio Santos disse...

Tb me irrita, Karina.

Sérgio Santos disse...

Sem duvida, Ruan.

Sérgio Santos disse...

Germana, eu tb acho que essa trama da Maura vai naufragar já já... Ótimo comentário. Sempre bom te ver aqui.

Sérgio Santos disse...

Não é mesmo, Fabio. abçs

Sérgio Santos disse...

Ele tá mt bem mesmo, anonimo. E obrigado pelo carinho.

Sérgio Santos disse...

Aguardemos, João. abçss

Sérgio Santos disse...

Entendo muito, Daiane.

Sérgio Santos disse...

A trama cansa muitas vezes, anonimo.