sexta-feira, 10 de agosto de 2018

"Malhação - Vidas Brasileiras" aborda temas importantes de forma rasa e gratuita

A missão de um autor não é fácil. Criar bons personagens, dramas atraentes e histórias convincentes é um desafio para qualquer escritor. E inserir esse conjunto em uma produção televisiva consegue ser ainda mais complicado. Porém, apesar das inúmeras dificuldades, é praticamente impossível falhar em absolutamente tudo. Por pior que seja uma novela ou série, há ao menos um núcleo ou uns poucos personagens que se salvam. E é exatamente por isso que o caso de "Malhação - Vidas Brasileiras" se mostra tão atípico: a atual temporada falha em todos os aspectos.


Patrícia Moretzohn tem pecado desde o início de seu enredo e uma dos muitos equívocos é a abordagem de temas importantes. O chamado "merchandising social" na teledramaturgia é uma constante sempre bem-vinda, desde que agregue ao roteiro, engrandeça os personagens e consiga mesclar ficção com realidade com competência. Mas nada disso tem sido observado na história da autora, que enfia os pés pelas mãos em todos os momentos que pretende explorar dramas como alcoolismo, gordofobia, bulimia, entre outros.

A ideia de se inspirar no formato canadense "30 Vies" foi um dos maiores erros da atual temporada. É impossível desenvolver um drama de um personagem em menos de dez capítulos sem parecer raso ou gratuito. Com o objetivo de elaborar um 'rodízio' de protagonismo, a história explora um conflito por vez colocando um adolescente ou adulto como perfil central. E o desenvolvimento de todas as situações até então se mostrou catastrófico.
O aluno ou aluna da intrometida professora Gabriela (Camila Morgado) apresenta um problema do nada, o mesmo é exibido de maneira superficial e em menos de duas semanas tudo é solucionado como em um passe de mágica.

O caso de Pérola (Rayssa Bratillieri), por exemplo, beirou o absurdo. A patricinha, inclusive, parecia ser a única personagem bem construída da trama, mas essa impressão durou pouco. Chegou a ser vilãnizada quando foi traída pelo namorado Alex (Daniel Rangel) e seu desenvolvimento foi totalmente equivocado assim que teve o esperado protagonismo no roteiro. A menina resolveu virar uma modelo famosa, depois que uma amiga a indicou para o trabalho, e imediatamente começou a se fixar com o corpo. A bulimia surgiu em menos de uma semana e o público já via cenas de indução ao vômito, rejeição aos alimentos e excesso de exercícios. A garota chegou a ficar com uma expressão cadavérica em poucos dias (cuja maquiagem exagerada merece menção) e ninguém ao seu redor notava algo de estranho. Somente Gabriela percebeu algo, mas achou que era gravidez. Só perceberam quando Pérola sumiu e foi encontrada quase morta no banheiro. Logo depois, magicamente, ela se recuperou e se deu conta da sua doença. Iniciou um tratamento que o telespectador não viu e já estava bem, cedendo o protagonismo para outro.

Amanda (Pally Siqueira) se transformou na nova vítima. Com o objetivo de abordar a Esclerose Lateral Amiotrófica (conhecida como "E.L.A."), a personagem ganhou destaque e passou a morar na casa da avó do namorado ---- Kavaco (Gabriel Contente), o primeiro que ganhou um conflito na temporada, tendo protagonizado o constrangedor enredo do verniz de barco que cheirava. A grande Aracy Balabanian foi a escolhida para uma breve participação como avó do menino. A senhora não gostou de modificar toda a sua casa para a adaptação da menina, que precisava de apoio para não cair e maçanetas mais simples nas portas. O detalhe é que essa doença nunca foi sequer citada anteriormente e os pais da garota nem apareceram para uma interação com a filha. Amanda acabou expulsa pela dona do apartamento, mas a mesma teve um problema de saúde e as duas acabaram se reconciliando. Já a doença só se manisfestou quando era propícia para o enredo. Após concluído, tudo bem novamente.

E recentemente a autora conseguiu errar ainda mais no drama de Rafael (Carmo Dalla Vecchia). O personagem sofria de alcoolismo e esse grave problema nunca foi sequer explorado anteriormente. Nem mesmo de maneira sutil. A doença virou o foco simplesmente porque Márcio (André Luiz Frambach), com ciúmes da relação do pai com Gabriela, resolveu induzi-lo a ingerir bebida para atrapalhar o romance. A atitude é digna de um grande vilão de novela, mas Patrícia tenta apresentar um garoto complexo, sem sucesso. O rapaz parece legal em alguns momentos e em outros vira um completo babaca de maneira gratuita. Até mesmo o namoro com Pérola foi construído de forma rasa. E, por mais absurdo que seja, nesta semana, Márcio pediu desculpas pelo que fez ao pai e tudo ficou por isso mesmo. Rafael até se recuperou da recaída no álcool. Como pode tamanho desleixo de narrativa?

Para culminar, na mesma semana, a autora usou uma série de apresentações de grupo na escola para falar de maneira extremamente didática sobre corrupção, gênero, sexualidade e alcoolismo. Parecia um Telecurso 2000 piorado e não uma trama com conflitos bem construídos. Os temas importantes não foram usados para engrandecer a narrativa dos personagens e, sim, para dar uma aula entediante sobre questões importantes. A interpretação do elenco também não ajudou e o conjunto beirou o constrangimento. Até mesmo o contexto envolvendo a gordofobia sofrida por Úrsula (Guilhermina Libanio) voltou com uma abordagem tão superficial quanto feita anteriormente através do menino que teve vergonha de beijá-la na frente dos amigos. Agora entrou em voga o racismo com uma nova personagem que se matriculou na escola. A expectativa em cima desse outro assunto é a pior possível.

"Malhação - Vidas Brasileira" vem se mostrando um conjunto de equívocos e a baixa audiência faz jus ao que vem sendo apresentado desde a estreia. É decepcionante ver uma temporada tão fraca e mal conduzida, principalmente após o sucesso de "Viva a Diferença". Não há fôlego na narrativa nem para o final de 2018, quanto mais para agosto de 2019 (prazo estipulado pela emissora). Preocupante.

18 comentários:

Anônimo disse...

Sobre essa temporada não tenho mais nada a dizer... Só lamentar. Pelo visto agora, Malhação voltará aos trilhos só em 2020 (Se essa história do Jacobina ser o autor da próxima temorada em detrimento ao roteiro de Priscila Steimann). É triste, viu...

Anônimo disse...

*Se essa história do Jacobina... se confirmar.

Heitor disse...

Que vergonha ver o que essa autora tá fazendo!!!!!!!!

Andressa Mattos M. disse...

Já tinha lido um comentário aqui no blog dizendo que você é ótimo pra elogiar mas pra esculachar é ainda melhor.Concordo!!!!!!!!

Marcos Vinícius disse...

Sérgio, concordo com tudo no seu texto, essa temporada é péssima em todos os sentidos e só piora!!! As abordagens são pessimamente feitas, as atuações de todos os jovens atores são sofríveis, é impossível gostar de um único personagem... Essa temporada definitivamente é uma merda. É uma pena enorme que depois da melhor temporada de malhação que foi Viva a Diferença tenha vindo essa, que regrediu tudo que o Cao Hamburger fez. Não da nem pra comparar vidas brasileiras com Viva a Diferença, de tão bem feita que foi a temporada anterior. Espero que essa temporada não dare até ano que vem e acabe logo, porque olha, nada mais se salva nessa bosta.

Anônimo disse...

Perfeito o seu texto! Parabéns! E é exatamente isso o que penso da atual Malhação. Os temas surgem do nada e são tratados e resolvidos com a maior superficialidade do mundo, e depois de duas semanas são completamente esquecidos.Enfim, já desisti dessa temporada.

Malu disse...

Desculpe o textão desde já, mas lá vai. O formato não funciona MESMO. Acho que renderia bem mais se fossem no clássico, mesmo que com os insossos Marilex de protagonistas e os chatos Peromar de vilões, e os outros de secundários. O texto já virou chacota, com todo mundo fazendo piada da Jade aquela que "é uma menina top, criada em Paris", do verniz de barco (que dizem que a Patrícia cheira pra escrever, kkkkk), enfim. Fora que os problemas são abordados de maneira tão superficial que muitas vezes passam longe do que deveria ser, exemplo: cadê a ELA no caso da Amanda? A doença foi citada, mas o foco mesmo foi sobre ela ficar ou não no Rio de Janeiro com o namorado. Sendo que, pra isso ter relevância a gente precisaria torcer pelo casal, o que não ocorre. Ainda sobre os "problemas" dos adolescentes, de que forma eles se conectam com a realidade? Que tipo de adolescente brasileiro cheira verniz de barco? Ou vai parar num presídio numa rebelião como Érico e Flora? Benê tinha asperger, o que também não é tão comum, mas ela conseguia se conectar com o público possuindo características como timidez, se sentir deslocada e inadequada socialmente, não ter amigos, etc. Rolava identificação, porque os personagens tinham camadas, já esses não tem sequer personalidade, que muda a cada quinzena. O elenco é um show de horrores à parte. Malhação é, há anos, um celeiro de talentos da Globo, mas dessa temporada não se salva absolutamente ninguém, um time fraco, sem carisma e expressão, com personagens que não ajudam... É como você disse mesmo NADA se salva nessa malhação, é uma proeza.

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Sobre o post anterior: o Canta Comigo é bonito plasticamente e tal, mas até agora não consegui compreender os critérios de julgamento dos 100 jurados....Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

Anônimo disse...

o que vc acha da atuação do daniel rangel e da alice milagres?

Anônimo disse...

Perfeito seu texto, Sérgio! Realmente as abordagens passam mensagens muito erradas, a parte da bulimia poderia ter servido de maneira a alertar essas jovens que seguem dietas malucas apenas pq são recomendadas por blogueirinhas da moda, sendo que essas moças não são profissionais. Mas, ficou raso e até mesmo constrangedor a maquiagem cadavérica da menina e ninguém percebendo nada. De resto, cadê a continuidade? Talissia nunca mais falou do terreiro? E a carreira de ginasta da Verena? Não tem como acompanhar um personagem assim. O que me intriga é a Globo não fazer nada! Se ainda a audiência estivesse boa, justificaria a falta de intervenções, mas não. Não há grupo de discussão, encurtamento, ou mesmo um cuidado maior com a trama. A única mudança sao esses alunos novos que entraram, mas a personagem negra, que poderia render um bom debate, já entrou com um discurso lacrador forcado que dói. Uma pergunta: quem são os piores e melhores atores desse elenco jovem pra você?

Fernanda Mendes disse...

Provando mais uma vez a teoria de uma temporada boa seguida por uma ruim. Já ansiosa pela próxima kkkkk

Germana Araújo disse...

Olá Sérgio!!
Texto preciso como sempre, parabéns.
Olha, eu juro que tive toda a boa vontade do mundo com essa temporada, achei que esse formato poderia dar certo (até porque me lembrei daquelas temporadas do Jacobina em que a história se arrastava por literalmente um ano até se resolver), mas, do jeito que tudo vem sendo apresentado, eu não poderia estar mais enganada, infelizmente. Tem que ter muita habilidade pra dar conta de um "rodízio de protagonistas", principalmente quando se insere algum merchandising social no meio; habilidade essa que, convenhamos, falta a essa autora.
Ainda acho que esse formato poderia ser aproveitado, mas de maneira diferente, por exemplo, dava para ir cozinhando as tramas que não estão em destaque, apresentando-as aos poucos para que o público pudesse sentir um mínimo de empatia quando chegasse a vez daquela história atingir o seu clímax (que não terminaria com uma solução mágica e definitiva) e depois continuar mostrando o que aconteceu "depois do fim", sem tanto destaque como antes, mas também sem praticamente sumir da história (ou seja, fazer tudo diferente do que está sendo feito... rs)
Como consequência direta desse estilo equivocado, temos uma total irresponsabilidade na hora de tratar temas importantes: bulimia, alcolismo, assédio, vício e tráfico de drogas, ELA, tudo isso virou apenas um pretexto para que os personagens soltassem meia dúzia de frases politicamente corretas como se estivessem mudando o mundo, quando na verdade só estão conseguindo ser um bando de insuportáveis cujos dramas ninguém se importa.
E nem vou entrar no mérito do folhetim em si (porque senão não paro mais de escrever kkkkk), só vou dizer que é ó: péssimo (pra não falar coisa pior... hehehe)
No mais, é isso. Abraços!!

Filha do Rei disse...

Oi, Sérgio. Tudo bem?
Confesso que tentei assistir a esta temporada de Malhação, mas desisti.Saudades da temporada anterior.
Tenha uma abençoada semana!! Bjs

Anônimo disse...

Essa Malhação é fraca mesmo! Mas falando em novela ruim, a próxima das nove vai ser um circo dos horrores. Tem gato, Marina Ruim Barbosa saturadissima, realismo fantástico, Aguinaldo Silva escrevendo os diálogos... Zero expectativa! Vou aproveitar bastante segundo sol pq depois é só ladeira abaixo com o sétimo flop. Aliás, Silvio de Abreu deveria cancelar essa porcaria e adiantar a trama da Manuela Dias, não é?

MBLeonino disse...

Essa temporada de Malhação faz as duas escritas por Jacobina parecerem ótimas. Pelo menos, o elenco das temporadas de Jacobina era bom, com raros novatos como exceção como o Nego do Borel, o Lucas Lucco e o Bruno Guedes. Nessa temporada nem os chamados atores veteranos estão dando liga, quanto mais os novatos.
E por falar nos novatos, se esse elenco aprovado é tão fraco, fico imaginando a qualidade dos novatos que não foram aprovados durante os testes de elenco.

Destaco a filha da Gorete Milages e o que faz o Érico, dentre outros. Nunca vi nada tão sem graça. E aquele penteado da Jade?. Parece que foi feito junto com o da Tatá Werneck em Deus Salve o Rei.

Aí junta isso com um texto fraco, com temas discutidos de forma rasa e truncada resulta em Malhação Vidas Brasileiras. Essa semana o assunto foi o excesso no uso do celular pelos jovens usando um dos personagens mais sem graça, o Tito.

Ao invés de colocar o avô pra fazer esse questionamento, que seria o mais lógico, por ser uma pessoa de idade e ter vivido num tempo em que essas tecnologias não existiram, a criatura pega um jovem pra de uma hora pra outra ficar com fobia de celular a ponto de dar um "showzinho" num showzinho onde todos os seus colegas estão com a lanterna do celular ligada apontando em sua direção. Sem falar na "fantasia" do Nerso da Capitinga que o Tito estava usando durante a apresentação.

O detalhe é que o Tito e sua banda já fizeram diversas apresentações no mesmo local e ninguém aparecia filmando essas apresentações.

Vou parar por aqui, pq se for relatar as falhas dessa temporada de Malhação, ficarei até a próxima copa e não conseguirei falar tudo. Abraço a todos.

chaconerrilla disse...

Essa temporada é horrível... Desisti faz tanto tempo que quando vejo (enquanto espero orgulho e paixão) sinto que está cada vez pior. Muito ruim.

yeng chan disse...
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Anônimo disse...

Talvez nunca aconteça, mas se realmente o Emanuel Jacobina escrever a substituta de "Vidas Brasileiras", penso que o ideal seria a atual temporada ter seu último capítulo exibido no início de novembro (repetindo o feito da de 2009, também escrita pela Patrícia Moretzsohn) deste ano, já que as abordagens sociais são feitas de maneira equivocada, então nada mais justo que encerrá-la depressa. Mas tudo dependeria da finalização imediata da sinopse da próxima. Quanto a esta nova, seria sensato ter uma quantidade de capítulos semelhante à de "Pro Dia Nascer Feliz", encerrando-se em julho ou agosto de 2019 para que a desenvolvida por Priscila Steinman definitivamente saia do papel, o que era planejado inicialmente antes de se cogitar a possibilidade de Jacobina voltar aos roteiros de "Malhação".