sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Suburbia": poesia e dolorosos toques de realidade em um universo ficcional

Luiz Fernando Carvallho é um diretor talentosíssimo e já dirigiu novelas de sucesso como "Pedra sobre Pedra" (1992) e "O Rei do Gado" (1996), por exemplo. No entanto, há alguns anos, Luiz vem se dedicando exclusivamente às séries e apresentou histórias muito bem-sucedidas, assim como fracassos também. Se em "Os Maias"  (2001) e "Hoje é dia de Maria" (2005) o telespectador pôde acompanhar verdadeiras obras-primas da teledramaturgia; o mesmo não se pode dizer de "A Pedra do Reino" (2007), "Capitu" (2008) e "Afinal, o que querem as mulheres" (2010); produções que não despertaram interesse e exageraram na 'intelectualidade'. Após esse três trabalhos fracassados, não havia muita expectativa na estreia de "Suburbia", a nova série dele, de Paulo Lins e Carla Madeira. Porém, após a exibição do primeiro episódio, as primeiras impressões acabaram sendo as melhores possíveis.


A série conta a vida, nada fácil, de Conceição, uma criança (vivida por Débora Fidélix Nascimento) que mora em uma carvoaria em Minas, local onde sua família acaba tirando o sustento. A trama --- nessa fase ambientada pouco antes dos anos 90 --- não se estende muito no local e logo a menina vai embora em cima de um cavalo branco. Para que pudesse pegar um trem, a menina acaba abandonando o animal. A cena foi muito forte e impressionou ver o cavalo correndo atrás da menina, enquanto ela o afugentava, demonstrando sofrimento. Ao chegar ao Rio de Janeiro, é confundida com uma trombadinha e acaba presa em uma instituição para menores. Lá, é ameaçada pela 'líder', mas não abaixa a cabeça e a enfrenta. Depois ainda consegue fugir; mas é atropelada por uma mulher, que a leva para casa, onde a jovem passa a viver praticamente como empregada --- a velha história do 'você é quase da família'.

Os anos passam e a protagonista cresce (Erika Januza, uma grande revelação, entra em cena), ainda mantendo a mesma função na casa da família que a acolheu. Já estando na década de 90, a série mostra o que parece ser uma leve melhora na vida de Conceição. A agora mulher está mais feliz, mesmo após tanto sofrimento. Porém, apenas parecia. Mesmo depois de
tantas sequências fortes, o telespectador ainda viu o primeiro episódio terminar com a jovem sendo estuprada pelo marido da mulher que a levou para casa anos atrás. Um detalhe curioso e ousado: durante a cena do estupro, tocava uma música de Roberto Carlos.

A direção acertou ao optar pelas poucas falas dos personagens. Quase não há diálogos e as imagens --- ao mesmo tempo que as expressões dos atores --- acabam transmitindo tudo o que é preciso para o público. Um trabalho impecável e primoroso. Outro ponto positivo foi o elenco ser composto por 99% de atores desconhecidos, dando boas oportunidades para novo talentos.

"Suburbia" é uma obra ficcional, que mistura poesia com dolorosos e tristes toques de realidade. A veracidade das cenas chega a chocar e provavelmente afugentará os telespectadores que não curtem esse tipo de história nada leve. Às vezes parece um documentário sobre o subúrbio, apresentando, sem qualquer maquiagem, todas as mazelas daquelas pessoas ali retratadas. Os suburbanos do seriado são bem diferentes dos mostrados em "Avenida Brasil", novela que os mostrou de uma forma mais bem-humorada.

Após alguns trabalhos nada felizes, Luiz Fernando Carvalho acertou ao colocar no ar esse seu projeto. O diretor afirmou que "Suburbia" era uma ideia antiga e que idealizava esse universo há mais de dez anos. Tanto tempo de espera parece que valeu a pena. O resultado foi uma produção caprichada, uma grande atriz (Erika Januza) revelada, direção mais do que acertada e uma protagonista que transmite doçura e dor com a mesma intensidade.


37 comentários:

Anônimo disse...

Olá Sérgio, aguardo ansiosamente o dia que Luiz Fernando Carvalho decida fazer algo com o João Emanuel Carneiro. Já imaginou o sucesso que seria??? A respeito de Afinal o que querem as mulheres? e Capitu, discordo de você, eu gostei muito das duas obras, justamente por fugir do comum, com esse ar de pseudo intelectualidade. hahaha Um grande abraço Heleno Dumbá

Anônimo disse...

Você não gostou de Capitú? Eu adorei!

Sérgio Santos disse...

Oi Heleno, olha seria mesmo uma produção de dar gosto! Mas acho Ricardo Waddington e Amora Mautner bons companheiros do autor e fazem muito bem o trabalho deles. Pois é, não gostei mesmo dessas duas obras dele. rs Abraços!

Sérgio Santos disse...

Oi "Anônimo", não gostei, não. Mas respeito sua opinião. Abraços.

✿ chica disse...

Vim me informar das novidades aqui e deixar meu abração, desejando lindo feriadão!chica

Kellen Bittencourt disse...

A neimmm, dormi, queria ter visto, vi as meninas ontem na Fátima Bernardes, felizes da vida com seus primeiros papéis, desejo muito sucesso a essa série, pena que é tão tarde! Abraçosss e ótimo finde amigo!

Valquiria Novaes disse...

Fiquei curiosa agora, antes me pareceu algo como as empreguetes hehehe
Bjos e bom feriado!
http://amonailart.blogspot.com.br/

Rita disse...

*。¨* ✫ ” ✫. ☽¨¯*。.☆¨*。¯`☆¸.✫˚¯`☆
Serginho querido vi a propaganda
toda mas a noite o soninho bateu
e não vi, foi pena espero que tenha
sido bom para quem assistiu
Mesmo assim parabenizo aos atores, e a vc que posta de tudo pra gente ficar antenado
Abraços de bom feriado e um final de semana cheinho de muitooo brilho pra vc
Bjuss
Rita
*。¨* ✫ ” ✫. ☽¨¯*。.☆¨*。¯`☆¸.✫˚¯`☆

Vera Lúcia disse...


Olá Sérgio,

Vi as chamadas, mas confesso que não tive interesse em assistir. Contudo, sua bela resenha despertou minha curiosidade e vou tentar assistir.

Desejo-lhe um delicioso feriado e um belo final de semana.

Beijo.

Milene Lima disse...

Acho que faço parte desse rol dos que achariam as cenas fortes demais, algumas delas. A cena do estupro me doeu a alma... Toda mulher deveria nascer já com o domínio de alguma arte marcial.

E quem disse que a realidade não embrulha o estômago, né?

No mais, tudo muito bonito e bem cuidado, eu gostei.

Beijo, Sérgio.

Elvira Akchourin do Nascimento disse...

Concordo com a crítica, Sérgio. "Suburbia" me encantou pelo forte texto, competente direção e ótimas atuações, especialmente de Erica Januza. Palmas pela aposta na renovação de talentos.
O diretor Luiz Fernando Carvalho é talentoso e criativo. Gostei de seus trabalhos anteriores, "Riacho Doce", "Renascer", "Os Maias", "Hoje é Dia de Maria", "Capitu" e o filme "Lavoura Arcaica".

Barbie Californiana disse...

Ah mas tudo que é bem planejado, dificilmente decepciona, Sérgio... sua análise, ficou muito boa. beijos e lindo feriadão.

Wander Veroni Maia disse...

Sérgio, não assisti ainda. Pretendo ver mais tarde na Globo.Com. Mas, pelas chamadas que vi na TV e pela sua resenha a série parece ser muito boa. Esse diretor está trabalhando com uma estética que, particularmente, gosto muito que é trabalhar fotografia por meio de filtros, como se fosse um filme. Aparentemente, tem tudo para ser sucesso. Abraços

Vanessa Barbosa. disse...

Eu achei muito bom o primeiro capítulo, deu vontade de assistir mais. Mostrou cenas fortes mas sem aquele fanatismo todo.
Que venha os próximos episódios.

OBS: O que foi o tão esperado "Como aproveitar o fim do mundo?" Detestei.

Carlos disse...

Mesmo curtindo essa folga, não poderia deixar de comentar essa série. Nossa foi maravilhosa. Um texto feito com cuidado e todos os personagens mostraram força, talvez o fato de rostos desconhecidos tenha ajudado, mas é incrível como a mocinha, mesmo sofrendo isso tudo, não seja chorona e chatinha. Isso ajuda mais ainda a termos gosto em assistir. Só achei desnecessária a música do Roberto Carlos na cena do estupro. A cena era séria e forte demais pra ter uma músiquinha de fundo, só uma música instrumental triste já bastaria.

Eu não iria falar, até porque acredito que você vai fazer um tópico sobre isso, mas o que foi "Como aproveitar o fim do mundo?". Foi tanto clichê do casal de autores que previa tudo que iria ocorrer. Mas já tinha percebido que o tom seria dessa forma desde aquela abertura tosca dos maias. Quando a personagem da Aline falou que iria enfrentar o professor de escola já sabia o que viria. Quase não assisti Suburbia por puro sono, mas tratei de me ocupar pra não dormir.

Abraço

Marcos Mariano disse...

Sérgião, ta ai uma das poucas produções televisivas que tenho prazer em assistir, vi o primeiro capitulo e amei, principalmente por ter vivido muito daquele universo ali, achei incrível a atuação da Erika Januza, principalmente por saber que ela nunca tinha atuado antes. As canções me fizeram recordar a minha adolescência, principalmente quando vi um dos personagens segurando um disco da Furacão 200, eu tinha um daquele, dancei muito aqueles Funks, cara que massa. Já virei fã dessa série.

Abraços

Sérgio Santos disse...

Oi Chica, obrigado. Bom feriado pra você também!

Sérgio Santos disse...

Oi Kellen, o horário é tardio mesmo. Nem sabia que tinham ido no programa da Fátima. Beijos!!!

Sérgio Santos disse...

Oi Val, não tem nada a ver com empreguetes, pelo contrário, a história é pesadíssima. Beijão.

Sérgio Santos disse...

Oi Rita, obrigado pelo carinho. Grande beijo pra você!

Sérgio Santos disse...

Oi Vera, olha confesso a você que esse tipo de história não me agrada, tanto que nunca vi filmes como "Cidade dos Homens", "Antônia", Tropa de Elite", enfim... Mas não misturei meu gosto pessoal no texto, então apenas ressaltei toda a qualidade incontestável da série. Beijão.

Sérgio Santos disse...

Oi Milene, pois é a realidade embrulha muito. Talvez por isso que esse tipo de história nunca me atraiu.

A cena do estupro foi muito pesada mesmo. Não é uma série que agradará todo mundo; se bem que nada agrada... rs Beijão!

Sérgio Santos disse...

Oi Elvira, obrigado pelo comentário. Luiz é muito competente, mas das citadas por você não gostei mesmo de Capitu. Achava impossível de assistir, minha paciência se esgotava em poucos minutos.

Suburbia tem uma grande qualidade e Erika precisa de novas oportunidades na Globo. É um talento. Foi bacana priorizar novos atores mesmo. Beijos!

Sérgio Santos disse...

Oi Barbie, muito obrigado! Beijos e bom feriado!

Sérgio Santos disse...

Oi Wander, creio que você não irá se decepcionar. A série é muito boa e tem uma qualidade incrível. Abração.

Sérgio Santos disse...

Oi Vanessa, tivemos um grande primeiro episódio mesmo.

Olha, sobre a outra série, eu adorei! Acabei de postar um texto elogiando, inclusive. rs Mas respeito você não ter gostado. Beijos.

Sérgio Santos disse...

Oi Carlos, realmente foi uma produção digna de aplausos. Os atores estavam entregues, o silêncio muitas vezes falava mais que o texto e a direção foi impecável. Conceição é uma grande personagem e escolheram a atriz a dedo. É só o começo pra ela.

Olha, eu adorei a série "Como aproveitar o fim do mundo". Acabo de postar um texto elogiando. Creio que ter um casal protagonista acaba sendo uma das marcas dos autores. Acho a acidez deles perfeita. Porém, concordo com você que a parte inicial com os maias foi muito idiota. Mas tirando isso, achei tudo ótimo. Abração.

Sérgio Santos disse...

Oi Marcos, que bacana saber disso! Então você deve ter se identificado muito mesmo. E a série passa num horário acessível pra você, por isso que acho bom que também tenhamos bons programas em horas mais tardias. Abração!

EDER RIBEIRO disse...

Uma realidade nua e crua. Vai abalar. Abraços .

Thallys Bruno Almeida disse...

Gostei do artigo, Sérgio.

Tinha sérias desconfianças sobre essa série por ter detestado o último trabalho de Luiz Fernando Carvalho, intelectualizado demais, assim como a inassistível A Pedra do Reino. Mas me surpreendi com um trabalho de primeira, com ótima fotografia, texto preciso, direção perfeita... dessa vez LFC acertou na mão, assim como em Os Maias e Hoje é Dia de Maria (em se tratando de séries). Por isso, a série conquistou a crítica.

Foi acertada a ideia de colocar um elenco integralmente novato, com destaque à protagonista Érika Jannuzza. Só não entendi colocarem uma música de Roberto (O Tempo Vai Apagar, 1968) durante a cena do estupro. Mas gostei de outras músicas dele tocadas nas chamadas, como As Canções Que Você Fez Pra Mim (1968) e O Divã (1972).

O novo seriado conquistou merecidamente a boa recepção de público e crítica e tem tudo pra fazer sucesso. Abçs!

Thallys Bruno Almeida disse...

Uma pequena sugestão: nos creditos, a pequena Conceição aparece como Débora FIDÉLIX Nascimento. Seria até uma boa colocar esse sobreonme pra não confundir com a outra Débora Nascimento, a Tessália de AVBR. Abç!

Thallys Bruno Almeida disse...

*créditos *sobrenome

Sérgio Santos disse...

Oi Eder! Uma realidade cuspida e que chega a assustar. Abraço.

Sérgio Santos disse...

Oi Thallys. Também tinha desconfianças e não estava nada animado. Após 3 séries muito ruins, na minha opinião, as perspectivas não eram lá as melhores. Mas ele surpreendeu e Suburbia é excelente. Não gosto desse tipo de história, mas aí são outros 500.

Boa sugestão, vou acrescentar o sobrenome citado. Evitei porque achei que ficaria grande demais para uma 'desconhecida', mas realmente pode ter confusão com a atriz que viveu a Tessália. Abraço.

Anônimo disse...

eu particularmente me emocionei com a cena do estupro embalada pela lindissima cancao (que eu custava acreditar ser do Roberto Carlos)... a cena é perfeita e a musica deu um ar poetico a cena... muito bem feita... mas a surpresa maior foi saber que Roberto Carlos já teve uma fase aurea com canção inspiradissimas como aquela... a imagem que eu tinha do Roberto era desse artista repetitivo que toca esses especial chaterrimos de fim de ano da Globo... mas depois de ouvir a canção o Tempo vai apagar tocando em Suburbia comecei vasculhar a net em busca de perolas antigas do rei e me surpreendi do quando Roberto Carlos era inspirado entre os anos de 65 e 78... albuns antologicos e classicos...baixei todos e estou amando...

ricardo cardoso vidal

Anônimo disse...

realmente não dá para acreditar o qto o Rei Roberto Carlos decaiu musicalmente... e também concordo... esse especiald e fim de ano ajuda e muito a queimar o filme dele com as novas geraçao que não conhecem seus trabalhos dos anos 60/70/80...passa uma imagem de um artista chato, engessado e brega sempre com as mesmas cancoes e interpretações podres..afffffffffff...


babalu soares

Anônimo disse...

Simplesmente amei Suburbia, achei incrível a simplicidade e a pureza de Conceição, e o amor doce e puro entre ela e Cleiton.

Só uma errata na sua resenha (por favor, corrija-me se eu estiver errada) : ela não chegou a ser estuprada, ela quase foi estuprada mas o marido de sua patroa não chegou a consumar o ato pois ela lhe deu um golpe e conseguiu fugir.Bom, pelo menos eu acho que foi isso que presenciei na cena. Hehehehe.