quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O sucesso de "Xica da Silva" e sua importância na teledramaturgia

Exibida entre setembro de 1996 e agosto de 1997, "Xica da Silva" foi um imenso sucesso da extinta Rede Manchete e se transformou em um marco na história da teledramaturgia. Escrita por Walcyr Carrasco (na época com o pseudônimo de Adamo Rangel) e dirigida pelo saudoso Walter Avancini, a novela teve 231 capítulos e foi baseada em fatos reais, assim como o filme dirigido por Cacá Diegues em 1976, de mesmo título ----- a história, vale ressaltar, ainda foi contada em livro ("Chica que manda"), que foi a base do folhetim.


A vida da escrava que virou rainha em pleno século XVIII foi transformada em um ótimo folhetim e fez de Taís Araújo (em sua segunda novela) a primeira protagonista negra da televisão brasileira. A trama ---- que mesclou com competência situações fictícias e fatos reais ---- era repleta de cenas pesadas, onde a nudez e a violência se faziam presentes em vários momentos. Hoje em dia, por exemplo, em meio a tantas restrições e censura disfarçada de 'Classificação Indicativa', a produção só poderia ser exibida depois das 23h.

Inteligente, atrevida e convencida, Xica conseguiu dar a volta por cima, após muitas humilhações, se casando com um marido rico, para o choque de toda a sociedade. Tudo começa quando o homem mais poderoso da época ----- o comendador Felisberto Caldeira D`Abrantes (Reynaldo Gonzaga), responsável pelo manejo das minas de diamantes ----- resolve vender a sua filha, Xica, a um bordel. A garota se vinga roubando toda a fortuna em diamantes do 'pai' (ele sempre a renegou) guardada em um baú.
O plano é realizado junto com o negro Quiloa (Maurício Gonçalves), que sempre foi apaixonado por ela. Os dois escondem o tesouro debaixo da terra (para a futura compra de suas cartas de alforria) e arruínam os seus senhores, que acabam enviados à prisão em Portugal. A escrava se vinga do pai, o condenando à miséria.

Depois desta virada, Xica é vendida junto com sua mãe para o Sargento Tomaz Cabral (Carlos Alberto) e Quiloa foge para um quilombo. A escrava acaba violentada pelo seu novo 'patrão', perdendo sua virgindade, e passa a nutrir um ódio profundo por ele. Para culminar, a sua nova 'dona' é a perversa Violante (Drica Moraes), filha deste asqueroso homem. É a partir de toda esta situação que o folhetim começa a se fazer mais presente. Isso porque a protagonista conhece o amor da sua vida: o contratador João Fernandes (Victor Wagner), rapaz que está prometido para a diabólica Violante, algoz de Xica.


O contratador se encanta pela beleza da escrava e se propõe a comprá-la. O sargento acaba aceitando a oferta por medo de desagradá-lo, uma vez que o mesmo será o seu futuro genro. Claro que a convivência aproxima cada vez mais João e Xica, mas ela se nega a dormir com ele em virtude do trauma do estupro. Ele a respeita, fica ainda mais apaixonado, e acaba rompendo com Violante, após inúmeras brigas. Agindo como um clássico 'príncipe encantado', o rapaz se declara publicamente para a escrava, que retribui o sentimento, e ainda se beneficia desta nova situação. Já alforriada, a principal personagem da história se transforma em uma verdadeira rainha, com direito a várias perucas, vestidos caros, joias e até mucamas. Era o início de sua vingança. Antes esnobada pela nobreza, agora era ela a autora do desprezo.


O ódio de Violante, obviamente, só aumentou e os embates entre mocinha e vilã, que eram um dos muitos atrativos da novela. Apaixonada por João, Xica não tinha medo da intimidação da inimiga e a enfrentava de igual para igual. Aliás, a protagonista também sabia ser cruel. Um bom exemplo foi quando mandou arrancar todos os dentes de uma escrava ambiciosa que tentou seduzir seu marido. Taís Araújo, embora ainda inexperiente, se destacou merecidamente e Drica Moraes ----- que ganhou o troféu APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) na época por causa de sua primorosa atuação ---- simplesmente deu um show na pele da bruxa (foi ainda o início da sua longeva parceria com o autor Walcyr Carrasco).


Entre as cenas mais pesadas da trama, estavam as cruéis sessões de tortura que Violante fazia com a mãe de Xica (Maria da Silva, interpretada magistralmente por Zezé Motta), com o intuito de se vingar da rival. E o momento mais aterrorizante foi a morte de Maria: ela teve os braços e pernas amarrados a quatro cavalos, que são assustados por um tiro e correm em direções contrárias, resultando no esquartejamento do corpo em praça pública. Para culminar, suas partes foram jogadas aos urubus. A novela teve muitos momentos de violência explícita e precisava ter um estômago forte para assistir.


Além dos nomes já citados, é preciso mencionar também outros atores que compuseram o time, vide Guilherme Piva (José Maria), Giovanna Antonelli (Elvira), Eliana Guttman (Maria do Céu), Miriam Pires (Bemvinda), Sérgio Britto (Conde Valadares), Ângela Leal (Marquesa Carlota), Paulo César Grande (Evaristo), Ana Cecília Costa (Tomázia), Dalton Vigh (Frei Expedito), Jayme Periard (Félix), Andréa Avancini (Eugênia), Lu Grimaldi (Fausta), Sérgio Viotti (Conde de Barca), Thalma de Freitas (Caetana), Léa Garcia (Bastiana), Carla Regina (Das Dores), Joana Limaverde (Catarina), Murilo Rosa (Martim), entre outros.


"Xica da Silva" foi mais um grande trabalho de Walcyr Carrasco e a novela marcou a carreira de vários atores, como também ficou na lembrança do grande público. Foi um dos grandiosos folhetins da extinta Rede Manchete, que contou ainda com um dos mais respeitados diretores: Walter Avancini, falecido em 2001. Uma história forte, transformada em novela, cujo sucesso foi notório e de extrema importância para a teledramaturgia nacional.

35 comentários:

Fernanda disse...

Adorei essa bela lembrança de mais esse sucesso do Walcyr! Tinha me esquecido de várias coisas e lembrei agora. Só achava muito violenta mesmo.

Anônimo disse...

A Manchete sim fazia novelas com padrão nível Globo para enfrentá-la. Não como a Record, que com essa tosquice de Os 25 Mandamentos acha que está abalando estruturas. Xica da Silva foi um marco e mereceu todo o sucesso que fez. Foi por causa dela que o Walcyr foi contratado pela Globo com toda certeza. Boa surpresa essa sua postagem!

Anônimo disse...

Houve novelas melhores na Manchete, Xica da Silva tinha boa direção mas o texto era fraco. Gostei foi de Corpo Santo(87), D.Beija(86), e Pantanal(90) só a primeira fase. Muita gente deixava de assistir as novelas da Manchete por preconceito, e perderam, assim como hoje muita gente não acompanha algumas novelas da Record que foram excelentes, cito Chamas da Vida, Pecado Mortal, e lógico Os Dez Mandamentos, que aliás essa semana bateu novo recorde e humilhou a chatissima novela das 9 da Globo enquanto estavam no ar.

Letícia disse...

Foi o melhor papel da Taís Araújo na televisão e também o melhor da Drica Moraes na minha opinião. E é assustador como os haters do Walcyr não engolem o seu sucesso nem mesmo com Xica da Silva como é o caso do comentarista acima que tenta desqualificá-lo dizendo que o texto era fraco. E o texto de Os Dez Mandamentos é bom? Só rindo.

F Silva disse...

Algo a comentar...

Que boa lembrança Sérgio! "Xica da Silva" foi o último grande sucesso da saudosa tv Manchete.

Discordo do anônimo que disse que a Manchete fazia novelas com padrão nível Globo. Na verdade, a Manchete imprimiu sua própria marca na teledramaturgia, em nada suas novelas lembravam o padrão da Globo.

Permita-me fazer algumas breves lembranças...

"Dona Beija", a melhor obra de teledramaturgia da Manchete, a saga de Ana Jacinta, e um grande momento da Maytê Proença, no auge de sua beleza.

"Corpo Santo", uma boa trama de Louzeiro que teve uma considerada repercussão e causou polêmicas.

"Kananga do Japão", uma charmosa e requintada produção de época.

"Carmem" uma boa história desenvolvida por Glória Perez.

"Ana Raio & Zé Trovão", apesar dos problemas, foi uma atraente trama dirigida por Jayme Monjardim e com boas participações especiais.

"Pantanal", é fato que foi um grande sucesso, mas não gostei, eu dormia em frente a tv.

"Mandacaru", não foi um sucesso, entretanto, me divertiu. Eu dava altas risadas com Zebedeu, brilhantemente interpretado por Benvindo Siqueira, que roubou a cena e se tornou o protagonista.

E "Xica da Silva", objeto desse post, um imenso sucesso, mais pela competência da direção de Avancine, do que pelo texto pobre do Carrasco. Eu me lembro que na época, muitos diziam: "Xica da Silva" novela de Walter Avancine. Na verdade, ele foi o grande responsável pelo sucesso dessa caprichada produção.

É importante afirmar aqui Sérgio, que grande parte dos profissionais que estiveram a frente dessas produções, eram oriundos da Globo, que limitava a liberdade de criação deles, por causa do "padrão globo de qualidade". Encontraram essa liberdade na Manchete e presentearam o público da época com esses clássicos da teledramaturgia.

Infelizmente, a saudosa tv Manchete, teve uma vida muito curta. Que pena!!

beijos...

luiz claudio disse...

A exemplo de Xica Verdades Secretas também só foi boa por causa da direção, os diálogos dos personagens eram de uma pobreza de dar vergonha. Incrivel como o Walcyr Carrasco tem o dom de criar boas historias mas não aprende a desenvolver diálogos decentes, quem entende do assunto e não um simples fã dele sabe do que estou falando. Xica da Silva teve o mesmo problema e critica na época, quem é mais novo certamente não se lembra. E a Globo perdeu seu padrão a muito tempo, outra coisa que os fanáticos se recusam a aceitar.

Sandro disse...

Walcyr é mesmo uma fábrica de sucessos como você já havia escrito naquele post falando de todas as suas novelas de imensa repercussão.Xica da Silva eu infelizmente não vi, mas só leio elogios até hoje. Gostei de me inteirar mais sobre o todo da história nesse texto.

Renato disse...

Sucesso mesmo e a Globo foi esperta em contratar o Walcyr. Tanto que hoje ele é um dos poucos que ainda consegue ótima audiência pra emissora que anda capengando no horário nobre. Xica da Silva quebrou tabus e prendeu o público.A Drica Moraes de Violante foi uma das coisas mais incríveis que já vi.Que vilã! Já a Taís tava muito crua ainda, mas não fez feio. O elenco era de peso.E pensar que a respeitada Manchete virou Rede tv!...

Matheus Nogueira disse...

Lembrando q em 2005,o SBT reexibiu a novela

rui disse...

Acho lindo quando uma determinada coisa ou pessoa termina suas atividades antes de se tornar decadente, assim foi a rede Manchete. Como terminou em 1999 só temos ótimas lembranças desse saudoso canal. A rede Globo que esta ai ate hoje se tornou isso ai que estamos vendo: uma emissora onde a maior parte da programação é descartável, com esses realities nojentos, os programinhas de auditório intragáveis, o jornalismo ultrapassado e chato, e o pior de tudo, as novelas que não são nem sombra do que foram nos anos 70, 80 e 90. Só os incautos ainda insistem em defender a supremacia da Globo que infelizmente caiu muito de qualidade. Viva a Manchete!

Raylan disse...

Assisti a novela na reprise do SBT e gostei muito, em minha humilde opinião, a melhor novela do Walcyr, onde seu texto era bem escrito e sem o característico humor infantiloide.

MARILENE disse...

Foi muito bom ler sua postagem, Sergio. O tempo passa e leva nossas memórias. Recordei, com prazer, a novela, que foi ótima. Bjs.

Vera Lúcia disse...


Puxa! Gostaria de ter assistido.
Pela descrição, foi uma novela de tirar o fôlego.
Parabéns pela excelente narrativa, Sérgio, que me prendeu como se estivesse assistindo ao folhetim.

Abraço.

Ramon Siqueira disse...

Novela emblemática, último grande sucesso da Manchete e com grande mérito! Taís antes dos 18 anos já tinha uma grande responsabilidade na TV e não fez feio, se destacou merecidamente. E Drica Moraes, o que falar da Drica né, simplesmente deu um show com essa mulher diabólica. Ela imprime um olhar que poucos conseguem fazer, no caso da Violante, ela olhava com ódio e era assustador. Tem uma cena da novela onde a Xica serve a feijoada com a carne do escravo e quando ela conta a Violante, esta fica com nojo e raiva. Ficou engraçada e macabra pela crueldade sem remorso da Xica hahahaha.
O folhetim entrou pra história com grande mérito, Walcyr e Walter formaram uma dupla magnífica!!!!! Abração meu amigo e gostaria de pedir um post sobre Pantanal, seria legal saber sobre esse outro folhetim emblemático da saudosa Manchete!!

Uma Interessante Vida disse...

Que lembrança boa!! Outro dia desses vi algo a respeito na TV. Foi uma novela super bem feita. bjs

F Silva disse...

Algo a acrescentar...

Sérgio, senti a necessidade de acrescentar aqui sobre o meu dizer que os textos de Carrasco são fracos.

É uma crítica pessoal minha. Particular.

Quando digo texto fraco, me refiro ao didatismo existente nos diálogos que soam quase sempre declamados pelas personagens de suas novelas. São diálogos e situações pouco críveis que beiram o ridículo. Vi muito disso em "Amor à Vida" "Verdades Secretas" "Gabriela" e "Chica da Silva". São características plenamente aceitáveis nas suas comédias românticas escritas pro horário das seis.

Entretanto, esse ponto negativo do Walcyr nunca comprometeu o resultado geral de suas novelas. Ele sempre consegue envolver o público com enredos bem amarrados e dinâmicos. Diferente do Manoel Carlos, que anda fraco em termos de enredo, mais é um excelente dialogista.

Anônimo disse...

O Walcyr Carrasco não sabe escrever diálogos, fato! Ate sabe tramar, mas peca profundamente no texto, uma pena!

Sérgio Santos disse...

Que bom que gostou, Fernanda.

Sérgio Santos disse...

Que bom que gostou, anonimo. O fim da Manchete foi triste, não podia ter acabado.

Sérgio Santos disse...

Eu não disse que essa foi a melhor, anonimo, disse que foi um dos maiores sucessos da emissora.

Sérgio Santos disse...

Letícia, foram grandes papéis mesmo. Estavam ótimas, principalmente a Drica. E sobre isso, eu nem me surpreendo mais.

Sérgio Santos disse...

Que bom que gostou, F Silva. E adorei essa sua lista de boas lembranças tb. Eu sempre vou discordar dos que tentam desqualificar o Walcyr, colocando como responsáveis por todos os sucessos dele sempre terceiros. E não acho o texto dele fraco. Mas respeito seu ponto de vista e entendo. E Xica da Silva foi mais um dos grandes êxitos da carreira dele. E as tramas do Benedito são mt arrastadas, por isso vc deve ter dormido com Pantanal. Bjsss

Sérgio Santos disse...

Puxa, Luiz, vc reconheceu, ainda que desqualificando o criador dos personagens, da história e dos conflitos, que Verdades Secretas foi boa. Já é um passo.

Sérgio Santos disse...

Que bom que gostou, Sandro.

Sérgio Santos disse...

A Globo foi esperta mesmo, Renato. E a vilã da Drica foi assustadora. Taís tava crua mesmo, mas não fez feio. E é uma pena msm que a Manchete tenha virado Rede tv...

Sérgio Santos disse...

Verdade, Matheus.

Sérgio Santos disse...

Vc achou linda a falência da Manchete, rui? Que pena, eu achei deprimente e triste. E a Globo com queda ou não, continua sendo a melhor rede aberta do país em comparação com as concorrentes que tem todos esses programas que vc citou elevados ao cubo.

Sérgio Santos disse...

Foi boa msm, Raylan.

Sérgio Santos disse...

Que bom, Marilene. =) bjão

Sérgio Santos disse...

Foi msm, Vera. E mt forte. bjs

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado pelo carinho de sempre, Ramon. E fico feliz que vc tenha gostado do texto. Vou pensar sobre Pantanal. E Walcyr e Walter formaram uma grande dupla mesmo, repetida anos depois em O Cravo e a Rosa, meses antes do diretor falecer. abçsss

Sérgio Santos disse...

Foi sim, Barbie. bjs

Sérgio Santos disse...

Discordo completamente, anonimo.

Maria Lúcia Gromann disse...

Essa produção do Walcyr foi impecável, Sérgio. Ótima mesmo e com um texto muito bom.

Sérgio Santos disse...

Concordo, Maria!