sábado, 28 de fevereiro de 2026

Romance de Lorena e Juquinha em "Três Graças" é um marco na teledramaturgia

 A novela "Três Graças" marca um divisor de águas na teledramaturgia brasileira ao construir com sensibilidade, profundidade e naturalidade o romance entre Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovski). Longe de estereótipos ou da superficialidade que por tantas vezes limitou personagens LGBTQIAPN+ na televisão aberta, o casal é desenvolvido com o mesmo cuidado, complexidade emocional e protagonismo tradicionalmente reservados aos pares heterossexuais. 


A construção de Lorena e Juquinha é um dos maiores acertos dramáticos da obra. Os autores Aguinaldo Silva, Virgilio Silva e Zé Dassilva pensaram muito bem no desenvolvimento das duas. A relação cresce diante do público de forma orgânica: começa na identificação mútua, amadurece nos conflitos cotidianos e se consolida no afeto explícito, vivido sem subterfúgios. Não há caricatura, nem fetichização e, sim, humanidade. O roteiro entende que o amor entre duas mulheres não é “tema”, é história. E isso faz toda a diferença.

Muito desse êxito se deve à química arrebatadora entre Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski. As duas atrizes constroem uma parceria cênica deliciosa: os olhares sustentados, o toque que vira segurança, o riso compartilhado após o aumento gradativo da intimidade, enfim, tudo pulsa verdade.

Existe uma entrega mútua que transborda da tela e sustenta cada momento do casal. E tudo fluiu desde o dia em que se conheceram. Houve o tradicional flerte, a aproximação, a solidificação do vínculo e a rotina de duas namoradas. Sem cortes bruscos, medo dos autores ou censura. 

E justamente um dos aspectos mais revolucionários foi a naturalização dos gestos de afeto. Lorena e Juquinha se beijam em diversas cenas, em momentos românticos, cotidianos, de encontros ou despedidas, como qualquer casal hétero sempre fez na televisão. O que poderia ter sido tratado como “evento” vira parte da narrativa. E justamente aí reside o feito histórico: não se trata apenas de mostrar, mas de normalizar. A repetição desses beijos ao longo da trama consolida um novo parâmetro de representação na TV aberta. 

Ainda mais emblemática foi a sequência da primeira vez do casal exibida nesta segunda-feira, dia 23, quando as duas se entregaram ao tesão acumulado durante a viagem que fizeram para Campos do Jordão, enquanto o resto da novela explodia em adrenalina com o assassinato de Jorginho (Juliano Cazarré) e o parto traumático de Joélly (Alana Cabral) Não à toa, o capítulo rendeu um recorde de audiência merecido: 26 pontos. Voltando ao momento do casal, que foi tratado com delicadeza, respeito e intensidade dramática, a cena fugiu da invisibilização que tantas histórias LGBTQIA+ sofreram ao longo das décadas. Não houve corte constrangido, nem sugestão tímida, houve narrativa. A direção apostou na emoção, na construção do desejo, na intimidade compartilhada. Foi um marco não apenas pela ousadia, mas pela maturidade estética e narrativa. Um momento que inscreve a novela na história da televisão brasileira, sem exagero. Claro que não teve nada um pouco mais explícito como costuma ocorrer em produções do streaming, foi um jogo de sombras e mãos. Porém, honrou a beleza do casal que virou um sucesso mundial.

Aliás, o fenômeno de repercussão do par 'Loquinha' funcionou como uma blindagem. Vale lembrar que a atual cúpula da Globo, chefiada por Amauri Soares, vem provocando um grande conservadorismo na teledramaturgia da emissora e vários casais gays sofreram censuras nas tramas. Não somente no apagamento, como também no corte de beijos. E até para fazer justiça também é preciso ressaltar que, mesmo quando as produções se encaminhavam para uma evolução, acontecia uma espécie de regra: os casais homoafetivos só aconteciam lá para metade da obra e o beijo era um selinho no último capítulo. Ou então alguns selinhos bem rápidos em situações muito especiais. Tudo com muito 'cuidado'. Um das poucas exceções foi o par 'Kelmiro', em "Terra e Paixão', e por dois fatores: a importância que Walcyr Carrasco tem na empresa e o sucesso que Kelvin (Diego Martins) e Ramiro (Amaury Lorenzo) fizeram com o grande público. Porque o padrão é o apagamento seguido de cortes, vide a atual "Êta Mundo Melhor1", que destruiu e regrediu o romance que Lauro (Marcelo Argenta) tinha com Tobias (Cleiton Morais) em "Êta Mundo Bom!". Por isso o que vem acontecendo com Lorena e Juquinha é tão importante. Uma censura provocaria repercussão internacional, o que seria um desastre pra Globo.

Outro mérito fundamental de 'Loquinha' está na construção individual das personagens. Lorena e Juquinha não existem apenas enquanto casal, cada uma possui trajetória própria, conflitos particulares e arcos dramáticos independentes do romance. Lorena enfrenta dilemas internos e questões familiares que a colocam em constante processo de amadurecimento, incluindo sua relação com o irmão. Juquinha, por sua vez, carrega seu profissionalismo na polícia e está envolvida diretamente com o mocinho da novela, o seu melhor amigo Paulinho (Romulo Estrela), nas investigações de todos os conflitos do enredo.

Essa autonomia narrativa fortalece o romance, porque ele nasce do encontro entre duas mulheres completas, e não da dependência mútua. O público se envolve com cada uma separadamente e, justamente por isso, investe ainda mais na união das duas. É uma construção madura, que entende que representatividade verdadeira passa por dar às personagens LGBTQIA+ a mesma densidade dramática concedida a qualquer protagonista.

Lorena e Juquinha não são importantes apenas por serem um casal lésbico; são importantes porque são um grande casal e, antes disso, grandes personagens. Complexas, imperfeitas, apaixonadas, parceiras. A novela compreende que representatividade não é apenas presença, é profundidade. E nesse sentido, "Três Graças" entrega um romance memorável, que amplia horizontes e reafirma o poder transformador da teledramaturgia quando ela escolhe contar histórias com verdade, coragem e humanidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito fofas, elas têm algo que o casal protagonista esqueceu: uma vida além dos conflitos dos outros. Gerluce e Paulinho não têm diálogo de casal no super ou falando da higiene do quintal do Paulinho, assim como Paulinho só parece órfão de família, a trivialidade do diálogo naturalista é boa. Ele já deveria estar morando com as Graças e/ou pelo menos tendo entrada no quarto da Gerluce. Agora as meninas são quase uma ponta solta que vive pelos dramas alheios, ou seja, a Juquinha não existiria sem o roubo da estátua e agora a quarta graça que tem que virar o centro narrativo sem! Não aceito a Lena com a quarta graça tão tempo longe de uma novela que está mais próxima do final do que do começo. Quero meu melodrama agora e menos mármore! (También mais Samira)Acho que, graças a isso, a gente teve a melhor semana da novela com a mayor audiencia.
Gabriel

Anônimo disse...

No pessoal, tenho essa novela por muita enrolação e esse negócio da Joelly e a criança toma uma eternidade, como se o autor tentasse ganhar tempo, mas que narrar uma história à parte de ter a Dira desperdiçada. Mas esse casal aqui se deu bem, né? Desde que Kelmiro não temos algo assim, e olhei memes do casal até em língua estrangeira, as atrizes estão no gozo e achei que após Juma essa menina merecia. Zamenza, você só assiste 'Três Graças'? E é a única novela da qual olhei você falar.