terça-feira, 14 de março de 2017

Enquanto "A Lei do Amor" abusa do machismo, "Rock Story" aborda o tema com competência

Machismo é um mal que acomete a sociedade. E é algo que sempre esteve presente nas novelas antigamente, mesmo que de forma involuntária, através de homens manipuladores que bancavam os 'machos viris', enquanto as mulheres eram sempre as frágeis e indefesas, entre tantos outros exemplos. Mas, ao longo do tempo, tudo veio melhorando, ainda que esteja longe do ideal. As mocinhas (não todas, diga-se) deixaram de ser tontas e os perfis masculinos passaram a apresentar lados mais sensíveis. Toda essa longa introdução tem o objetivo de expor a diferença na abordagem do tema em duas novelas: "Rock Story" e "A Lei do Amor".


Na atual novela das sete, Léo Régis (Rafael Vitti) vazou fotos nuas (o popular 'nude'') de Diana (Alinne Moraes) para se vingar da ex, que o abandonou em pleno altar. A situação não é meramente folhetinesca, pois acontece muito na vida real. Inclusive com famosos. E é uma atitude que expõe o machismo na sua mais cruel forma, além de ser crime. Afinal, trata a mulher como mero objeto e a exposição sempre rende xingamentos de 'vagabunda', 'vadia' e afins, enquanto o homem nunca é hostilizado como merece pelo que fez.

A atitude do cantor foi tratada na história com extrema condenação, inclusive dos seus familiares ---- nem mesmo a mãe Néia (Ana Beatriz Nogueira) e a irmã Yasmin (Marina Moschen) lhe apoiaram ----, iniciando uma fase mais maquiavélica do personagem. Não houve qualquer justificativa a esse seu ato.
Até mesmo a entrevista que o ídolo teen deu, negando veementemente ser o autor do vazamento das fotos, serviu de referência para um caso real, quando o cantor Biel negou que havia assediado uma jornalista, quando todos viram as imagens dele fazendo isso. São situações distintas, mas o machismo que as cerca é igual. E a novela de Maria Helena Nascimento ter começado a abordar a temática na semana do Dia Internacional da Mulher foi bem apropriada.

Vale mencionar ainda outro bom exemplo da trama das sete. O triângulo envolvendo JF (Maicon Rodrigues), Nicolau (Danilo Mesquita) e Luana (Joana Borges). Luana era namorada de JF, mas o rapaz se deslumbrou com a fama e começou a trair a menina constantemente. Até que ela finalmente descobriu as puladas de cerca e se envolveu com Nicolau, para o ódio do ex, que ainda a xingou de interesseira e 'oferecida'. JF é tratado como um cafajeste e não como um coitado. É justamente esse ponto que proporciona uma ligação indireta com "A Lei do Amor", cujo triângulo formado por Tiago (Humberto Carrão), Letícia (Isabella Santoni) e Marina (Alice Wegmann) é dominado pelo machismo.

Claro que são contextos completamente distintos, mas se complementam em virtude da temática explorada de formas tão opostas. No caso do enredo de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, são os autores os machistas em questão. Isso porque eles tratam Tiago como vítima o tempo todo. Mesmo tendo traído Letícia com Isabela várias vezes no início da novela e ter voltado atrair recentemente com a enigmática Marina, o personagem é exposto como um coitadinho confuso de seus sentimentos e manipulado pela maquiavélica ex, que voltou para se vingar. A culpa dele é deixada de lado em todas as circunstâncias. Para culminar, o machismo migrou até para o casal protagonista, pois o até então íntegro Pedro (Reynaldo Gianecchini) traiu Helô (Cláudia Abreu) com a ex, mesmo depois do 'amor de sua vida' ter exposto um grande incômodo pela aproximação dos dois. Ou seja, colocaram a traição como um 'castigo' pelo ciúmes da protagonista. E a mocinha irá perdoar no final, claro, entendendo os 'motivos' do amado. Destruíram um par que era um dos maiores acertos do folhetim.

Novela é entretenimento e não tem a menor obrigação de 'ensinar' nada a ninguém. Mas é deprimente quando personagens canalhas são tratados como coitados, deixando a culpa em cima das mulheres. E nem há como tratar a questão como complexidade ou dubiedade, uma vez que os perfis se mostram bem limitados. Tanto que vale lembrar, por exemplo, que Tião (José Mayer) é o sujeito mais machista e nojento de "A Lei do Amor". Só que não há  problema algum nisso, pois ele é o vilão da história. Então nada mais propício do que apresentar essas características. Agora, colocar o Tiago como uma vítima é forçado demais, assim como destruir a personalidade de Pedro em função de um conflito sem o menor propósito.

Enquanto "Rock Story" aborda situações machistas com competência, "A Lei do Amor" expõe o machismo de uma forma lamentável, tratando os homens como coitados e as mulheres como culpadas. Duas novelas que se mostram opostas também no quesito qualidade, 'coincidentemente'.

15 comentários:

Gabriella disse...

Que texto MARAVILHOSO!

Vanessa disse...

Texto embasado e bem escrito. Analise comparativa perfeita.

Fernanda disse...

Realmente, os autores de A Lei do Amor se afundaram num machismo podre destruindo todas as relações e vitimando esse merda do Tiago o tempo todo. Já em Rock Story a autora tá abordando muito bem a questão com o Léo Regis e nem tinha parado para pensar no triângulo da Luana com JF e Nicolau. Você tem razão.

Pamela Sensato disse...

Bom gostei da sua tese...embora eu não assisto as novelas, a não ser algumas partes quando vou na minha mãe rsrsrs..

Beijinhosss
Blog Resenhas da Pâm

Fernanda Costa disse...


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Debora disse...

Olá Sergio tudo bem?


Adorei o texto!!! Os autores precisam evoluir e para de vitimizar o homem sempre.


Beijinhos;
Débora.
http://derbymotta.blogspot.com.br/

Débora disse...

Parabéns pela sensatez e capacidade de análise. Nada mais a colocar. Você simplesmente disse tudo e mais um pouco.

Malu disse...

Ninguém aguenta mais Thiago! Cada vez que ele diz que ama a Letícia me dá vontade de gritar. A ver gente como Analu, que é tão pra frente e correta, defendendo me dá mais raiva, pq deixa claro que a intenção dos autores é justamente essa, naturalizar esse tipo de comportamento. Pq no começo era "ah mas ele traiu porque a relação esfriou", agora é "ah ele traiu porque a outra provocou" sendo que a explicação correta é que ele sempre traiu porque quis e pronto. É um nojento. Destruírem "Pelô" tbm foi uó. Ela ainda vai acabar pedindo perdão a ele pelo ciúme excessivo, não duvido. E nesse caso é ainda pior pq descaracterizou total os personagens. Já em "Rock Story" nem JF nem Léo são tratados como vítimas. Nem a Neia defendeu o filho e até aqueles fãs malucos dele, inclusive o fã gay que é hilário, ficaram contra. Isso mostra uma preocupação da autora em não justificar esses atos com "ah mas ele é um cara legal, foi só um deslize" ou "ah ele tava magoado" entre outras desculpas geralmente usadas, pois isso não importa, se o cara errou, errou e pronto. Tem que pagar. Agora tem ainda "Malhação" né, que teve lá o caso de assédio do dono da agência com a Bárbara e a Joana, que ficou parecendo que a Bárbara "se ofereceu" e por isso foi assediada e Joana, que é a mocinha, soube se defender. Tipo, não gostei. E elas jogando tinta nele e dando por isso mesmo tbm fez parecer que o assunto não é coisa séria, enfim.

Vera Lúcia disse...


Olá Sérgio,

Não estou assistindo "Rock Story", mas cheguei a acompanhar alguns dos lances mencionados por você.
Concordo com suas colocações quanto aos personagens de Tiago, Pedro e Tião. É mesmo profundamente deplorável quando se justifica atitudes machistas. No que respeita ao Tião, faz parte do perfil doentio do vilão, mas colocar o Pedro como traíra do amor de sua vida e ainda alegando que aquilo não foi uma traição já foi demais.
Parabéns pela abordagem lúcida e coerente!

Ótima semana!

Abraço.

Germana disse...

olá Sérgio!!
Realmente, a diferença de abordagem nas tramas é um dos fatores (embora não o único, obviamente) que define a qualidade (e a audiência) das mesmas, até mesmo pela coerência nas atitudes dos personagens, o que torna, creio eu, as histórias mais possíveis de serem entendidas.
É muito mais fácil assimilar, por exemplo, o JF (que sempre foi um babaca traindo a namorada) sendo babaca e chamando a Luana de "interesseira" só porque o Nicolau pagava parte do aluguel dela do que o Tiago (que tinha acabado de ficar UMA SEMANA traindo a esposa) dizendo que "ama e respeita" a Letícia.
No mais, é isso. Abraços!!

Raquel disse...

Fala Sérgio!

Pior de tudo vai ser agora a procissão de gente vindo se intrometer na vida da Helo falando pra ela perdoar o Pedro, pq ele a ama. Letícia, Laura, e não sei mais quem, como se o problema fosse a intransigência da Helô e não a traição do Pedro. Letícia ainda vai dizer que perdoou o Tiago, mas não volta com ele pq ele está apaixonado pela Marina, enquanto o pai nunca amou Laura, motivo suficiente pros dois voltarem a se entender. É de doer.

Não acompanho essa novela todo dia, mas alguém pode me dizer se outra pessoa fora a Helô brigou com o Pedro por causa disso? Ele reconheceu que erro sozinho? Esse negócio de te trai, mas a culpa tb foi sua é muito nojento. Isso sim me embrulha o estômago. A Santoni até deu uma entrevista no Extra falando sobre a sua personagem e sua mãe pontuando o machismo disso tudo. Ela fez uma pergunta ótima: e se fosse a Helô a trair, as pessoas perdoariam tão fácil?

Acho ótimo que a autora de Rock Story tenha tido a sensibilidade de discutir o machismo de forma acertada em sua novela. Mas na minha opinião, tá cheio de autor de novela machista (mesmo os novos) com tramas difíceis de se acreditar em 2017, capazes de me fazer ranger os dentes de agonia. Em A Lei do Amor a coisa está aparente por causa da traição, que é algo super-fácil de se perceber, mas Davi, Apolo e Arthur são apenas alguns dos mocinhos machistas que me veem à cabeça nos últimos anos. Todos eles tinham várias atitudes machistas e sempre tiveram suas atitudes validadas em virtude do comportamento das suas parceiras. Sempre tinha uma desculpa. E sempre rodeados de outros personagens que achavam lindo tudo o que faziam. Aaaaffff!!!

Lulu on the sky disse...

Amo Rock Story! É bem construída e pode reparar que a maioria dos conflitos são resolvidos no mesmo capítulo ou em poucos capítulos. Não tem enrolação.
big beijos

Gustavo Nogueira disse...

Concordo totalmente Sérgio.A Lei do Amor é uma das piores tramas do horário, onde o homem é tratado como coitadinho e a mulher como equivocada, um grande absurdo.Enquanto que Rocky Story está abordando o tema com competência, tratando o Léo Régis como o grande errado da situação, com os outros personagens o criticando até a mãe dele, o que é totalmente verdade.Acho que isso de machismo vem do Vincent Villari e não da Maria Adelaide Amaral, lembra como em Sangue Bom tinha machismo(só que mais discreto obviamente), onde o Bento exigia que apenas a Amora abrisse mão das coisas por amor e ele não abria mão de nada?Tenha um ótimo dia Sérgio.

Gustavo Nogueira disse...

E mais uma coisa Sérgio, é ridículo como os outros personagens querem que a Helô reate com Pedro, ignorando que ela está com toda a razão e que o Pedro foi errado de traí-la com a justificativa de que os dois ainda se amam, quando há traição a magia do amor é quebrada e não tem mais volta, eu queria que a Helô e o Pedro não ficassem juntos no final.

Ana disse...

Rock Story é ótima mesmo. É a primeira novela das sete que eu acompanho todos os dias.