terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Dois Irmãos" estreia caprichada e com a forte marca de Luiz Fernando Carvalho

A Globo estrear uma minissérie caprichada no início do ano já virou um costume nos últimos anos. "O Canto da Sereia" (2013), "Amores Roubados" (2014), "Felizes para sempre?" (2015) e "Ligações Perigosas" (2016) são a prova disso. Agora, em 2017, a emissora resolveu lançar uma produção adiada por dois anos. "Dois Irmãos" foi gravada no final de 2014/início de 2015 e sua estreia era prevista para o ano seguinte, mas acabou adiada duas vezes. Porém, a espera finalmente acabou. A obra estreou nesta segunda-feira (09/01), logo após "A Lei do Amor", com um capítulo longo (quase uma hora e vinte de duração).


Livremente inspirada no romance homônimo de Milton Hatoum, a trama é escrita por Maria Camargo e dirigida por Luiz Fernando Carvalho. Por sinal, a direção de Luiz já pôde ser notada logo nas primeiras sequências, valorizando as expressões faciais e corporais dos atores, a luz ambiente e os cenários caprichados. O toque de poesia é constante, o que virou uma marca nas produções comandadas por ele ao longo dos anos. Há também uma teatralização em vários momentos, evidenciando mais uma característica do trabalho do diretor, que costuma explorar o máximo do seu elenco.

A história é ambientada em Manaus, entre 1920 e 1980, e conta a trajetória de uma família de libaneses através de Nael (Theo Kasper/Ryan Soares/Irandhir Santos), filho da índia Domingas (Sandra Paramim/Zahy Guajajara/Silvia Nobre), que narra a trama. O foco principal é a relação conflituosa dos gêmeos Omar e Yaqub (Enrico Rocha/Matheus Abreu/Cauã Reymond), que crescem vivendo uma rivalidade cada dia pior.
O primeiro capítulo foi voltado para o início da relação de Zana (Gabriella Mustafá/Juliana Paes/Eliane Giardini) e Halim (Bruno Anacleto/Antônio Calloni/Antônio Fagundes), os pais dos protagonistas, e encerrou exibindo o estopim da guerra entre irmãos.

A trama na estreia teve um ritmo lento e mostrou vagarosamente toda a construção do amor de Zana e Halim, incluindo o primeiro encontro e a paciência que o mascate teve até conquistá-la. O rapaz era apenas um dos estrangeiros (entre libaneses, sírios, judeus e marroquinos) que frequentavam o restaurante do pai da moça, Galib (Mounir Maasri), até ter a coragem de expor seus sentimentos diante de todos. Os dois acabaram se casando e ela não escondia o desejo de ter pelo menos três filhos, principalmente depois que o pai faleceu. Ele se mostrava relutante, temendo prejudicar a relação do casal, que tinha uma vida sexual bem ativa.

E a preocupação de Halim acabou tendo sentido, pois assim que a esposa deu à luz gêmeos na primeira gravidez tudo mudou. Um dos meninos (o mais novo em minutos) quase não vingou e desenvolveu problemas respiratórios, provocando uma preocupação exacerbada de Zana, que desde então nunca fez questão de esconder a diferença no tratamento dos irmãos. Enquanto um (Omar) era mimado ao extremo, o outro (Yaqub) ficava de lado. E junto com o irmão 'esquecido' estava o marido, também ficando em segundo plano. Posteriormente, veio outra 'vítima' dessa obsessão doentia da mãe por Omar: a filha caçula, Rânia (Letícia Almeida/Bruna Caram), mais uma integrante da família que era 'esquecida' por Zana, condenada a viver à sombra dos irmãos.

A última cena do primeiro capítulo foi emblemática para expor o ódio que passou a dominar a relação dos protagonistas. Tomado pela raiva ao ver Yaqub beijando a maliciosa Lívia (Monique Bourscheid/Bárbara Evans), Omar quebra uma garrada no rosto do irmão, provocando uma cicatriz. A tragédia ocorreu durante uma sessão de cinematógrafo na casa de Estelita (Maria Fernanda Cândido/Carmem Verônica) e Abelardo (Emilio Orciollo Neto/Ary Fontoura). Os dois desde então param de se falar e viram inimigos declarados. A sequência foi ótima e a direção de Luiz mais uma vez fez diferença, sendo necessário destacar as tomadas de câmera mesclando momentos de gargalhadas dos demais personagens com os de tensão de Omar e provocação de Lívia.

A obsessão de Zana ainda acaba piorando tudo, pois Halim envia os filhos para o Líbano (em meio à Segunda Guerra Mundial), com o intuito deles fazerem as pazes, mas a mãe não consegue soltar a mão de Omar na hora do embarque, enquanto se desprende de Yaqub. O enredo é um dramalhão clássico e o ritmo bem mais lento da minissérie no primeiro capítulo causou um certo incômodo por alguns momentos. O tempo de quase uma hora e vinte foi exagerado quando comparado aos acontecimentos exibidos. A estreia explorou bastante os cenários caprichados, figurinos primorosos e a entrega do elenco, incluindo vários atores desconhecidos do grande público. Destaque especial para Bruno Anacleto e Gabriella Mustafá, gratas revelações.

A sensação de lentidão acaba nos demais capítulos, que ganham mais dinamismo e ritmo à medida que vai expondo a tensão constante que cerca a família quando os irmãos se reencontram após anos separados. A atuação de Juliana Paes merece uma menção à parte. A atriz está irretocável na pele da egoísta e obcecada Zana. Todas as suas cenas têm um grau de dramaticidade extremo e ela corresponde à altura. Já Antônio Calloni é mais um grande nome que faz jus ao passional Halim, protagonizando grandes cenas e fortes embates com a esposa e os filhos. O novato Matheus Abreu ainda está cru, mas mostra potencial e a sua escalação foi um acerto em virtude da imensa semelhança física com Cauã Reymond. Zahy Guajajara também convence na pele da introspectiva índia Domingas.

Porém, apesar das inúmeras qualidades observadas, é impossível não mencionar a semelhança do filtro amarelado e dos figurinos com "Velho Chico", também dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Não chega a ser um demérito, mas sim um indício de que o diretor precisa se reciclar. A sua forte marca, nos últimos anos, tem ficado sobreposta ao trabalho dos autores. Tanto que é difícil analisar o desempenho de Maria Camargo, embora esteja adaptando bem o livro, pois só se enxerga o trabalho dele na minissérie. É um trabalho admirável, diga-se, sendo necessário aplaudir o show de imagens (fotografia belíssima) e a entrega do elenco. Entretanto, é uma situação que provoca reflexão em cima da similaridade com outra produção cujo enredo nada tem de parecido ---- a minissérie, por sinal, foi gravada bem antes da novela das nove de Benedito Ruy Barbosa e Bruno Luperi.

"Dois Irmãos" esbanja capricho e a obra de Milton Hatoum teve um promissor início na televisão. A Globo chegou a disponibilizar três episódios na íntegra no aplicativo Globo Play e os três primeiros capítulos estão de encher os olhos. O primeiro peca no ritmo, mas os outros dois fazem valer a pena cada minuto. Que os outros sete sejam tão bons quanto, fazendo jus ao premiado livro do escritor, responsável pela criação do ódio entre gêmeos idênticos tão diferentes.

30 comentários:

Anônimo disse...

Me senti assistindo Velho Chico. Esse diretor precisa de uma reciclagem urgente!

Livian disse...

Você é muito perspicaz em suas críticas. Meus parabéns!

Sabrina disse...

Achei muito modorrento. Cochilei várias vezes. Vou confiar em você e ver se melhora mesmo.

Anônimo disse...

Tb já vi no Globo Play e melhora mesmo, mas também não fica maravilhoso. Mais ou menos.

Pamela Sensato disse...

Gente tô atrasada na programação da globo kkkkkkkk não assisti não rsrs

Beijinhos,
Blog Resenhas da Pam

Heródoto disse...

Nunca tinha parado pra pensar nisso, mas vc me fez refletir. Esse é o único diretor que sempre se sobrepõe ao autor. É sempre o trabalho dele que se sobressai, o do autor nunca. E é verdade, eu nem consegui observar o trabalho dessa autora nova. Nem sei se é boa ou não porque só vejo o LFC nas cenas.

Lulu on the sky disse...

Pelas chamadas não me despertou o interesse.
big beijos

Anônimo disse...

A minissérie teve uma boa estreia apesar de lenta, os personagens parecem ter bastante nuances e ser bem complexos(isso já é um ponto a favor), a trama em si é muito boa, com toda essa historia de conflitos familiares, disputas entre irmãos, é uma trama que rende bastante mesmo, a direção como era de se esperar é algo muito autoral mesmo, LFC é um ótimo diretor e ele sempre dá esse tom lirico, lúdico a obra que as vezes até parece uma poesia de tão bonita, e também muito pertinente seu comentário que o LFC faz os atores darem seu máximo, é verdade isso, o elenco com LFC sempre se entrega de uma maneira surreal pq o diretor exige isso, mas é um ponto positivo, o único defeito da direção dele é que ele exagera, exagera tanto ao ponto de não reconhecemos o trabalho de criação, pq mts vezes o diretor é mt autoral, mas ele passa dos limites.

Layara B. Santos disse...

O áudio é péssimo, quase não dá pra entender a narração.

ANA disse...

Embora o ache genial, não consigo gostar do Luiz Fernando Carvalho por causa das escrotices dele, já leu a última do Léo Dias?
Essa série é muito bem feita, mas meu pai não entendeu nada. Acredita que ele odiou ver que a história não seguia uma cronologia certa, era uma narrativa não-linear e preferiu ir dormir? Esse é o povo brasileiro...
Juliana Paes está estupenda nessa série, Antônio Calloni não precisa nem falar, mas não consigo ver muita graça no garoto que faz Yakub e Omar adolescentes. É parecido com Cauã, mas não tem o mesmo charme e o mesmo sorriso cativante dele. Vou esperar o Cauã aparecer pra ver mais Dois Irmãos.

Anônimo disse...

Essa minissérie está excelente até aqui. Juliana Paes e Antônio Calloni estão incríveis como todo o elenco promete ser. Quanto a direção dessa minissérie ser igual à velho Chico discordo, o tom de velho chico era bem mais exagerado, tanto nos figurinos como no filtro. Tem algo parecido sim, mas tem outros diretores que se repetem também, mas como são mais "normais" ninguém diz nada. Li em algum lugar que o LFC usou dois irmãos para testar os figurinos,filtro que usaria em velho chico, talvez seja por isso a semelhança.

Adriana Helena disse...

Olá Sérgio, bom dia amigo!!

Estou adorando Dois irmãos e a narração do Irandhir Satos me encanta...
Que voz encantadora que nos coloca em um plano mágico de pura poesia!!
Aproveito para desejar mais do que nunca, querido amigo, um feliz 2017!
Você é parte importante de minha vida!! Agradeço demais sua companhia!!

Tenha uma semana maravilhosa! :)))

Bia Hain disse...

Olá, Sérgio, como vai? Achei uma ótima sacada da Globo disponibilizar três capítulos no Gloogle Play, assim a pessoa não desiste no primeiro capítulo, caso a primeira impressão não seja boa! Abraços, ótimo 2017!

Anônimo disse...

A minissérie tem uma qualidade excelente, mas é inegável que Luiz Fernando consegue deixar ótima e ruim a minissérie.

Só que eu me pergunto, pra que esse filtro amarelo horroroso?
Só existe Cauã Reymond pra fazer série na Globo? Se ele ao menos fosse bom...

Parabéns pelo texto!

Paulo Faria disse...

Luiz Fernando Carvalho é um dos grandes directores brasileiros, um génio incompreendido pelas massas. Basta citar alguns trabalhos memoráveis do Tim Burton brasileiro, como Os Maias, Hoje é Dia de Maria ou Capitu.

Mais uma grande obra de LFC, na minha opinião, por se tratar de uma adaptação literária, o tom teatral e poético conjuga na perfeição com a minissérie, ao contrário da novela Velho Chico. Os cenários, o guarda-roupa e fotografia enriquecem ainda mais esta obra da Tv Globo. Saliento as grandes interpretações de Juliana Paes e Antônio Calloni.

Parabéns pela review, como sempre excelente, sou um leitor de Portugal e sigo sempre o seu magnífico trabalho.

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Sérgio Santos disse...

Realmente, se parecem bastante, anonimo...

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Livian!

Sérgio Santos disse...

O primeiro capítulo é chatíssimo mesmo, Sabrina.

Sérgio Santos disse...

Entendo, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Ok, Pamela. bjs

Sérgio Santos disse...

Pois é, Heródoto...

Sérgio Santos disse...

Ok, Lulu.

Sérgio Santos disse...

É um fato, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Mta gente reclama disso, Layara.

Sérgio Santos disse...

O LFC é um gênio, Ana, mas precisa se reciclar de vez em quando. Já está ficando repetitivo mesmo e eu li essa nota sobre ele sim. Juliana e Calloni estiveram magistrais.

Sérgio Santos disse...

Anônimo, é fato que ele usou em Velho Chico tudo dessa minissérie e o exagero está entre eles. O filtro amarelado, os figurinos, até mesmo a briga de Halim e Zana pelados na cama lembrou a de Iolanda e Afrânio na primeira fase de Velho Chico. É td mt parecido.

Sérgio Santos disse...

Vc tb é parte importante da minha, Adriana. Obrigado pelo seu carinho sempre e que continuemos em 2017. A narração do Irandhir é fantástica mesmo. Bjsss

Sérgio Santos disse...

Isso é, Bia. bjão e ótimo 2017!

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, anonimo!

Sérgio Santos disse...

Paulo, é um honra ter um leitor em Portugal e fico feliz demais com seu elogio. Venha sempre. Abração!!!