sexta-feira, 14 de agosto de 2026

"Coração Acelerado" provou que uma pesquisa de opinião não é suficiente para criar uma boa novela

 A novela Coração Acelerado, escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, chegou ao fim nesta sexta-feira (14/08) deixando a sensação de uma oportunidade desperdiçada. Desenvolvida a partir da pesquisa de opinião e comportamento “Brasil no Espelho”, realizada pela Quaest a pedido da emissora para mapear o perfil do público brasileiro, a trama foi pensada para reunir personagens jovens, o universo da música sertaneja e um forte tom de brasilidade. A estratégia era criar uma história capaz de conversar diretamente com o público. O problema é que nenhuma pesquisa consegue substituir o principal elemento de uma novela: uma boa história.


O fracasso de audiência, repercussão e crítica mostrou justamente isso. As autoras não conseguiram construir uma estrutura narrativa minimamente sólida, capaz de prender o interesse do público e desenvolver conflitos consistentes ao longo dos meses. Pelo contrário: o principal fiapo de enredo, o amor de infância entre João Raul (Filipe Bragança) e Agrado (Isadora Cruz), foi praticamente solucionado na primeira semana, com o reencontro dos mocinhos e a imediata formação do casal, sem qualquer construção elaborada.

Foi impossível torcer por eles diante de uma relação de infância tão frágil, que parecia ter se resumido a uma conversa de cinco minutos. Agrado ainda escondia sua verdadeira identidade de João Raul, mas isso pouco importava, já que os dois ficaram juntos logo de cara.

A separação posterior aconteceu por causa de uma armação bastante banal de Naiane (Isabelle Drummond), a vilãzinha que passou a novela inteira em função de João Raul. A patricinha tinha como principal objetivo de vida tornar-se uma influenciadora maior — por causa de homem. Sua trajetória nunca ganhou uma motivação realmente interessante além dessa obsessão.


O outro eixo central da história também foi desperdiçado. Já no primeiro capítulo, Zilá (Leandra Leal) jogou Jean Carlos (Ricardo Pereira) de um penhasco para impedir que ele revelasse a armação que havia separado Janete (Letícia Spiller) e Alaorzinho (Daniel de Oliveira). A cena, inclusive, teve uma direção da equipe de Carlos Araújo que deixou a desejar. Janete passou a novela inteira acreditando que havia sido responsável pela queda e pela suposta morte do ex. Só que esse conflito andou em círculos durante praticamente toda a trama, sem desdobramentos relevantes, até ser esquecido enquanto a novela passou a se apoiar em idas e vindas amorosas de vários casais que também não apresentavam química.


Somente no penúltimo capítulo as autoras decidiram solucionar a questão, da forma mais rasa possível. Jean surgiu vivo e revelou-se responsável pelas ameaças que Zilá sofria na reta final. Ele ameaçava contar sobre o golpe aplicado por ela na empresa de Alaor (Marcos Caruso) e sobre a armação contra a irmã. Para piorar, Janete descobriu, por meio de um chá, acontecimentos dos quais sequer havia participado e ficou chocada ao saber que Jean estava tão dopado quanto ela no dia do falso flagrante e que Agrado, na verdade, era filha de Alaorzinho.


A revelação, construída exclusivamente por conveniência de roteiro, não teve tempo algum de maturação. Logo depois, Agrado descobriu a verdade e, em seguida, Naiane também. Tudo aconteceu no último capítulo, depois que Zilá se ofereceu como refém de Jean, salvou a vida de Janete e ainda sofreu um capotamento de carro sem sequer ganhar um arranhão no rosto. Tudo foi resolvido da maneira mais simples possível, sem qualquer cuidado com a construção dramática ou com a reação do público.


As autoras tiveram tempo de sobra para explorar o parentesco entre Agrado e Naiane, que poderia ter rendido conflitos e dramas interessantes. Preferiram, porém, manter as duas personagens praticamente sempre em função de João Raul.

E o que dizer da revelação de que Ronei (Thomás Aquino) era o pai biológico do protagonista? Nada ali fez o menor sentido. A informação foi jogada na última semana da novela apenas para produzir um falso plot twist. O impacto veio pelo absurdo do contexto, e não pela força da virada, que simplesmente não havia sido construída.


Outro problema recorrente foi a muleta dos chás de ervas preparados a partir do caderno de Nora (Virginia Rosa). Os poucos acontecimentos da novela passaram a ser sustentados por essa bobagem, que rapidamente deixou de ter graça. Izabel de Oliveira havia criado o divertido chá de ferragoela em Cheias de Charme, mas ali o recurso era pontual e, justamente por isso, funcionava. Em Coração Acelerado, os chás apareceram o tempo todo e acabaram tirando a paciência do telespectador.


Um dos maiores desperdícios foi a trajetória de Eduarda (Gabz). A personagem tinha a única linha narrativa realmente atrativa da novela. Abandonada pela mãe, sozinha, vivendo de trambiques e sonhando em ser cantora, Duda conheceu Agrado e formou com ela uma dupla sertaneja de sucesso. Depois, descobriu que tinha uma irmã e iniciou um bonito processo de aproximação com ela.


Tudo isso naufragou quando as autoras decidiram colocá-la para brigar com Agrado por causa de homem. Leandro Brasil (David Jr.) chegou à cidade para se vingar da família Amaral, não se vingou de ninguém e ainda era perdidamente apaixonado por Agrado. Depois, rompeu com ela diante do amor que a mocinha sentia por João e rapidamente se declarou para Duda, justamente porque sabia que ela nutria uma paixão platônica por ele.

Não teve como engolir. Até porque Duda tinha uma relação aparentemente promissora com Luan (Lucas Wickhaus), personagem que era braço direito de João Raul e simplesmente foi desaparecendo da novela. O pior foi a separação definitiva entre Agrado e Eduarda por causa de outro homem, novamente João Raul, que terminou a história com a carreira em ruínas por causa da vingança de Ronei, que não aceitou a quebra de contrato.


Também faltou uma vilania de verdade. Zilá e Naiane nunca foram vilãs propriamente ditas e passaram a novela inteira em função de homens: João Raul e Alaorzinho. Aliás, esse foi outro grande problema da obra. Os perfis femininos estavam muito distantes da promessa de personagens empoderadas apresentada no início. Praticamente todas tiveram suas histórias atreladas a romances, paixões ou obsessões masculinas.

A própria trajetória de João Raul foi deficitária. O protagonista começou a novela insatisfeito com a carreira, uma premissa que poderia ter sido muito bem desenvolvida. As autoras, entretanto, preferiram concentrar-se em suas idas e vindas amorosas, a ponto de transformá-lo em um verdadeiro babaca com a mocinha e com a vilã. Tornou-se quase impossível torcer por ele.


As músicas criadas para a novela eram muito boas e, em vários casos, melhores do que muitas canções sertanejas lançadas atualmente. O problema foi o excesso. As músicas tocaram tanto durante os capítulos que acabaram cansando. A cantoria constante parecia, muitas vezes, uma forma de encobrir a falta de história.

Também foi pouco convincente o enriquecimento de Agrado e Eduarda. As duas fizeram enorme sucesso, ficaram ricas, mas o público praticamente não sentiu nenhuma mudança em suas vidas. As roupas continuaram semelhantes e elas permaneceram no mesmo apartamento de sala e cozinha. Faltou materializar na tela a transformação financeira que o roteiro dizia ter acontecido.


Outro ponto negativo foi a abordagem dos romances homoafetivos. Esteban (Diego Martins) passou a novela inteira se descrevendo como bissexual, mas isso nunca foi realmente trabalhado. Suas relações praticamente não apareciam e seu único arco mais relevante aconteceu quando precisou se passar por um falso estilista para trabalhar com Zilá e Janete ao mesmo tempo.


Na reta final, ele se envolveu com Laurinha (Kamilla Amorim), outra personagem que teve um arco de muito mau gosto, no mínimo. Laurinha engravidou de Malvino (Guito) enquanto os dois estavam dopados por ervas alucinógenas. A situação foi tratada de maneira romântica e, posteriormente, ela se declarou para o melhor amigo Esteban para que os dois criassem juntos o filho dela. Foi uma condução bastante questionável para uma história que poderia ter sido muito mais cuidadosa.


E o que dizer de Eva (Nathalia Cruz) e Vânia (Nina Baiocchi)? As duas flertavam simultaneamente com Bará (Evaldo Macarrão), descobriram a galinhagem dele e acabaram percebendo que estavam apaixonadas uma pela outra. Deram um selinho rápido e praticamente desapareceram. Isso depois de mal terem aparecido anteriormente. Um desperdício de talento das duas atrizes.

Se houve um grande acerto em Coração Acelerado, foi o elenco, repleto de bons atores, alguns dos quais finalmente tiveram oportunidade de se destacar.

Ramille brilhou como a picareta Cinara. A atriz havia sido praticamente uma figurante no trágico remake de Vale Tudo, mas agora teve mais sorte com um papel que valorizou seu talento, ainda que tenha emendado outra novela fraca.


Luellen de Castro também marcou presença como Talita Mendes, a fofoqueira influencer da cidade. Antônio Calloni, como sempre, foi um dos destaques e não decepcionou na pele de Valmir, pai adotivo de João Raul, que precisou lidar com o vício em jogo e com os próprios erros ao longo da história. O ator conseguiu emocionar e também divertir.


Fernanda Pimenta foi uma grata revelação como Irene e depois cresceu na trama ao interpretar Amelie, uma prima chef de cozinha, arrogante e praticamente gêmea de Irene.


Cida Mendes e Luciana Souza formaram uma dupla deliciosa como as empregadas Leocádia e Rosalva, que viviam brigando e se metendo na vida alheia. Elisa Lucinda brilhou como Zuzu, construiu uma bonita parceria com Letícia Spiller e ainda formou um par muito simpático com Marcos Caruso.


Gabriel Godoy mal aparecia na trama como o locutor Palhares, mas ganhou cenas melhores quando formou casal com Ramille, repetindo uma parceria que já havia feito sucesso em Família é Tudo. Já Luiz Henrique Nogueira não teve a mesma sorte e foi praticamente um figurante de luxo durante toda a novela como Zeca Mequetrefe.


A maior surpresa, porém, foi Ana Castela interpretando a si mesma. A repercussão foi tamanha que ela chegou a protagonizar uma novelinha vertical ao lado de André Luiz Frambach, que teve bons momentos como Gael, personagem que viveu um breve envolvimento com a cantora antes de ficar com Naiane. Aliás, a única vez em que Coração Acelerado conseguiu uma mínima repercussão nas redes sociais foi justamente quando Ana Castela aparecia. Ela se saiu bem em cena.


Leandra Leal, Letícia Spiller, Daniel de Oliveira e Isabelle Drummond também foram ótimos em cena e faziam falta nas novelas. Pena que tenham retornado justamente em uma obra tão fraca. Outros nomes já citados também merecem elogios, como Isadora Cruz, Gabz e o próprio Filipe Bragança, que mostrou estar pronto para protagonizar uma trama.


As autoras, infelizmente, deixaram muito a desejar em praticamente todo o enredo. Também vale uma observação sobre a total ausência de identidade de Maria Helena Nascimento na novela. O que se viu foram, sobretudo, os vícios narrativos de Izabel de Oliveira, já presentes em Cheias de Charme, Verão 90 e Geração Brasil. A Maria Helena de Rock Story simplesmente não apareceu ao longo da narrativa.


O último capítulo fez jus ao que a novela foi em seu conjunto: tudo jogado sem a menor construção. Naiane descobriu que Agrado era sua irmã, não teve qualquer cena emocionante e logo depois a vilã confessou todas as suas armações pra mocinha e foi atrás de Gael. Simples assim. Uma redenção súbita. Já Eduarda se casou com Leandro e o 'juiz' da cerimônia foi Luan (Lucas Wickhaus), o rapaz que era apaixonado por Duda e levou um pé dela. Depois Naiane se casou com Gael na fazenda e só eles estavam presentes. Ana Castela ficou com um primo de Gael, também interpretado por André Luiz Frambach. João Raul foi atrás de Agrado, os dois cantaram juntos durante o casamento de Duda e depois foram felizes para sempre. O cantor recuperou sua carreira? Ninguém soube. 


No fim, Coração Acelerado foi finalizada com 19,5 pontos de média, quase dois pontos abaixo de Dona de Mim, que fechou com 21,3 pontos e também passou longe de ser um grande sucesso. Os números baixos, entretanto, poderiam ter sido amenizados por uma boa repercussão ou por críticas positivas. Não foi o que aconteceu. 

A novela praticamente não foi falada, passou em brancas nuvens e recebeu, ao longo de sua exibição, críticas que apontaram falhas bastante semelhantes às que se percebem agora, no balanço final. O problema nunca foi a falta de pesquisa, de bons atores, de músicas ou de uma proposta comercial clara. Faltou justamente aquilo que nenhuma pesquisa consegue garantir: uma história bem construída, personagens com conflitos interessantes e uma narrativa capaz de fazer o público se importar com o que estava acontecendo.


Coração Acelerado tinha todos os ingredientes para ser uma novela popular, musical e divertida. O que não teve foi uma trama capaz de transformar essas possibilidades em uma história envolvente. Que fique de lição para a Globo. Não adianta querer agradar uma suposta maioria da população sem um folhetim bem estruturado. Não houve aceleração capaz de salvar esse coração. A obra foi encomendada para conversar com o Brasil, mas terminou falando sozinha.

2 comentários:

Anônimo disse...

Antes de Coração Acelerado, existiu As Filhas da Mãe, Bang Bang, Tempos Modernos, Guerra dos Sexos (Remake), Geração Brasil e Fuzuê sendo as piores novelas no Horário das Sete, essa novela evidenciou que Maria Helena Nascimento, tem que ter traquejo para o Horário Nobre, ouvi essa vibração toda dela quase terminando ido na faixa por ter sido cria do Gilberto Braga, sendo que ela colaborou as bombas do Antônio Calmon.

J disse...

A parceria entre Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento não deu certo. Parecia que cada uma tinha uma visão diferente sobre a trama, principalmente no tom: era uma comédia? Um drama? Pois conseguiu ser ineficiente nas duas coisas. O próprio João Raul foi um protagonista esquisito, tinha horas que era um "boy lixo" e outras em que era o último dos românticos. Parecia que as autoras não conversavam entre si.
E foi lamentável ver o rumo que as autoras deram pra amizade entre Agrado e Eduarda. As próprias atrizes declararam publicamente que não gostariam que os conflitos entre elas envolvessem disputa por homens, mas não foram ouvidas. Que pena, porque a fase em que elas formaram uma dupla sertaneja e alcançaram o estrelato foi, digamos, a melhor da novela, e foi inclusive nesse período que os índices de audiência cresceram(ainda que não fosse suficiente pra tornar a trama um sucesso). Mas até isso deram um jeito de estragar fazendo ambas se apaixonarem pelo Leandro, e fazendo elas desfazerem a dupla na reta final pra ajudar o insuportável João Raul. Por sinal, João Raul e Agrado formaram um dos piores e mais forçados casais que eu já vi. Não só ficaram juntos com menos de 2 semanas de novela, ainda se separaram no segundo mês e ficaram boa parte da história separados. Como se não bastasse, se separaram de novo faltando uma semana pra novela acabar e só reataram nos últimos minutos do capítulo final. Não há torcida que aguente. Sem falar que ele foi escrito e misógino com ela muitas vezes, mas sempre foi rapidamente aceito de volta. Não houve UM momento em que tivesse que implorar ou batalhar por perdão.
Isso que Coração Acelerado era uma novela sobre empoderamento feminino no meio sertanejo. Imagina se não fosse, hein!