O protagonista de Coração Acelerado ficou perplexo ao descobrir que Ronei (Thomás Aquino) é seu pai biológico. Mas não só ele. O público também. E isso não é um elogio. A revelação, apresentada na última semana da novela como um grande plot twist, acabou soando risível diante da quantidade de absurdos que envolve a história, escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento.
O problema não está em Ronei ser o pai de João Raul (Filipe Bragança). Novelas podem, naturalmente, trabalhar com segredos de família, filhos abandonados e revelações inesperadas. O problema está em tudo o que veio antes e na forma como o roteiro tentou encaixar essa informação na história.
Segundo o flashback exibido pela novela, Ronei abandonou João Raul depois da morte da mãe do garoto, quando se envolveu com outra mulher (em tempo recorde) que era casada com um bandido. Ele passou a ser perseguido por capangas e precisou fugir.
A explicação é simples demais para justificar uma revelação que deveria ter um peso enorme. Ronei teria decidido ficar longe do próprio filho por segurança, mas, ao longo dos anos, praticamente não demonstrou qualquer afeto paterno por ele.Pelo contrário. Ronei ajudou a lançar João Raul como cantor ainda criança, o que, em tese, seria uma maneira de permanecer próximo do filho. Só que a relação entre os dois nunca teve qualquer sinal convincente de vínculo familiar. Ronei sempre se comportou como empresário, e um empresário bastante cruel. Controlou a carreira de João Raul, manteve o cantor preso a um contrato e, depois que ele decidiu seguir outro caminho, fez de tudo para prejudicá-lo profissionalmente.
É justamente aí que a revelação começa a ficar ainda mais estranha.
Como acreditar que Ronei passou anos acompanhando a carreira do próprio filho e, ao mesmo tempo, nunca deixou transparecer qualquer sentimento por ele? Como aceitar que o homem que supostamente queria protegê-lo tenha sido responsável por boa parte dos problemas que João Raul enfrentou profissionalmente?
A novela até tenta justificar a aproximação tardia de Ronei. Depois de contribuir diretamente para colocar João Raul no fundo do poço, o produtor musical decide procurá-lo para ajudá-lo a reconstruir a carreira porque ficou com pena de vê-lo naquela situação. É uma conveniência atrás da outra. O personagem passa de algoz profissional a uma espécie de pai preocupado justamente quando a trama precisa dessa mudança.
E tudo isso acontece quando a novela já está chegando ao fim.
A cena em que Ronei revela a verdade também não ajuda. Com todo respeito ao talento de Filipe Bragança e Thomás Aquino, a sequência soa como uma paródia involuntária de novela. Não por culpa dos atores, mas pelo conjunto da obra, principalmente pelo texto. Uma revelação dessa importância precisava ter sido construída ao longo da trama para que o público entendesse a dimensão daquele momento.
Não foi o que aconteceu.
Em vez de olhar para trás e perceber que determinadas situações finalmente faziam sentido, o telespectador olha para trás e percebe justamente o contrário. A informação não acrescenta novas camadas ao comportamento de Ronei. Ela cria contradições com praticamente tudo o que foi apresentado sobre o personagem.
Esse é o problema de um plot twist mal construído: ele pode até surpreender, mas não necessariamente funciona. Surpresa, por si só, não basta. É preciso que exista uma preparação mínima para que, depois da revelação, o público consiga pensar: "Agora tudo faz sentido".
No caso de Ronei e João Raul, a sensação é outra: "De onde tiraram isso?".
E havia material para fazer algo muito melhor. A relação de João Raul com Walmir, o homem que o criou, poderia ter sido explorada como um conflito entre paternidade biológica e paternidade afetiva. Seria muito mais interessante discutir o que significa descobrir que seu pai biológico é justamente um homem que passou boa parte da vida tratando você como um produto.
Mas Coração Acelerado preferiu guardar a informação para a reta final e apresentá-la como uma grande bomba.
Só que uma bomba precisa ter sido preparada antes de explodir.
A revelação de que Ronei é pai de João Raul não parece resultado de uma história que vinha sendo construída. Parece uma decisão de roteiro tomada para provocar impacto nos últimos capítulos. E quando o público percebe isso, o suspense perde a força e sobra apenas a conveniência.
No fim, Ronei ser o pai de João Raul não chega a ser um grande choque. É apenas mais um entre os inúmeros equívocos de uma novela que chega ao fim sem conseguir fazer essa reviravolta parecer minimamente convincente.
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