sábado, 14 de março de 2026

Último capítulo de "Êta Mundo Melhor!" desrespeita elenco e público

 É normal que, em qualquer novela, algumas cenas gravadas acabem ficando de fora da edição final. A televisão trabalha com limites rígidos de tempo e, muitas vezes, pequenos ajustes são inevitáveis para que o capítulo caiba na duração prevista. No entanto, o que aconteceu no último capítulo de "Êta Mundo Melhor!" ultrapassa em muito esse tipo de ajuste comum. O episódio final foi marcado por cortes tão significativos que acabaram comprometendo a narrativa e demonstrando um profundo desrespeito tanto com o elenco quanto com o público.


Vários desfechos simplesmente desapareceram da tela. Personagens que acompanharam toda a trajetória da história tiveram seus destinos resumidos de forma abrupta ou sequer mostrados. Um dos casos envolve Olga (Maria Carol) e Carmem (Cristiane Amorim). As duas personagens foram parar na cadeia, mas as cenas gravadas pelas atrizes dentro da cela --- que dariam contexto e encerramento à punição --- não foram exibidas. O público só soube que elas existiam porque as próprias intérpretes publicaram fotos dos bastidores nas redes sociais. Ou seja, o material foi gravado, mas simplesmente não foi ao ar.

O mesmo aconteceu com o casamento de Zenaide (Evelyn Castro) e do detetive Sabiá (Fábio de Luca), outra sequência que acabou cortada.

Também foram descartadas cenas em que o espírito de Zulma (Heloísa Perissé) aparecia para outros personagens, momentos que poderiam acrescentar emoção e continuidade a um recurso narrativo que foi utilizado na cena mais bonita da foto das crianças já adultas.

Ainda mais grave foi o corte do desfecho de Quitéria (Kenya Costta). A personagem, que havia trabalhado durante anos como empregada doméstica --- primeiro de Anastácia (Eliane Giardini) em "Êta Mundo Bom!" e depois de Candinho (Sérgio Guizé) em "Êta Mundo Melhor!" --- finalmente teria uma conclusão simbólica: tornar-se dona de uma confeitaria. Era um fechamento que representava crescimento e conquista pessoal. No entanto, a cena também não foi exibida. A própria atriz compartilhou uma foto de bastidores e lamentou que o momento não tenha ido ao ar. Nesse caso, a situação se torna ainda mais problemática: trata-se de uma talentosa atriz negra interpretando um papel historicamente estereotipado na teledramaturgia brasileira e que, justamente quando teria um final de superação, acabou ficando sem desfecho na tela.

Outro corte difícil de entender foi o das cenas de Estela (Larissa Manoela) e Anabela (Isabelly Carvalho) na Amazônia. A personagem passou dez anos ali com a filha em uma viagem que, no fim das contas, se mostrou praticamente gratuita dentro da narrativa. Durante todo esse período, Túlio (Cadu Libonatti) permaneceu sozinho e sofrendo, e o reencontro ou a resolução da história foi mostrada rapidamente. Mais uma vez, foi a própria Larissa quem revelou nas redes sociais imagens de bastidores dessas gravações que não chegaram ao público.

Também chamou atenção o corte brusco no momento em que Candinho algema Sandra (Flávia Alessandra) e a leva para a delegacia. A cena simplesmente “salta” de um ponto para outro, como se algo importante tivesse sido arrancado da narrativa. Ninguém chega a ver claramente o momento da prisão acontecer. A edição final ficou tão truncada que o resultado transmitiu uma sensação constante de pressa e desorganização.

O mais curioso é que faltou justamente aquilo que a novela mais teve ao longo de sua exibição: tempo. "Êta Mundo Melhor!" contou com 220 capítulos, e durante muitos meses a trama avançou muito pouco, com acontecimentos se arrastando e conflitos sendo prolongados. Andou em círculos ao longo dos meses. Havia espaço de sobra para que os desfechos fossem distribuídos ao longo dos capítulos finais, permitindo que cada personagem tivesse um encerramento digno.

É claro que a emissora tem responsabilidade pelos inúmeros cortes que prejudicaram o último capítulo. Mas o autor Mauro Wilson também não pode ser poupado de críticas. Ao concentrar praticamente todas as resoluções no episódio final, ele criou uma situação em que qualquer edição mais agressiva inevitavelmente comprometeria a história.

No fim, o que deveria ser um capítulo de celebração acabou marcado por lacunas, cortes inexplicáveis e a sensação de que muitas histórias ficaram incompletas. Quem perde com isso são os atores, que viram cenas importantes de seu trabalho serem descartadas, e o público, que acompanhou a novela durante meses esperando um final que fizesse jus à trajetória dos personagens.

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