segunda-feira, 30 de março de 2026

As justiças e as injustiças do "Melhores do Ano" de 2025/2026

 A edição deste domingo do "Melhores do Ano", exibida no "Domingão com Huck", manteve o tom festivo e grandioso que já virou marca da premiação comandada por Luciano Huck, mas também chegou cercada de mudanças que não passaram despercebidas. O prêmio deixou de ir ao ar em dezembro --- período tradicional da atração ---- e foi exibido no último domingo de março, uma alteração que causou estranhamento e quebrou a sensação de “fechamento de ano” que sempre marcou o especial.


Ao vivo, o programa reuniu nomes de destaque da televisão, música, jornalismo e esporte, apostando em números musicais ---- como a abertura com Marina Senna --- e performances de Ivete Sangalo, Simone Mendes e Diego & Victor Hugo, além da presença de Paulo Vieira interagindo com a plateia. Aliás, Paulo foi um show à parte. Todo ano é, então nem chega a ser uma surpresa. Falou do escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, debochou do power point da Globo News que tentou associar Lula ao banqueiro, ridicularizou as novelinhas verticais que a emissora tem lançado e ainda exibiu um clipe fazendo piada com os investimentos superficiais que a Globo vem fazendo, ao invés de priorizar suas novelas, que mal têm figuração e escassez de externas.

Mas, por trás do brilho e da celebração, a edição também evidenciou ausências absurdas e alguns vencedores que despertaram indignação nas redes sociais.

Um dos movimentos desta edição foi a ampliação das categorias principais, que passaram de três para cinco indicados ---- uma tentativa clara de tornar a disputa mais abrangente. Ainda assim, mesmo com dois nomes a mais em cada lista, as ausências continuaram sendo um dos pontos mais comentados da premiação.


A categoria mais polêmica foi Atriz de Novela. A lista reuniu Bella Campos, Deborah Bloch, Duda Santos, Grazi Massafera e Taís Araújo ----  uma seleção forte, mas que causou estranhamento ao ignorar o trabalho de Sophie Charlotte, cuja ausência se destacou como uma das mais injustificáveis da noite. A atriz está em seu melhor trabalho na televisão como protagonista da novela das nove que vem fazendo sucesso. Gerluce caiu nas graças do público graças ao ótimo desenvolvimento dos autores, mas também por conta do talento da intérprete. Ao menos a vitória de Grazi serviu para amenizar um pouco essa injustiça. A perua da produção está irretocável em cena e forma uma ótima parceria com a própria Sophie com os tradicionais embates entre mocinha e vilã. Vitória merecida. 


O mesmo se repetiu em Ator de Novela, com Murilo Benício ("Três Graças"), Pedro Novaes ("Garota do Momento"), Sergio Guizé ("Êta Mundo Melhor!"), Thomás Aquino ("Guerreiros do Sol") e Tony Ramos ("Dona de Mim"). Ainda que fossem nomes consistentes, chamou atenção a ausência de Rômulo Estrela, que vem brilhando como Paulinho, em "Três Graças", e acabou ficando de fora mesmo com a ampliação da categoria. E o que dizer da ausência de Irandhir Santos, que foi arrebatador como Arduíno em "Guerreiros do Sol"? Se a novela do Globoplay entrou nas indicações, ele tinha a obrigação de estar. Mas a vitória de Murilo Benício pelo sua excelente atuação como Santiago Ferette, em "Três Graças", foi merecida e o ator ainda fez questão de citar a injustiça da não indicação de Sophie Charlotte. O ator também citou Andreia Horta (Zenilda) e Alanis Guillen (Lorena) em seu discurso e elogiou a dedicação de Pedro Novaes.


Nas categorias coadjuvantes, a lista de Atriz Coadjuvante trouxe Alice Carvalho ("Guerreiros do Sol"), Belize Pombal ("Vale Tudo"), Maisa ("Garota do Momento"), Paolla Oliveira ("Vale Tudo") e Suely Franco ("Dona de Mim") ---- mas novamente houve uma lacuna difícil de ignorar: Carol Castro, que também entregou um trabalho extraordinário em "Garota do Momento", na pele da sofrida Clarice, sequer apareceu entre as indicadas. Qual o sentido? E Alinne Moraes, que emocionou na pele de Jânia em "Guerreiros do Sol", também foi deixada de lado. A vitória de Paolla Oliveira marcou a força de um fandom dedicado que faz a atriz vencer qualquer indicação que concorra e seu desempenho no remake realmente mereceu elogios, apesar da construção totalmente equivocada de Manuel Dias. Vale lembrar que a personagem passou a novela toda acusada de ter matado o irmão, mas, além de ter sido inocente, o rapaz não morreu. Só que Heleninha terminou acusada de matar a própria mãe e o crime nem existiu porque Odete surgiu viva em uma cena ridícula e absurda. Ou seja, a mulher voltou a beber, né? Que lição a autora deu de mínima consciência social? E Suely Franco deu um banho de atuação na pele de Rosa na novela das sete, de Rosane Svartman, e pela primeira vez tinha sido indicada como Coadjuvante. Também merecia muito o troféu. 


Já em Ator Coadjuvante, concorreram Alexandre Nero ("Vale Tudo"), Cauã Reymond ("Vale Tudo"), Eduardo Sterblitch ("Garota do Momento"), Marcello Novaes ("Dona de Mim") e Pedro Novaes ("Três Graças"), mantendo o padrão de nomes conhecidos e recorrentes. Com todo respeito ao Pedro, não fez sentido ele estar em duas categorias da noite, ainda que de novelas diferentes. Estava faltando nome para preencher? Não estava. Danton Mello deu um show como Raimundo em "Garota do Momento", Fábio Assunção se destacou como o vilão Juliano em "Garota do Momento", Cauê Campos brilhou como Basílio em "Garota do Momento", Juan Paiva emocionou como Samuel em "Dona de Mim", enfim, não faltavam nomes. A vitória de Alexandre Nero foi justa pelo seu excelente trabalho como Marco Aurélio, um dos poucos pontos positivos do remake. 


No campo das séries, Série do Ano contou com "Dias Perfeitos", "Pablo e Luisão" e "Raul Seixas: Eu Sou". A vitória de "Pablo e Luisão" foi mais do que justa. Embora as três séries sejam merecedoras de elogios, a produção idealizada por Paulo Vieira furou a bolha e foi a única que realmente fez sucesso no Globoplay. O que é raro por se tratar de uma série de humor, gênero que anda quase extinto atualmente. Em Atriz de Série, disputaram Dira Paes ("Pablo e Lusião"), Julia Dalavia ("Dias Perfeitos") e Alice Wegmann ("Rensga Hits"). A vitória de Dira foi muito justa, ainda que Julia e Alice transbordem talento e também tenham brilhado muito em suas respectivas produções. Dira está impagável na série e o troféu serviu um pouquinho para agraciar seu trabalho como Lígia em "Três Graças". Já a categoria Ator de Série reuniu Jaffar Bambirra ("Dias Perfeitos"), Ailton Graça ("Pablo e Luisão") e Otávio Muller ("Pablo e Luisão"). O triunfo de Jaffar honrou a sua entrega na série tensa de Raphael Montes. Seu desempenho impressionou.


As categorias de Humor, com Paulo Vieira, Rafael Portugal e Tatá Werneck; honrou mais uma vez o talento de Tatá, que ano que vem completará dez anos com o "Lady Night", o melhor talk show do país e que serve como alívio cômico em diversas situações. A atriz e comediante ainda consegue extrair ótimas declarações dos entrevistados. Na categoria Jornalismo, com César Tralli, Maju Coutinho e Poliana Abritta; houve a vitória de Tralli, que venceu pela terceira vez consecutiva. Já a maior piada da noite foi a de Profissional do Esporte. Fred Bruno vencer Alex Escobar e Everaldo Marques foi um escárnio. 


Em  Música do Ano, disputaram “Energia de Gostosa”, de Ivete Sangalo; “Lembrei de Nós”, de João Gomes, Jota.pê e Mestrinho; “Me ama ou me larga”, de Simone Mendes; “P do Pecado”, de Menos é Mais e Simone Mendes; e “Tubarões”, de Diego & Victor Hugo. Venceu "Me Ama ou me Larga". Essa música foi mesmo a do ano? Fica a pergunta. 


A categoria que lavou a alma foi a de Novela do Ano, a última da premiação. "Garota do Momento", "Vale Tudo" e "Três Graças" disputaram e não tinha como a obra de Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgilio Silva não vencer. Até agora a obra está praticamente irretocável. O diretor Luiz Henrique Rios ainda fez questão de, durante o seu agradecimento no palco, citar a ausência de Sophie Charlotte. Uma lembrança justa para algo inexplicável. E ainda foi uma ironia do destino Aguinaldo ter levado o troféu diante de Manuela Dias, depois de tudo o que a autora fez com "Vale Tudo", fenômeno que o autor escreveu com Gilberto Braga e Leonor Brassères. A trama inédita do escritor tem tudo o que o remake nunca teve. 


No entanto, talvez uma das ausências mais simbólicas tenha sido a da categoria de revelação mirim. Em um ano marcado por atuações infantis de destaque, nomes como Elis Cabral e Lorenzo Reis (ambos em "Dona de Mim"), além de tantas outras crianças que brilharam em "Êta Mundo Melhor!" --- simplesmente não encontraram espaço na premiação. A exclusão não apenas empobreceu o panorama artístico apresentado, como também ignorou uma geração que vem renovando a teledramaturgia com talento e naturalidade. Também não deu para entender a categoria Revelação ter ido ao ar no domingo anterior. Alegaram falta de tempo, mas tinha tempo de sobra no lugar das categorias de superação que o apresentador insere para premiar populares que venceram na vida. Nada contra, mas isso sim pode ficar para um outro domingo. Só para não deixar esquecido, Alana Cabral venceu merecidamente pelo seu grande trabalho como Joelly em "Três Graças". Ela concorreu com os também talentosos L7nnon ("Dona de Mim"), Belo ("Três Graças"), Gabriela Loran ("Três Graças") e Ricardo Teodoro ("Vale Tudo").


Com momentos emocionantes, como as homenagens a profissionais do audiovisual que já partiram e o quadro “Inspiração”, o especial tentou equilibrar entretenimento e relevância. Ainda assim, a sensação que ficou foi a de uma premiação que, mesmo promovendo mudanças ---- seja na data de exibição, seja na ampliação dos indicados ---- não conseguiu evitar lacunas importantes. E, em uma noite dedicada aos “melhores”, essas ausências acabaram falando tão alto quanto os próprios vencedores.

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