A continuação de "Êta Mundo Melhor!, que chegou ao fim nesta sexta-feira (13/03), após 220 capítulos, acabou provocando um efeito inesperado: ao tentar prolongar o universo de "Êta Mundo Bom!", a nova novela terminou evidenciando que a história original já estava completa. A obra criada por Walcyr Carrasco tinha um arco narrativo fechado e um desfecho satisfatório. Ao retomar esse universo, primeiro com textos do próprio autor e depois sob o comando de Mauro Wilson, a trama acabou revelando o risco de revisitar uma história cujo conflito principal já havia sido resolvido.
Desde os primeiros meses, a novela apresentou uma estrutura narrativa que parecia andar em círculos. A sensação recorrente era a de que o telespectador podia ficar semanas ou até meses sem assistir e, ao voltar, perceber que quase nada havia avançado. Isso aconteceu porque várias tramas foram reiniciadas ou reconfiguradas de maneira muito semelhante às histórias da obra anterior, criando uma estranha sensação de repetição constante, como se a continuação estivesse refazendo caminhos já percorridos.
A saga de Estela (Larissa Manoela) é um exemplo evidente disso. A personagem teve uma trajetória muito semelhante à de Maria (Bianca Bin) na novela original, inclusive no romance inicial com Celso (Rainer Cadete).
O problema é que Celso já havia passado por um processo de redenção anteriormente, e sua volta a atitudes moralmente duvidosas soou mais como um retrocesso narrativo do que como evolução dramática. Apenas na última semana surgiu a revelação de sua cumplicidade no sumiço do filho de Candinho (Sérgio Guizé), recurso que parecia ter sido guardado como uma tentativa tardia de criar impacto. Não criou.Algo parecido aconteceu com Araújo (Flávio Tolezani). Na novela anterior, ele desviava dinheiro da fábrica de sabonetes para pagar o tratamento do filho e acabou sendo perdoado, encerrando sua história com redenção. Na continuação, o personagem simplesmente repete o mesmo erro, agora desviando dinheiro da fábrica de biscoitos. A situação se tornou ainda mais estranha pela mudança brusca na personalidade de Olga (Maria Carol), cuja influência passou a incentivar esse comportamento, alterando completamente a construção da personagem. Foi a personagem que o redimiu em 2016 e agora ela quem o desviou novamente. Não teve nexo algum.
Outras histórias também pareceram releituras diretas. O romance entre Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi) e Maria Divina (Castorine) tentou reproduzir a dinâmica que o personagem teve com Mafalda (Camila Queiroz), inclusive retomando o famoso debate sobre o “cegonho” e a expectativa em torno da primeira relação sexual. Já a trama central, envolvendo a busca de Candinho por seu filho perdido, era praticamente uma reedição do motor dramático de "Êta Mundo Bom!", quando o personagem procurava a própria mãe. O problema é que, quando finalmente descobriu que Samir era seu filho, o enredo perdeu completamente o rumo. A partir desse momento, a novela se arrastou sem grandes acontecimentos, como se o conflito principal tivesse sido resolvido cedo demais ---- mas até que demorou bastante.
Para movimentar a narrativa, o autor recorreu a vilanias forçadas de Sandra (Flávia Alessandra) e Ernesto (Eriberto Leão). A situação se tornou ainda mais artificial quando foi exposto que ambos já estavam ricos graças a golpes aplicados fora de cena: Sandra ao enganar um barão e Ernesto ao herdar a fortuna de um tio milionário que havia enganado. Ou seja, os vilões já não tinham objetivo claro na história, e suas ações pareciam existir apenas para manter o conflito em funcionamento. A tal vingança contra Candinho não colou.
O ponto mais controverso desse núcleo foi a falsa morte de Sandra. Seu retorno disfarçada de baronesa, alterando sotaque e tom de voz para não ser reconhecida, acabou prejudicando justamente aquilo que tornava a personagem memorável. A vilã icônica da novela original se transformou em uma figura quase caricata, repetindo incessantemente o mesmo ódio por Candinho e traçando mil planos maquiavélicos.
Outro sinal de desgaste apareceu no tratamento dado aos núcleos paralelos. O núcleo da fazenda de Cunegundes e Quinzinho, que era um dos mais divertidos da obra original, apareceu quase desconectado do restante da trama. Os personagens passaram boa parte da novela presos a esquetes repetitivas envolvendo a busca por esmeraldas no terreno e discussões cômicas com Medeia (Betty Gofman) e depois com Jocasta (Grace Gianoukas), o que acabou desperdiçando o talento do elenco. Os quatro veteranos de imenso talento não foram valorizados.
O mesmo aconteceu com o núcleo do Dancing, que teve papel importante em "Êta Mundo Bom!" e aqui praticamente não interferiu no enredo. Tamires (Monique Alfradique), Tamiris (Mari Bridi), Vermelho (Gabriel Canella) e Francine (Luciana Fernandes) não tiveram relevância. Já as histórias da pensão e da Rádio Paraizo começam com potencial, mas perderam força ao longo da narrativa e acabaram se tornando apenas pano de fundo. Valeu pelo talento de Nivea Maria (Margarida), Tony Tornado (Lúcio) e Rosane Gofman, que se destacou como Olímpia, personagem que era apenas metida no folhetim de 2016 e virou uma vilã preconceituosa e moralista na continuação.
Apesar dos problemas, a novela também apresentou acertos. O maior deles foi a trajetória de Dita, que deixou de ser apenas uma empregada explorada na fazenda para se tornar a grande protagonista da história. Sua ascensão como cantora, passando por todo o processo de descoberta do talento e construção da carreira, foi um dos arcos mais interessantes da trama. O romance com Candinho também trouxe um frescor que a história principal já havia perdido.
Outro momento bonito foi a evolução de Manuela, tia de Dita, que aprendeu a ler com a sobrinha e acabou se tornando atriz de radionovelas, chegando a protagonizar a história de "Xica da Silva" na rádio. Dhu Moraes foi fantástica e ainda teve química com Tony Tornado na reta final com o romance da sua personagem com Lúcio. Mauro Wilson também inseriu pequenas homenagens a Walcyr Carrasco ao longo da narrativa, como a brincadeira em que Margarida se disfarçou de Adamo Angel para escrever uma novela, referência ao pseudônimo usado pelo autor quando escreveu "Xica da Silva" na TV Manchete.
A trama da Casa dos Anjos também funcionou bem, em grande parte graças ao elenco infantil. As crianças demonstraram carisma e talento, ganhando cada vez mais espaço ao longo da história. Vale uma menção especial a Davi Malizia, que brilhou como Samir; Arthur Yera, que fez de Simbá um 'mini vilão' cativante; Marina Cypriano, que conquistou com sua Felícia e Vicente Alvite, que esteve ótimo como Aladdin. A dupla formada por Zulma e Zenaide também rendeu bons momentos e valorizou o trabalho das atrizes. Heloísa Perissé e Evelyn Castro formaram uma deliciosa dupla.
A saga de Estela melhorou bastante depois de um início exaustivo focado no romance com Celso. Muito desse sucesso se deve à atuação de Larissa Manoela, que emocionou em várias cenas ao lado de Isabelly Carvalho, intérprete de Anabela. O drama das irmãs que na verdade eram mãe e filha ganhou força dramática, especialmente após a entrada do médico Túlio (Cadu Libonatti). Ainda assim, a coerência da relação acabou prejudicada na reta final, quando o personagem passou a demonstrar um comportamento possessivo repentino apenas para provocar uma separação e criar suspense artificial sobre o destino amoroso de Estela.
Os problemas de coerência também apareceram nos desfechos. Personagens masculinos como Ernesto, Araújo e Celso receberam novas chances e caminhos de redenção, enquanto várias vilãs tiveram destinos mais severos. Zulma forçou um casamento sem sentido com Candinho, graças ao plano ainda mais absurdo de provocar a prisão de Dita por conta do 'sequestro' de Samir, e terminou morta depois que foi atropelada por um bonde. Era a vilã mais humanizada do enredo e a que teve o final mais cruel. Já Sandra enlouqueceu e Olga acabou presa. A diferença de tratamento entre homens e mulheres acabou soando antiquada, especialmente considerando que muitos desses personagens masculinos já haviam sido perdoados por erros graves anteriormente.
A trama envolvendo o casal gay formado por Lauro (Marcelo Argenta) e Tobias (Cleiton Morais) também decepcionou. Os dois apareceram pouco juntos e a história voltou a recorrer ao recurso do romance de fachada do médico para esconder sua sexualidade, algo que já havia sido explorado na novela original. Até mesmo a trama da adoção do filho de Sônia (Paula Burlamaqui) perdeu força, muito por causa da postura irresponsável de Quincas (Miguel Rômulo), que passou praticamente toda a novela evitando assumir a paternidade, comportamento tratado sempre com comicidade. No penúltimo capítulo, os dois adotaram Felícia e pronto. Aliás, todas as crianças foram adotadas ao mesmo tempo, algo que soou como mera conveniência de roteiro em meio a tantas situações reiterativas.
Outro exemplo de repetição pouco inspirada foi o professor Asdrúbal (Luis Miranda), claramente criado como uma tentativa de reproduzir o sucesso do professor Pancrácio (Marco Nanini) da novela original. A diferença é que Pancrácio tinha motivações narrativas claras para seus disfarces, enquanto Asdrúbal pareceu repetir o recurso de forma forçada, inclusive em romances relâmpagos que pouco acrescentaram à história. Diversos casais secundários também sofreram com idas e vindas sem sentido ao longo da trama.
O último capítulo foi muito corrido e com vários finais jogados. Dava tempo de sobra para apresentar as conclusões com mais calma diante da barriga que a novela teve. Sandra explodiu a mansão, mas tudo foi rapidamente resolvido e ninguém se feriu. A vilã acabou presa e louca na cadeia, enquanto Ernesto teve o desfecho de virar pastor na prisão. Já Celso foi perdoado pela terceira vez por Candinho. Não deu para entender a razão da Estela ter viajado com Anabela para Amazônia e voltado dez anos depois para ficar com Túlio. Ele ficou dez anos sofrendo? Qual o objetivo? Aliás, a passagem de tempo só serviu para crescer as crianças porque os adultos não envelheceram um dia sequer. Ficou uma junção de futuro com presente difícil de engolir. Mas algumas cenas foram delicadas, como o casamento de Picolé (Isaac Amendoim/Igor Fernandez) com Maria Pureza. O momento da foto das crianças reunidas, mesclando a imagem delas na infância com todas crescidas, foi emocionante, assim como a mensagem final de Candinho ao lado de Dita dizendo que tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra 'meiorá'.
Em termos de audiência, a novela teve bons índices, impulsionada principalmente pelo carinho do público pelo fenômeno criado por Walcyr Carrasco em 2016. Ainda assim, esteve longe de se tornar o grande sucesso que a emissora esperava. A repercussão nas redes sociais foi discreta e o impacto cultural bastante limitado. E qual a necessidade de 220 capítulos? Não havia história nem para 100.
No saldo final, "Êta Mundo Melhor!" não chega a ser uma novela ruim. Trata-se de uma obra simpática, com bons momentos e um elenco talentoso. Mas dificilmente deixará marca duradoura na memória do público. Enquanto "Êta Mundo Bom!" continuará sendo lembrada como um grande sucesso da teledramaturgia brasileira recente, sua continuação tende a passar quase despercebida ao longo dos anos. Paradoxalmente, ao existir, ela acaba reforçando a ideia de que algumas histórias simplesmente não precisam de continuação.
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