terça-feira, 26 de maio de 2026

Primeiros capítulos de "Quem Ama Cuida" mostram um folhetim clássico, denso e cheio de potencial

 Criada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com direção artística de Amora Mautner, " Quem Ama Cuida" começa apostando alto no melodrama clássico, mas revestido de uma atmosfera contemporânea e socialmente sensível. Já em sua primeira semana, a novela demonstra segurança narrativa ao construir uma trama central forte sem abrir mão da apresentação gradual dos núcleos paralelos ---- algo cada vez mais raro em folhetins que costumam acelerar demais suas engrenagens logo na estreia.


O início da novela impressiona pela ambientação caótica de uma São Paulo devastada por um temporal. A tragédia climática não funciona apenas como pano de fundo estético, mas como motor dramático que reorganiza completamente a vida da protagonista Adriana, interpretada com intensidade por Letícia Colin. A sequência da enchente é tecnicamente ambiciosa e consegue transmitir urgência e desespero sem soar artificial, mérito da direção de Amora Mautner e do investimento da produção em criar um ambiente visualmente imersivo.

A jornada de Adriana nasce da perda absoluta: desempregada, desabrigada e viúva após o desaparecimento do marido Carlos, vivido por Jesuíta Barbosa, ela imediatamente se estabelece como uma heroína clássica do universo de Walcyr Carrasco ---- alguém destruída pelas circunstâncias, mas movida pela necessidade de sobreviver.

Ainda assim, a novela evita transformar sua dor em puro sofrimento miserabilista. Há humanidade e delicadeza na maneira como o texto conduz seus encontros, especialmente na aproximação com Pedro, personagem de Chay Suede, que surge como um contraponto idealista em meio ao caos.

O grande mérito dessa primeira semana está justamente no equilíbrio. Enquanto a trama principal já se mostra sólida e bem estruturada, os núcleos secundários começam a ganhar contornos próprios sem parecerem deslocados do enredo central. A dinâmica da família Brandão, por exemplo, rapidamente estabelece o clima de disputa, ambição e ressentimento que deve mover boa parte dos conflitos futuros. Antonio Fagundes entrega um Arthur austero, melancólico e emocionalmente isolado, figura que aos poucos encontra em Adriana uma rara conexão afetiva.

Também chama atenção a construção da família da protagonista. Apesar da união evidente entre os parentes, a convivência é atravessada por tensões realistas, como os primeiros indícios da homofobia de Otoniel, personagem de Tony Ramos. Ainda tratado de forma inicial, o conflito promete aprofundar nuances familiares sem transformar os personagens em caricaturas simplistas.

Entre os núcleos paralelos, um dos mais curiosos é o de Brigitte, interpretada por Tatá Werneck. A personagem funciona quase como uma stalker obsessiva que atormenta a vida do ex-ficante vivido por Romulo Arantes Neto. Embora existam momentos cômicos em suas cenas com a irmã Ingrid, papel de Agatha Moreira, o enredo possui um tom perturbador que sugere caminhos mais sombrios no futuro. É uma escolha interessante porque foge da comicidade pura que normalmente acompanha personagens de Tatá.

Outra aposta promissora é a estreia de Flávia Alessandra em uma novela das nove de Walcyr Carrasco, após seus vários sucessos com o autor na faixa das seis e das sete. Sua Fábia ainda apareceu pouco, mas já demonstra potencial para movimentar conflitos importantes. O mesmo vale para Eudora, de Mariana Ximenes --- que marca o reencontro da atriz com o escritor, 23 anos depois do fenômeno "Chocolate com Pimenta" ---, cuja infelicidade no casamento surge como um prenúncio evidente de futuras rupturas emocionais e morais.

Mesmo ainda em fase de apresentação, "Quem Ama Cuida" consegue algo fundamental: despertar curiosidade genuína sobre seus próximos passos. A novela não parece ter pressa, mas também não estaciona. Cada capítulo adiciona novas peças ao tabuleiro enquanto prepara cuidadosamente a grande virada envolvendo o assassinato de Arthur e a derrocada de Adriana.

No fim das contas, a parceria entre Walcyr Carrasco e Claudia Souto ---- que já trabalharam juntos em "Sete Pecados", "Caras & Bocas" e "Morde & Assopra" ---- mostra sintonia ao unir melodrama popular, personagens fortes e conflitos familiares densos. Se mantiver o ritmo e souber desenvolver os muitos núcleos que apresentou nessa primeira semana, "Quem Ama Cuida" tem todos os ingredientes para se tornar um folhetim envolvente e daqueles que conseguem fisgar o público já no começo.

3 comentários:

bazarsheilafelix disse...

Também achei a estreia muito promissora! Elenco forte e trama envolvente. Já ansiosa para assistir os próximos capítulos.

Anônimo disse...

Mal posso esperar para ver esta novela superar a audiência de suas três antecessoras. Essa é a grande qualidade do Walcyr: ele tem um planejamento superior em suas tramas, calcula com precisão o momento exato de revelar tudo, e eu não preciso me preocupar com falsas expectativas narrativas (narra e não enrola) . Ele ama o gênero, e a presença da Claudia confere um toque extra de sofisticação à narrativa, pois os diálogos parecem ainda mais naturalistas — algo atípico para o estilo habitual do Walcyr —, sem repetições ou redundâncias. Além disso, fiquei surpreso com o estilo da Amora; o trabalho dela está melhor do que nunca.

Adriana Helena disse...

Um elenco de peso e um enredo bem amarrado dão vida a uma nova história e provavelmente um grande sucesso!
Grata amigo!