Nos últimos anos, porém, a pressão das redes sociais e da imprensa tornou esse tipo de censura cada vez mais difícil de sustentar. Um exemplo recente foi o casal Kelvin e Ramiro, interpretados por Diego Martins e Amaury Lorenzo em "Terra e Paixão".
A dupla venceu resistências, ganhou protagonismo no último capítulo, teve direito a casamento e vários beijos de verdade. O peso de
Walcyr Carrasco dentro da Globo certamente ajudou. Mas ainda assim havia um detalhe importante: tudo aconteceu apenas na reta final.
Loquinha foi além. Juquinha e Lorena quebraram paradigmas justamente porque viveram um romance livre de censuras durante toda a novela. Desde os flertes iniciais até os inúmeros beijos trocados ao longo da trama, nunca houve a sensação de contenção. Os beijos deixaram de ser “eventos” calculados e passaram a acontecer com naturalidade, como ocorre com qualquer casal hétero nas novelas. Pela primeira vez na história da teledramaturgia brasileira, a televisão aberta também exibiu uma cena de sexo entre duas mulheres ---- ainda que construída através de sombras e sugestões visuais. Foi simbólico, histórico e suficiente para estabelecer uma nova régua.
Depois de Loquinha, o público dificilmente aceitará retrocessos. Qualquer casal homoafetivo daqui para frente inevitavelmente será comparado a Juquinha e Lorena. E o sucesso internacional do casal certamente teve papel fundamental para blindar a trama de possíveis interferências. Qualquer corte repercutiria não apenas no Brasil, mas também em vários outros países onde a novela ganhou repercussão.
Talvez por isso mesmo a reta final decepcione.
É compreensível que Juquinha e Lorena percam espaço nos capítulos derradeiros. Afinal, são personagens terciárias e a novela precisa concentrar forças na conclusão de seus principais arcos dramáticos. O problema não é a redução do destaque, mas sim a fragilidade dos conflitos criados para elas nesse encerramento.
A ideia de unir o casamento de Juquinha e Lorena ao de Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes) simplesmente não funciona dramaticamente. Ainda mais depois da suspensão de Paulinho (Romulo Estrela) da polícia por ter sido flagrado ao lado dos investigados pelo roubo das "Três Graças", algo diretamente ligado ao fato de Juquinha ter prendido Viviane e quase ter colocado Leonardo atrás das grades. Dramaticamente, tudo soa desconexo. E pior: os dois casais mereciam momentos separados para que o público pudesse aproveitar plenamente cada celebração.
Mas o verdadeiro problema está no conflito envolvendo o roubo dos vestidos de noiva, articulado por Ferette, personagem de Murilo Benício, e Lucélia, vivida por Daphne Bozaski. É um enredo pequeno demais para a reta final de uma novela desse porte. Parece trama de temporada de Malhação ---- ou até da novelinha vertical de Loquinha ---- e não um conflito digno de um vilão como Ferette.
Um antagonista construído como ameaça real ao longo da novela jamais se contentaria com uma armação tão banal, cujo único objetivo é atrasar uma cerimônia de casamento. Falta peso dramático, falta intensidade e, principalmente, falta coerência com a grandiosidade que Loquinha alcançou dentro e fora da trama.
"Três Graças" chegará ao fim com uma extensa lista de acertos ---- e o casal Lorena Juquinha certamente estão entre os maiores deles. O casal mudou paradigmas, abriu portas e fez história. Justamente por isso, merecia conflitos mais à altura da importância que conquistou na reta final.
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