Quando Três Graças foi anunciada por Aguinaldo Silva, Virgilio Silva e Zé Dassilva, a promessa era acompanhar a trajetória de três mulheres --- avó, mãe e filha --- marcadas pelo abandono, pela violência e pelas dificuldades impostas pelos homens que cruzaram seus caminhos. A força da novela estava justamente nessa rede feminina construída na ausência masculina. Porém, há poucos capítulos do fim, a sensação é de que a trama decidiu santificar justamente os homens responsáveis pelos maiores traumas das protagonistas.
A história de Lígia, Gerluce e Joelly sempre foi movida pela dor causada por seus parceiros. Dira Paes vive Lígia, abandonada grávida por Joaquim, personagem de Marcos Palmeira. O mais revoltante nem era o abandono em si, mas o fato de Joaquim ter permanecido a vida inteira praticamente ao lado da ex-companheira, na mesma favela da Chacrinha, sem nunca procurar a filha, a neta ou sequer demonstrar qualquer remorso verdadeiro.
Já Gerluce, interpretada por Sophie Charlotte, teve sua juventude destruída por Jorginho Ninja, papel de Juliano Cazarré. Na sinopse original, Joelly nasceria de um estupro cometido pelo traficante. A novela suavizou isso ao longo do caminho ---- talvez por censura da Globo, talvez por recuo dos próprios autores ----, mas manteve um relacionamento igualmente abusivo.
Jorginho perseguia Gerluce, não aceitava o fim da relação, a mantinha trancada em casa e a impedia de viver. Tudo isso era narrado pela mocinha porque iniciou a história já separada dele. Mesmo sem o estupro explícito, continuava sendo um homem violento, controlador e traumatizante.E Joelly, vivida por Alana Cabral, também sofreu nas mãos de Raul, personagem de Paulo Mendes. Assim que descobriu a gravidez, o rapaz se recusou a assumir o bebê, sugeriu o aborto e, diante da negativa, participou diretamente da negociação da própria filha com Samira, a traficante de crianças interpretada por Fernanda Vasconcellos.
O problema não é a novela trabalhar redenção. Toda novela trabalha. O problema é a maneira como isso foi conduzido, quase transformando esses homens em mártires incompreendidos.
Jorginho Ninja foi o primeiro a passar pelo processo de “canonização”. Virou evangélico na cadeia, saiu da prisão regenerado e passou a ser tratado como exemplo de superação. Mesmo contra a vontade de Gerluce, conseguiu se aproximar de Joelly, virou um pai dedicado e morreu como herói ao tentar salvar a filha durante o parto, assassinado por Samira. A partir daí, praticamente todos os personagens passaram a tratá-lo com carinho e respeito, como se sua trajetória de violência tivesse sido apagada por uma conversão religiosa e um ato heroico final.
Gerluce nunca o perdoou completamente, mas a novela claramente esperava que o público perdoasse.
No caso de Raul, existe ao menos uma construção psicológica mais consistente. O personagem nunca foi retratado como um psicopata ou um homem cruel por natureza. Era um jovem irresponsável, emocionalmente destruído pela criação tóxica de Arminda, personagem de Grazi Massafera, que o comprou ainda bebê de Samira e jamais demonstrou afeto verdadeiro por ele. Depois, ainda descobriu ser filho biológico justamente de Samira com Ferette, vivido por Murilo Benício.
Só que o roteiro força demais a barra ao tentar inocentá-lo. A novela repete inúmeras vezes que Samira “roubou” a filha de Raul e Joelly, quando isso simplesmente não aconteceu. Eles venderam a criança e depois se arrependeram. Quem rompeu o acordo criminoso foram eles. Ainda assim, Raul não passou sequer um dia preso até agora, como se arrependimento e pedido de desculpas resolvessem automaticamente um crime tão grave.
E então chega Joaquim, talvez o caso mais frustrante de todos. Durante meses, Marcos Palmeira sustentou um personagem cheio de silêncios e mistérios, dando a impressão de que existia um segredo devastador por trás do abandono de Lígia e Gerluce. Isso não justificaria suas atitudes, claro, mas poderia ao menos servir de base dramática para uma reaproximação gradual.
Só que a revelação foi simplesmente: ele era covarde.
E pronto.
Nenhuma grande tragédia, nenhuma ameaça, nenhum motivo complexo. Apenas um homem que escolheu abandonar mulher, filha e neta por comodismo. Ainda assim, bastou ver a bisneta recuperada para chamá-la de “minha bisneta”, Lígia achar tudo lindo e os dois reatarem quase instantaneamente.
A química entre Dira Paes e Marcos Palmeira é inegável --- construída ao longo de trabalhos como os remakes de "O Rebu" e "Pantanal" ----, mas nem isso sustenta uma reconciliação tão apressada e pouco convincente. Ainda mais lembrando que, até semana passada, Joaquim estava se agarrando com Arminda em plena rua, ao lado da estátua das Três Graças.
E vale abrir um parêntese para Leonardo, personagem de Pedro Novaes. Embora não tenha ligação direta com as protagonistas, ele foi cúmplice ativo do pai no esquema dos remédios falsos que matou milhares de pessoas pobres. Mesmo assim, não ficou um dia sequer preso e ainda ganhou o perdão de Viviane, vivida por Gabriela Loran ---- ainda que essa reconciliação tenha sido minimamente mais trabalhada.
No fim, a sensação é de que "Três Graças" enfraqueceu justamente sua principal proposta. A novela começou como uma história sobre mulheres obrigadas a sobreviver sozinhas diante do abandono masculino, mas termina oferecendo absolvição quase irrestrita aos homens que mais feriram essas protagonistas. A mensagem que fica é estranha: pouco importa o tamanho da dor causada, porque no último capítulo sempre haverá espaço para redenção, romance e perdão. Mesmo quando nada foi realmente reparado.
2 comentários:
Gosto de dizer que Três Graças é o melhor exemplo da diferença entre o feminino e o feminista. O primeiro coloca a narrativa feminina no centro, enquanto o segundo busca resgatar e melhorar o lugar da mulher na sociedade. Não posso ignorar o quanto Três Graças tem do primeiro e muito pouco do segundo. O fato de a mulher estar no centro é algo que reconheço, mas algo me parece errado, talvez a perspectiva de Aguinaldo de criar personagens masculinos fracos para melhorar a personagem feminina. Isso criou um problema porque, se você só cria homens fracos que são facilmente perdoados pelas mulheres como se fossem deusas, involuntariamente, você cria uma fraqueza que perpetua a noção de masculinidade e machismo que a telenovela busca desconstruir. Nunca acreditei que Aguinaldo fosse progressista ou "woke", e para ser honesta, nem eu, mas mesmo eu não posso negar que tudo parece mais uma regressão do que uma progressão. Essa é uma das razões que fizeram de Lorena e Juquinha o melhor casal. Aguinaldo chegou a criar a insegurança de Paul, que quase destruiu seu relacionamento perfeito com Gerluce. Depois do "roubo" no episódio 50, parece que a falta de noção do Twitter desapareceu. Aparentemente, o autor se sente mais confortável se preocupando menos com críticas e erros. Mas, de qualquer forma, posso esquecer isso que nada me machucará (de verdade) mais do que a narrativa desperdiçada de Lena, Samira e o bebê, indigna de um ex-jornalista policial e o autor de "Senhora do Destino".
Aprecio muito que, a menos que tenham feito Gerluce não perdoar a ex, num mundo perfeito eu gostaria de um final em que Joelly decidisse criar o filho sozinha em homenagem às duas mulheres que a criaram. Quanto a Joaquin, ainda consigo acreditar na ideia de um homem covarde que tinha medo de amadurecer, em vez de um abusador ou um explorador de crianças. Ele foi o único que agiu para mudar e tentou ser uma pessoa melhor sem buscar perdão.
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