Criada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com direção artística de Amora Mautner, " Quem Ama Cuida" começa apostando alto no melodrama clássico, mas revestido de uma atmosfera contemporânea e socialmente sensível. Já em sua primeira semana, a novela demonstra segurança narrativa ao construir uma trama central forte sem abrir mão da apresentação gradual dos núcleos paralelos ---- algo cada vez mais raro em folhetins que costumam acelerar demais suas engrenagens logo na estreia.
O início da novela impressiona pela ambientação caótica de uma São Paulo devastada por um temporal. A tragédia climática não funciona apenas como pano de fundo estético, mas como motor dramático que reorganiza completamente a vida da protagonista Adriana, interpretada com intensidade por Letícia Colin. A sequência da enchente é tecnicamente ambiciosa e consegue transmitir urgência e desespero sem soar artificial, mérito da direção de Amora Mautner e do investimento da produção em criar um ambiente visualmente imersivo.
A jornada de Adriana nasce da perda absoluta: desempregada, desabrigada e viúva após o desaparecimento do marido Carlos, vivido por Jesuíta Barbosa, ela imediatamente se estabelece como uma heroína clássica do universo de Walcyr Carrasco ---- alguém destruída pelas circunstâncias, mas movida pela necessidade de sobreviver.
Ainda assim, a novela evita transformar sua dor em puro sofrimento miserabilista. Há humanidade e delicadeza na maneira como o texto conduz seus encontros, especialmente na aproximação com Pedro, personagem de Chay Suede, que surge como um contraponto idealista em meio ao caos.O grande mérito dessa primeira semana está justamente no equilíbrio. Enquanto a trama principal já se mostra sólida e bem estruturada, os núcleos secundários começam a ganhar contornos próprios sem parecerem deslocados do enredo central. A dinâmica da família Brandão, por exemplo, rapidamente estabelece o clima de disputa, ambição e ressentimento que deve mover boa parte dos conflitos futuros. Antonio Fagundes entrega um Arthur austero, melancólico e emocionalmente isolado, figura que aos poucos encontra em Adriana uma rara conexão afetiva.
Também chama atenção a construção da família da protagonista. Apesar da união evidente entre os parentes, a convivência é atravessada por tensões realistas, como os primeiros indícios da homofobia de Otoniel, personagem de Tony Ramos. Ainda tratado de forma inicial, o conflito promete aprofundar nuances familiares sem transformar os personagens em caricaturas simplistas.
Entre os núcleos paralelos, um dos mais curiosos é o de Brigitte, interpretada por Tatá Werneck. A personagem funciona quase como uma stalker obsessiva que atormenta a vida do ex-ficante vivido por Romulo Arantes Neto. Embora existam momentos cômicos em suas cenas com a irmã Ingrid, papel de Agatha Moreira, o enredo possui um tom perturbador que sugere caminhos mais sombrios no futuro. É uma escolha interessante porque foge da comicidade pura que normalmente acompanha personagens de Tatá.
Outra aposta promissora é a estreia de Flávia Alessandra em uma novela das nove de Walcyr Carrasco, após seus vários sucessos com o autor na faixa das seis e das sete. Sua Fábia ainda apareceu pouco, mas já demonstra potencial para movimentar conflitos importantes. O mesmo vale para Eudora, de Mariana Ximenes --- que marca o reencontro da atriz com o escritor, 23 anos depois do fenômeno "Chocolate com Pimenta" ---, cuja infelicidade no casamento surge como um prenúncio evidente de futuras rupturas emocionais e morais.
Mesmo ainda em fase de apresentação, "Quem Ama Cuida" consegue algo fundamental: despertar curiosidade genuína sobre seus próximos passos. A novela não parece ter pressa, mas também não estaciona. Cada capítulo adiciona novas peças ao tabuleiro enquanto prepara cuidadosamente a grande virada envolvendo o assassinato de Arthur e a derrocada de Adriana.
No fim das contas, a parceria entre Walcyr Carrasco e Claudia Souto ---- que já trabalharam juntos em "Sete Pecados", "Caras & Bocas" e "Morde & Assopra" ---- mostra sintonia ao unir melodrama popular, personagens fortes e conflitos familiares densos. Se mantiver o ritmo e souber desenvolver os muitos núcleos que apresentou nessa primeira semana, "Quem Ama Cuida" tem todos os ingredientes para se tornar um folhetim envolvente e daqueles que conseguem fisgar o público já no começo.
4 comentários:
Também achei a estreia muito promissora! Elenco forte e trama envolvente. Já ansiosa para assistir os próximos capítulos.
Mal posso esperar para ver esta novela superar a audiência de suas três antecessoras. Essa é a grande qualidade do Walcyr: ele tem um planejamento superior em suas tramas, calcula com precisão o momento exato de revelar tudo, e eu não preciso me preocupar com falsas expectativas narrativas (narra e não enrola) . Ele ama o gênero, e a presença da Claudia confere um toque extra de sofisticação à narrativa, pois os diálogos parecem ainda mais naturalistas — algo atípico para o estilo habitual do Walcyr —, sem repetições ou redundâncias. Além disso, fiquei surpreso com o estilo da Amora; o trabalho dela está melhor do que nunca.
Um elenco de peso e um enredo bem amarrado dão vida a uma nova história e provavelmente um grande sucesso!
Grata amigo!
eu estou fazendo um esforço descomunal para continuar ver. achando muito pesada e cheia de clichês ruins. quem sabe com a virada melhore. beijos, pedrita
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