A atual novela das seis da Globo, escrita por Walcyr Carrasco e desenvolvida por Mauro Wilson, está perto do seu fim, após longos meses andando em círculos. Entre os visíveis problemas de "Êta Mundo Melhor!", está a condução do casal Tobias (Cleiton Morais) e Lauro (Marcelo Argenta). O resultado é, no mínimo, frustrante, especialmente para quem acompanhou a trajetória dos dois em "Êta Mundo Bom!". Na novela anterior, o público viu a relação se encaminhar aos poucos com um raro cuidado dentro de uma narrativa de época. Eles terminaram juntos, consolidando um arco afetivo que, embora bem discreto, tinha significado.

Na continuação, porém, o que se viu foi um verdadeiro apagamento. Em vez de dar sequência natural ao relacionamento já estabelecido, a nova trama optou por regredir a história, recontando praticamente os mesmos conflitos, só que agora esvaziados de destaque e profundidade. Tobias e Lauro passaram grande parte da novela à margem dos acontecimentos centrais, quase como se sua existência fosse um detalhe inconveniente na narrativa.
Isso se torna ainda mais lamentável quando observamos que outras produções contemporâneas conseguiram avançar em representatividade com muito mais coragem.
O sucesso do casal lésbico Juquinha (Gabriela Medvedovski) e Lorena (Alanis Guillen) em "Três Graças" demonstrou que há público, engajamento e retorno artístico quando relações LGBTQIA+ são tratadas com protagonismo e humanidade. Enquanto isso, Tobias e Lauro foram reduzidos a silêncios e subtramas repetidas.
A repetição, aliás, é um dos maiores problemas. Mais uma vez, Lauro precisou fingir um relacionamento com uma mulher (Sônia - Paula Burlamaqui) para proteger sua relação com Tobias. É verdade que se trata de uma novela de época, e o contexto histórico torna o conflito plausível. Mas plausível não significa obrigatório e muito menos repetitivo. Reencenar praticamente a mesma dinâmica da produção anterior revela falta de criatividade e, pior, falta de interesse em aprofundar os personagens.
Nem mesmo o conflito do médico ao se prontificar a cuidar do filho de Sônia recebeu o desenvolvimento necessário. O que poderia ser um arco interessante, explorando paternidade afetiva e responsabilidade --- uma vez que Quincas (Miguel Rômulo), o verdadeiro pai, era um irresponsável ---, foi tratado de maneira superficial, como se estivesse sempre à beira de acontecer, mas nunca realmente acontecendo.
Durante quase toda a novela, Tobias e Lauro permaneceram apagados. Somente a um mês do final houve uma cena breve em que o médico criticava a homofobia no programa da rádio Paraizo ---- um momento importante, mas isolado demais para compensar meses de invisibilidade narrativa. Soou mais como um gesto protocolar do que como parte orgânica da construção dramática.
É especialmente decepcionante porque havia ali um potencial evidente. A sintonia entre Cleiton Morais e Marcelo Argenta era um dos trunfos do casal. A química natural entre os atores conferia verdade aos olhares, aos silêncios e às poucas cenas de intimidade emocional que tiveram. Essa conexão, que poderia ter sido explorada para criar momentos bonitos, foi desperdiçada.
No fim, fica a sensação de que Tobias e Lauro foram mantidos na história apenas para cumprir uma formalidade de continuidade, e não para evoluir. Era melhor não terem voltado. Em tempos em que a televisão brasileira demonstra capacidade de construir narrativas LGBTQIA+ fortes e populares, optar pelo apagamento ou pela repetição esvaziada em "Êta Mundo Melhor!" é um retrocesso narrativo e simbólico.
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