terça-feira, 16 de maio de 2017

Glória Perez acerta com o corajoso paralelo entre Ivana e Nonato em "A Força do Querer"

A atual novela das nove vem apresentando ótimos índices de audiência, fazendo por merecer esses bons números. A trama de Glória Perez está bem estruturada, com poucos personagens e dramas convidativos. A maior ousadia da autora é o drama de Ivana (Carol Duarte), uma menina que não se identifica com seu corpo e sofre diante da pressão da mãe e da sociedade. Essa situação é um dos principais acertos do folhetim, ganhando novos contornos através de um interessante paralelo criado com um outro personagem que vem crescendo: o Nonato (Silvero Pereira).


A questão do transgênero ser explorada em uma novela é um bom avanço e a escritora está sendo muito corajosa. O método escolhido por ela expõe a sua criatividade, além de servir como uma explicação objetiva, sem parecer didático ou piegas. Isso porque essa dualidade que começou a ser focalizada no enredo tem funcionado para destacar os dois perfis, ao mesmo tempo que expõe as diferenças que os separam, embora enfrentem o mesmo tipo de preconceito. O que o público vê é um homem muito bem resolvido com seu corpo e uma mulher que não se identifica com o seu reflexo no espelho.

Ivana sempre sofreu pressão da mãe, a fútil Joyce (Maria Fernanda Cândido), para que fosse quase um clone seu. Na breve primeira fase da novela, que durou apenas o primeiro bloco do primeiro capítulo, ficou explícita a intenção da perua para com sua filha, transformando a criança em uma cópia mirim de si mesma.
A menina já demonstrava desconforto na época. O tempo passou, mas nada mudou, a não ser a vontade da garota, que cresceu e deixou de seguir as ordens da mãe. A personagem tem mais compreensão do pai, Eugênio (Dan  Stulbach), embora ele não tenha noção do que está acontecendo com ela. O que se vê é uma mulher linda, mas sem qualquer vaidade, deixando de lado maquiagem acessórios, sapatos, enfim.

Já Nonato começou timidamente na história. Parecia uma mero figurante inicialmente. Mas não era. Pelo contrário, serviria para engrandecer o convidativo drama de Ivana. O rapaz deixou o nordeste para tentar a vida no Rio de Janeiro e começou a trabalhar como motorista do preconceituoso Eurico (Humberto Martins). Aos poucos, a autora foi revelando para o público a vida desse homem aparentemente muito tímido e retraído. Transformista e homossexual, ele precisou se portar como 'homem' para conseguir um emprego digno, pois declarou que no Brasil não dão emprego para travesti, que acaba entrando na prostituição. Mas Nonato faz questão de dizer que é muito bem resolvido e não quer se transformar em mulher. Gosta do seu corpo e adora interpretar a Elis Miranda, perfil que criou para se apresentar em shows. Não é transexual, é travesti.

Desde que se revelou para o telespectador (pois para os personagens segue fingindo ser o que não é), as cenas do motorista vêm sendo exibidas intercaladas com as da Ivana, que a cada dia tem sua autoestima piorada em virtude da não identificação com seu corpo. A filha de Joyce ainda nem tem ideia de que seja transgênero, mas a terapia tem servido para desabafos e questionamento mais frequentes, além dos momentos que a menina conversa sua a prima e melhor amiga Simone (Juliana Paiva). Ivana já declarou que não sente atração por mulher e tem interesse em Cláudio (Gabriel Stauferr), menino com quem tentou namorar, sem sucesso em virtude do incômodo que ela sente com o toque e em se mostrar.

O drama de Ivana é o melhor enredo da novela e a condução de Glória é de forma cautelosa, sem atropelos. A autora criou uma história que impossibilita o telespectador de não se envolver com a angústia daquela garota. Ou seja, a situação virou uma poderosa arma para a reflexão até dos preconceituosos. Ela é um homem que nasceu no corpo de uma mulher. Tudo o que envolve os transgêneros ainda é muito 'novo' para o grande público, inclusive o fato de existir mulher que vira homem, mas segue se interessando pelo sexo masculino, como deve ser, ao que tudo indica, o caso de Ivana. Nesse caso deve ser considerado um caso de heterossexualidade ou homossexualidade? É uma pergunta que gera muitas dúvidas, o que é bem compreensível. Não será fácil lidar com isso na trama, mas o desafio já começou.

E essa mescla com a vida de Nonato deixa o contexto ainda mais convidativo, expondo as diferenças entre transexualidade e transformismo. As cenas estão ótimas, destacando o talento dos intérpretes. Silvero Pereira e Carol Duarte são dois estreantes na televisão e não poderiam ter começado de forma melhor. Ele, inclusive, estrela o espetáculo BR-Trans pelo Brasil e encerrou recentemente a temporada de "Uma Flor de Dama", peça onde também vive um travesti. Foi por causa desse trabalho do ator cearense que Glória o chamou para seu folhetim. Nonato vem sendo defendido com competência e o perfil mistura humor e drama com maestria. O seu melhor momento até agora foi quando o motorista contou que foi espancado pelo seu irmão, que o flagrou travestido em um espetáculo e expulsou de casa. Cena forte que refletiu a realidade do país. Já Carol vem brilhando em todos os momentos, expondo com perfeição toda a agonia daquela menina que não sabe o que é. Tem tudo para ser a revelação do ano.

"A Força do Querer" está muito bem construída, com uma grande direção de Rogério Gomes, e Glória Perez acertou em cheio na abordagem dos transgêneros em sua obra, sendo muito feliz na apresentação simultânea de dois tipos tão parecidos e tão distintos. A coragem está sendo recompensada.

28 comentários:

Débora disse...

Que texto bom!!! Parabéns!

Anônimo disse...

Carol já é a revelação do ano mesmo e esse Silvero é uma surpresa. Também achei corajosa essa ousadia da autora e o paralelo tá interessante.

✿ chica disse...

Acho que está sendo muito bem trazido o tema na novela! E teu texto, idem! abração,chica

Debora disse...

Olá Sérgio tudo bem???


Acho muito bacana a novela trazer essa realidade. Gosto bastante desse núcleo da novela.



Beijinhos;
Débora.
http://derbymotta.blogspot.com.br/

Bell disse...

É uma realidade que no dia a dia ainda é abordada com cautela.


bjokas =)

Germana Araújo disse...

Olá Sérgio!!
Tenho gostado bastante de A Força do Querer, é uma agradável surpresa. O drama da Ivana é, de longe, o que mais tem potencial e a forma como está sendo abordado, com sensibilidade, sem se atropelar (mas também sem se arrastar) é ótimo para chamar a atenção do público e despertar torcida pela personagem, assim como o destaque dado ao Nonato, que mostra outro ponto também muito pertinente, a ignorância sobre o assunto e a consequente intolerância.
O paralelo entre os dois é de fato uma forma muito eficiente de mostrar para o público o que acontece e acontecerá aos personagens e a Glória Perez é mestra em fazer isso: vale lembrar que em O Clone, por exemplo, as cenas da Mel (Débora Falabella) e do Nando (Thiago Fragoso) se envolvendo cada vez mais com as drogas eram quase sempre intercaladas com a terapia do Lobato (Osmar Prado), um ex-viciado que narrava, falando de suas experiências, as etapas que eles estavam passando e as consequências daquilo. Em Caminho das Índias a esquizofrenia do Tarso (Bruno Gagliasso) e a psicopatia da Yvone (Letícia Sabatella) também eram sempre "explicadas" pelo Dr. Castanho (Stênio Garcia) (embora aqui eu confesse que achava o texto didático e cansativo demais rs)
No mais, é isso. Abraços!!

Izabel Ramos disse...

O que importa é que a produção cultural e de entretenimento tem o poder de ajudar as pessoas a terem compaixão por circunstâncias que outrora seriam apenas rejeitadas veementemente. Afinal, empatia é uma das importantes ligas sociais que nos mantém em sociedade.

Oathkeeper disse...

Será que o pai do Fiuk, casado com um ícone da moda, não encheria seu filho trans de porrada para ele aprender a ser mulher? Esse é um cenário de novela que, infelizmente, vai demorar a ser quebrado. O de que os ricos lidam com suas questões no psicólogo, sem violência física, e os pobres não sabem conversar, partem logo para a ignorância.

Vittoria Nascimento disse...

Se a melhor trama da novela não é a dá Ivana eu não sei de mais nada! Mais um texto ótimo como sempre <3

P.S.: tu começou a me notar no Twitter, adorei haushaushaish

Adriana Helena disse...

Sérgio, boa noite, que narrativa fantástica!

Silvero Pereira e Carol Duarte , estes são os nomes de uma nova safra de atores maravilhosos!!
Estou encantada com a interpretação de ambos, principalmente da menina tão linda e frágil como a Carol em um personagem tão forte e intenso!! Uauuu, as cenas dela chegam a arrepiar!!

Parabéns amigo, mais uma vez arrasou na comparação!!
Tenha uma semana maravilhosa.
Beijos! :))))

Anônimo disse...

Texto esclarecedor o seu!

Izabel Ramos disse...

A personagem transexual Ivana mostrando na novela A Força do Querer um de seus piores conflitos: a descoberta da não identificação com sua condição feminina.
Diferente do personagem Nonato, Ivana representou para muitos brasileiros ontem o que uma pessoa transgênera passa até se entender como tal.
De qualquer forma, quando falamos em transexualidade logo pensamos em mudanças radicais, em grandes transformações, não somente da estética do corpo, mas de posicionamento na sociedade.

Anônimo disse...

O drama de Ivana realmente é comovente e Carol Duarte vem sabendo aproveitar bem.

Se não assistiu, aconselho a assistir o filme A Garota Dinamarquesa, que conta a história, baseada em fatos reais, do primeiro homem no mundo a fazer uma cirúrgia para retirar seu órgão e se tornar mulher. O filme é muito bom, muito mesmo.

Gustavo Nogueira disse...

Concordo totalmente Sérgio.A trama da Ivana é realmente a melhor trama da Ivana e as cenas dela intercaladas com o Nonato foi uma ótima sacada da autora.Que bons personagens e que ótimas interpretações dos atores!Carol Duarte me surpreendeu, é a revelação do ano!Parece que a Glória Perez aprendeu com seus erros e está acertando em A Força do Querer tirando aquela chatice de temas estrangeiros e o excesso de personagens.Mas mesmo com menos personagens, alguns atores estão com personagens sem função e que só servem de orelha como Giselle Fróes, Elizangêla, Lua Blanco e Pedro Nercessian.

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Debora.

Sérgio Santos disse...

Mt corajosa, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Obrigado, Chica.

Sérgio Santos disse...

Tb acho, Debora.

Sérgio Santos disse...

Exato, Bell. bjs

Sérgio Santos disse...

Excelente comentário, Germana, e ótimas lembranças. Em Caminho das Indias eu detestava isso pq era didatismo puro mesmo, mas em O Clone foi outro acerto. Mt bon . bjssss

Sérgio Santos disse...

Boa observação, Izabel.

Sérgio Santos disse...

Impossivel saber, Oath.

Sérgio Santos disse...

Vittoria, eu sempre costuma responder todo mundo no Twitter. Vc talvez não falasse comigo antes. bjssss

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado pelo carinho de sempre, Adriana. Bjão!!!

Sérgio Santos disse...

Fico feliz, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Sem duvida, Izabel.

Sérgio Santos disse...

Não vi, mas preciso ver esse filme mesmo, anonimo. Só elogiam.

Sérgio Santos disse...

É verdade, Gustavo. Boa observação.