terça-feira, 24 de março de 2026

Laurinha Figueroa foi uma das vilãs mais emblemáticas da teledramaturgia

 A reprise de "Rainha da Sucata" no Vale a Pena Ver de Novo, em plena reta final, oferece uma oportunidade de revisitar uma das vilãs mais icônicas da teledramaturgia brasileira, Laurinha Figueroa, e reconhecer a magnitude da interpretação de Gloria Menezes. Laurinha não é apenas má; ela é essencialmente cruel, preconceituosa, racista e elitista, encarnando os vícios e contradições de uma elite marcada pelo poder e pela hipocrisia. A personagem se despediu da trama no capítulo emblemático reexibido nesta terça-feira (24/03).


O único traço de humanidade de Laurinha reside no amor pelo enteado Edu (Tony Ramos), sentimento que rapidamente se transforma em obsessão e catalisa muitas das ações mais perversas de Laurinha, revelando uma complexidade emocional rara para uma vilã da época. O autor Silvio de Abreu fez uma construção hábil.

Mesmo inserida em um enredo maniqueísta, Laurinha apresenta sutilezas que a engrandecem. Cada gesto calculado, cada olhar desconfiado, cada pausa estratégica expõe camadas de vulnerabilidade, frustração e desejo de controle.

É essa riqueza de nuances que permite à vilã transcender a caricatura e se tornar uma figura memorável, capaz de fascinar o público e permanecer viva na memória coletiva décadas depois.

Gloria Menezes encontra nessa personagem um palco perfeito para seu talento. Mestre em equilibrar teatralidade e profundidade psicológica, a atriz transforma Laurinha em algo mais do que vilania: ela a eleva à categoria de ícone. Cada cena é um estudo de interpretação, no qual Menezes imprime elegância, força dramática e sutileza emocional, consolidando Laurinha Figueroa como uma das vilãs mais memoráveis da televisão brasileira e reafirmando a própria carreira da atriz como uma das mais brilhantes da teledramaturgia.

Entre os momentos mais icônicos da novela está a sequência em que Laurinha se joga do topo de um prédio na Avenida Paulista para se vingar de Maria do Carmo (Regina Duarte). A cena se tornou um marco da televisão, combinando tensão narrativa, impacto visual e teatralidade, e entrou para a história da teledramaturgia como uma construção dramática emblemática. O sincronismo perfeito com o restante da narrativa reforça a ousadia da direção e a intensidade da vilã, tornando o momento inesquecível, além de ousado por se tratar de um suicídio utilizado como elemento catártico, algo quase impensável hoje em dia.

A reprise, porém, expôs as limitações do enredo. O início confuso e apressado da trama ---- crítica que já existia na exibição original de 1990 ---- prejudicou o ritmo e a introdução dos personagens. Além disso, muitos elementos do enredo se mostram datados, seja nas referências culturais ou nos estereótipos que refletem padrões sociais da época. Ainda assim, o grande mérito da reexibição é permitir que o público contemple novamente a atuação magistral de Gloria Menezes, reforçando por que Laurinha Figueroa permanece entre as vilãs mais lembradas da televisão brasileira.

Laurinha Figueroa é mais do que antagonista: é símbolo da força que personagens bem construídos têm de atravessar gerações. Ela demonstra que vilania, quando combinada com nuances psicológicas e interpretação de alto nível, pode se tornar arte. E Gloria Menezes, ao dar vida à vilã, mostra que presença de palco, domínio da cena e sutileza emocional podem transformar um papel em um ícone eterno da televisão.

Rever Laurinha hoje não é apenas um exercício nostálgico; é uma oportunidade de apreciar a grandeza da teledramaturgia brasileira, o talento de uma atriz veterana e a construção de uma personagem que permanece viva na memória coletiva, prova de que certas interpretações, certas vilãs, jamais envelhecem.

Um comentário:

João Pedro Ferreira Martins disse...
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