quinta-feira, 9 de abril de 2026

"Três Graças" prova que o público está sempre pronto para uma boa cena de surra

 A novela "Três Graças" acerta em cheio ao resgatar um elemento clássico da teledramaturgia: o confronto físico como ápice catártico de uma rivalidade bem construída. A sequência em que Gerluce, vivida por Sophie Charlotte, finalmente estapeia a vilã Arminda, de Grazi Massafera, não é gratuita nem apelativa e, sim, consequência dramática de uma escalada de violências emocionais, morais e até criminais.


Há tempos parte da crítica torce o nariz para esse tipo de recurso, sob o argumento de que ele contraria uma desejável sororidade feminina. Mas "Três Graças" demonstra que uma coisa não anula a outra. Aqui, não se trata de mulheres disputando um homem ----- Arminda, aliás, jamais demonstrou interesse por Paulinho (Rômulo Estrela). O embate nasce de algo muito mais grave: as consequências do esquema de remédios falsos comandado por Ferette, papel de Murilo Benício, que quase custou a vida de Lígia (Dira Paes), mãe da protagonista.

Somam-se a isso as humilhações constantes sofridas por Gerluce dentro da casa da vilã, enquanto cuidava de Josefa (Arlete Salles), e, sobretudo, o ato imperdoável de Arminda ao tentar matar Joelly (Alana Cabral), empurrando-a da escada durante a gravidez.

Esse histórico torna cada tapa desferido no escritório — logo após mais uma ameaça — uma resposta dramática proporcional. É a ficção cumprindo seu papel de oferecer ao público uma espécie de justiça emocional que a realidade tantas vezes nega.

A cena posterior, na prisão, em que Gerluce puxa os cabelos de Arminda através das grades, arrancando um tufo, reforça esse efeito catártico. Não há ali glamourização da violência, mas sim a materialização de um limite atingido. O público não assiste apenas a uma agressão: assiste ao colapso de uma personagem que foi levada ao extremo.

Curiosamente, enquanto alguns críticos classificam tais momentos como “datados”, o que se vê é justamente o contrário: a escassez desse tipo de clímax na dramaturgia recente tem deixado lacunas de frustração. Um exemplo claro foi "Garota do Momento", de Alessandra Poggi, em que Beatriz (Duda Santos) suportou uma sucessão de humilhações e ataques racistas vindos de Bia (Maisa) sem jamais reagir fisicamente. A decisão de blindar a vilã ---- inclusive com uma condição cardíaca conveniente ---- pode ter sido bem-intencionada, mas resultou em um desfecho emocionalmente insatisfatório para o público, que teve de engolir a ausência de reparação dramática.

O mesmo problema aparece no remake problemático de "Vale Tudo", em que Raquel, interpretada por Taís Araújo, teve direito a apenas um mísero tapa contra Odete Roitman, vivida por Débora Bloch. Mais do que a economia no confronto, o que pesou foi a fragilidade de uma protagonista com trajetória mal construída, envolta em uma glamourização da pobreza que esvaziou o impacto dramático de suas vitórias e enfrentamentos. Sem uma base sólida, até mesmo o momento de confronto ---- que deveria ser explosivo ---- soa protocolar, quase tímido, incapaz de mobilizar plenamente o público.

Em contraste, os autores Aguinaldo Silva, Virgilio Silva e Zé Dassilva entendem que clichês não são problemas em si e, sim, ferramentas. Quando bem utilizados, como no flagrante de Zenilda (Andreia Horta) pegando Ferette e Arminda na cama e partindo para cima dos dois, eles se tornam momentos de comunhão entre narrativa e audiência. São cenas que geram repercussão, conversa e, acima de tudo, envolvimento.

Já passou da hora de abandonar certo moralismo que tenta higienizar a ficção. A teledramaturgia não precisa abrir mão de seus elementos mais populares para ser relevante. Desde que haja construção, coerência e propósito, cenas de confronto físico ---- por mais “clichês” que sejam  ---- continuam não apenas válidas, mas necessárias. Em "Três Graças", elas não rebaixam a narrativa, elevam-na ao que ela tem de mais essencial: a capacidade de fazer o público sentir, vibrar e, sim, lavar a alma.

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