sexta-feira, 17 de julho de 2015

Com "A Vida da Gente" e "Sete Vidas", Lícia Manzo comprovou que sabe retratar com maestria a alma humana

O Brasil sempre teve grandes autores de novelas. Tanto que o folhetim virou uma das grandes marcas do país, sendo referência em vários lugares do mundo. A Globo exporta produções com grande facilidade e as histórias já foram traduzidas em diversos idiomas. Uma das receitas deste sucesso é a pluralidade do time dos escritores. Cada um tem características específicas, o que implica na identidade de sua obra. E, mesmo tendo escrito apenas duas novelas, pode-se afirmar que Lícia Manzo vem se destacando neste cenário da teledramaturgia.


A autora (que também é atriz, diretora, produtora e roteirista) já colaborou em vários episódios do extinto "Sai de Baixo", escreveu, em parceria com colegas, uma temporada de "Malhação" (2003/2004) e estreou como titular na linda série "Tudo Novo de Novo", em 2009, sendo supervisionada por Maria Adelaide Amaral. Mas foi em 2011 que Lícia se tornou mais conhecida do grande público em virtude da impecável "A Vida da Gente", sua primeira novela. Ela emocionou o telespectador com uma história extremamente delicada e dramática. E se ainda havia alguma dúvida do seu talento, a mesma foi aniquilada depois de quatro anos. Afinal, a escritora voltou a sensibilizar com a linda "Sete Vidas", terminada recentemente (primeira semana de julho).

Não é qualquer autor que consegue retratar a alma humana tão bem quanto Lícia. Seu estilo lembra muito o de Manoel Carlos, uma vez que também costuma utilizar as situações cotidianas para desenvolver a história e seus personagens são quase todos de classe média. Outra semelhança é a ausência de núcleo cômico, focando somente nos dramas. Porém, a autora tem uma sensibilidade maior para a abordagem das relações.
E a humanidade presente em cada perfil acaba com qualquer tipo de maniqueismo, o que provoca uma maior identificação, tanto nas brigas e nos sofrimentos, quanto nos envolvimentos amorosos. Não há o lado certo ou o errado e sim acertos e equívocos de todos.

Em "A Vida da Gente", a escritora arrebatou o público com a envolvente história de Ana (Fernanda Vasconcellos), Manu (Marjorie Estiano) e Rodrigo (Rafael Cardoso). As duas eram irmãs e cúmplices, enquanto o rapaz era praticamente um irmão de criação, pois cresceu com elas. Ele e Ana acabam se apaixonando, mas não conseguem ficar juntos por causa da desavença dos pais (Eva - Ana Beatriz Nogueira, mãe dela, e Jonas - Paulo Betti, pai dele). A menina engravida e se vê obrigada pela mãe a ter o bebê fora do país para não prejudicar sua carreira no tênis. Ana só conta a verdade para Manu e tempos depois volta ao Brasil com a criança, resolvendo fugir com a irmã (que sempre foi rejeitada por Eva), após inúmeras desavenças familiares.

Só que um grave acidente de carro na estrada causa uma tragédia: a tenista entra em coma e Manu fica responsável pela criação de Júlia ao lado de Rodrigo e Iná (Nicette Bruno), sua doce avó. Esta aproximação com o irmão de criação, que quase foi seu cunhado, faz surgir um lindo sentimento entre eles. Os dois constroem uma linda história de amor através da dor da 'perda' e da cumplicidade. Mas tudo vira de cabeça para baixo quando Ana acorda do coma. A história foi impecável e avassaladora. Foi impossível não mergulhar naquele enredo e não se colocar no lugar de cada um. A autora conseguiu criar uma trama lindíssima e repleta de dramaticidade. Não por acaso, o público se viu envolvido e houve uma divisão de torcidas em relação aos casais, provocando várias discussões sobre as atitudes dos personagens. Vale citar que a novela foi exportada para mais de 100 países e está em quarto lugar na lista de mais vendidas da Globo (atrás apenas de "Avenida Brasil", "Da Cor do Pecado" e "Caminho das Índias").

Já em "Sete Vidas", Lícia optou por mostrar a construção da relação entre sete irmãos, onde cinco deles eram fruto de uma inseminação artificial. E o doador era justamente um sujeito repleto de complexidades, que apresentava sérias dificuldades de se relacionar com o outro. Todos aqueles personagens pareceram tão familiares que foi praticamente impossível não mergulhar naquela história e viajar junto com aqueles perfis tão distintos e semelhantes ao mesmo tempo. Miguel (Domingos Montagner), Lígia (Débora Bloch), Júlia (Isabelle Drummond), Pedro (Jayme Matarazzo), Bernardo (Ghilherme Lobo), Laila (Maria Eduarda de Carvalho), Joaquim, Luís (Thiago Rodrigues) e Felipe (Michel Noher) formaram uma família que foi se juntando aos poucos, à medida que iam se conhecendo e enfrentando seus problemas. A saga destas pessoas foi arrebatadora e muito envolvente.

Assim como na trama anterior da autora, houve um triângulo amoroso entre irmãos (Júlia, Pedro e Felipe) que dividiu torcidas, uma vez que santos e pecadores inexistiam. Todos eram culpados e inocentes, enquanto tentavam driblar as armadilhas que a vida tinha preparado para eles. Toda a angústia vivida por Miguel pôde ser sentida ao longo da novela e quando o protagonista conseguiu finalmente se livrar dela, dando um fim nas lembranças traumáticas de seu passado, se viu livre para ir atrás do seu merecido final feliz com seu grande amor e seus sete filhos. As cenas finais, com todos reunidos no barco do navegador e protagonizando momentos de pura intimidade familiar, foram emocionantes e encerraram a trama de uma forma linda. Desfecho tão delicado, aliás, quanto o de "A Vida da Gente", mostrando Ana, Lúcio, Manu, Rodrigo e Júlia passeando felizes, de mãos dadas, após tantos conflitos pesados e dramas complicados.

Lícia Manzo é uma autora que consegue explorar todas as complexidades das relações sem descambar para o exagero e nem para o maniqueismo, onde existe um lado certo e outro errado. Ela expõe a alma humana com extrema competência e seu principal método é a emoção. "A Vida da Gente" e "Sete Vidas" comprovaram não só o talento da escritora ---- que cria diálogos memoráveis ----, como também o seu dom de sensibilizar através das sutilezas de seus personagens e do imenso realismo de suas histórias. Resta torcer para que não fique afastada por muito tempo e que volte logo de suas merecidas férias, pois o público sempre necessita de obras tão bonitas quanto as suas.

36 comentários:

Ernane disse...

Que texto bom! Ainda ajudou a matar as saudades!

Melina disse...

Sérgio, querido, que saudade da novela. Foi linda mesmo e queria ter acompanhado A Vida da Gente porque são só elogios. Lícia é uma autora sensível e que sabe mesmo retratar a nossa alma. Pro bem ou pro mal. Quero a autora de volta logo! Que grata surpresa esse seu texto exatamente uma semana depois do fim de Sete Vidas! Adorei. Um beijo.

Anônimo disse...

Duas novelas primorosas! E nem sabia que ela havia escrito essa série Tudo Novo de Novo. Agora entendo pq eu me emocionava tanto! Que texto bom o seu!

Fernanda disse...

Estou com uma saudade tão grande. E lendo sobre A Vida da Gente fiquei com uma saudade ainda maior das duas! Essa autora deveria ser psicóloga porque entende do ser humano e vc fez um arranjo ótimo sobre toda a trajetória dela. Vamos torcer mesmo para que ela volte logo!

Yasmin disse...

AI QUE SAUDADINHA!!!!!! Essas novelas foram lindas! Prefiro A Vida da Gente, mas Sete Vidas foi perfeita também. A série eu não vi, infelizmente. Adorei esse texto fazendo um compilado das duas novelas e como a autora conduz bem suas histórias!

Roberto disse...

Essa autora merecia um post pra ela mesmo.O texto dela é magnífico e a gente se enxerga naquelas pessoas que ela cria. Dá pra ver que tem vivência.

OX disse...

Lícia Manzo, que grande autora! E acho melhor que o Manoel Carlos,com todo o respeito que tenho por ele. Lícia sabe tocar através da delicadeza e o Maneco não consegue muito isso, ele é mais do cotidiano e dos dramalhões exagerados. Sem demérito. A Vidada Gente e Sete Vidas foram duas obras primas e fiquei feliz em saber que a primeira é um sucesso de exportação. Mais de 100 países? Incrível. Abraço!

Felisberto N. Junior disse...

Olá,Sérgio,Parabéns à Lícia Manzo , justa homenagem, não é fácil , e com talento, retratar a alma humana, ainda mais sem maniqueísmo e exagero, pois essa vive intrinsecamente em conflito, complexa, recheada de emoções...agradecido pelo carinho, feliz finde, belos dias,abraços!

Roberta Ribeiro disse...

Que saudades dos seus textos em particular me toca bastante porque te conheci justamente na Vida da Gente .
Vamos ver como vai ficar Alem do Tempo :)umn bj.

Rafaela disse...

Essa autora é maravilhosa. Sou apaixonada e me encantei com A Vida da Gente. Depois que soube que ela faria outra novela fiz questão de assistir. Aí veio Sete Vidas e me encantou de novo! Chorei com as duas novelas e me emocionei com esse seu texto sobre ela. O seu talento para a escrita também fica explícito a cada postagem!

Vera Lúcia disse...


Olá Sérgio,

Não sabia que "A Vida da Gente" é de autoria de Lícia Manzo. Não acompanhei esta novela, mas cheguei a ver vários capítulos. Pelo que vi do enredo de "Sete Vidas" pude perceber o talento e sensibilidade da Autora. Gostei muito do estilo dela, que escreve diálogos que envolvem, encantam e emocionam.

Parabéns pelo excelente texto e ótimas considerações.

Belo domingo.

Abraço.

MARILENE disse...

Sergio, você fez uma linda homenagem a ela, com sua postagem. Realmente, esses dois trabalhos merecem aplausos. As duas novelas prenderam a atenção pela forma como foram conduzidos os fatos, sempre evidenciando o lado sensível e emocionando. Bjs.

Lulu on the sky disse...

Oi Sérgio,
Eu achei essa novela Sete Vidas até melhor do que a Vida Gente. Me identifiquei com várias cenas e chorava com o que os personagens diziam sobre relacionamentos.
Bom domingo
Big Beijos
Lulu on the Sky

Liveware Lu disse...

A Vida Da Gente e Sete Vidas são duas novelas que ficarão marcadas na nossa memória, como não esquecer do final surpreendente de A Vida Da Gente, da cena do discurso da Ina seguido dos finais de todos os personagens no embalo da musica Oração ao Tempo, tempo, tempo, tempo... Fiquei muito dividida se Rodrigo tinha que ficar com Ana ou Manu e pela logica dos finais tradicionais achei que a autora optaria por Ana, de todas formas qualquer final teria ficado ótimo. Em Sete Vidas nao cheguei a ficar bastante dividida como em A Vida Da Gente e era visivel que Ligia e Julia terminariam com Miguel e Pedro mas a trama foi muito mais do que uma torcida de casais, cada personagem foi muito bem trabalhado sem falar nos 7 irmãos e os personagens secundarios. As cenas finais ao som de Blowin in the Wing e What a Wonderful World foram também muito marcantes assim como foi com as cenas finais de A Vida Da Gente. A única coisa que me deixou triste foi o fato de Bernardo não ter terminado com Elisa, isso sim me deixou chocada, pobre Bernardo, mas infelizmente faz parte da vida. Que venham mais novelas como A Vida da Gente e Sete Vidas.

Luma Rosa disse...

Oi, Sérgio!
A Lícia Manzo tem o poder de criar tipos apaixonantes. Sinto não ter assistido a novela! Uma amiga está de luto pq a novela acabou... e disse que queria estar no meio dela e ser amiga dos personagens. Queria ouvir broncas da Laila, queria cuidar do Bernardo, brigar com o Pedro, consolar a Júlia, viajar com o Felipe, casar com o Luís... :)
Merece o Emmy!!
Beijus,

Elvira Akchourin do Nascimento disse...

Realmente, Lícia Manzo aposta na inteligência e sensibilidade do público, o que muitos dramaturgos não fazem. Não importa a audiência,mas,sim,a qualidade dos seus textos,sempre emocionantes.

Anônimo disse...

Adorei o texto zamenza, essas duas novelas foram marcantes demais, torço muito para algum dia ver Licia Manzo no horario nobre mas é provavel que isso demore, suas novelas nao podem ser muito longas e mesmo ela dizendo nao ter interesse nesse horario muita coisa pode rolar ate lá ne. Maria Adelaide do Amaral tambem disse que nunca escreveria para o horario nobre e eu jamais imaginei a autora nesse horario, fiquei ate surpresa quando a globo escalou ela. Mas espero que Licia nao demore muito a voltar, seja em novela ou minisserie nao importa o horario.

F Silva disse...

Algo a comentar...

Concordo com cada linha desse post.

Sérgio, tomara mesmo que a Lícia volte em breve para nos presentear com suas personagens e histórias lindas de acompanhar.

Já notou que ela faz Merchandising Social com grande estilo e sabe tratar de temas polêmicos sem gerar polêmica?

abraços...

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Ernane. Abçs!

Sérgio Santos disse...

Que saudades, Melina. E eu tenho certeza que vc iria amar AVDG. Achei até melhor que Sete Vidas. Mas sinto mta faltas das duas. bjs

Sérgio Santos disse...

Essa série era linda, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Fernanda. E Licia teria vocação pra psicologia mesmo. Ela sabe ver como somos. Saudades das duas msm e tb torço para que volte logo! Bjs

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Yasmin. bjs

Sérgio Santos disse...

Dá pra ver mesmo, Roberto.

Sérgio Santos disse...

Pois é, OX, AVDG já foi vendida para mais de 100 países e merecidamente. Novelão. Lícia é uma autora fantástica. Abçs

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Felis. E é verdade. abçs

Sérgio Santos disse...

E eu tava com saudade de vc, Roberta. =) Bjão!

Sérgio Santos disse...

Nossa, mt obrigado, Rafaela. Fiquei mt feliz ao ler isso. bjs

Sérgio Santos disse...

Obrigado, Vera. Pois é, duas novelas primorosas. Lícia é show. Bjs

Sérgio Santos disse...

Ela merece, Marilene. Bjssss

Sérgio Santos disse...

Eu já acho o contrário, Lulu, mas adorei as duas. Bjsss

Sérgio Santos disse...

Excelente comentário, Livewere Lu. Eu já era Team Manu com louvor. E nem cogitei Rodrigo ficar com Ana pq o desenrolar da trama deixou bem claro que ele ficaria com a Manu. Assim como agora ficou claro que Ligia e Miguel ficariam juntos, assim como Julia e Pedro. Mas em ambos os casos as torcidas se dividiram . O fim de AVDG foi lindíssimo mesmo e me emocionei. O msm vale pro desfecho de SV. Bjão!

Sérgio Santos disse...

Embora não tenha o 'estilo de uma produção de Emmy, merece mesmo, Luma. E eu entendo esse luto da sua amiga pq é o msm do meu. Licia cria tipos apaixonantes realmente. b js

Sérgio Santos disse...

Perfeito, Elvira!

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, Anonimo. E estou de pleno acordo com seu comentário. Tb torço por uma novela no horário nobre, mas deve demorar msm.

Sérgio Santos disse...

Mt obrigado, F Silva. E notei sim. Ela é boa demais! bjs