Em tempos em que o humor do Multishow parece presa a fórmulas desgastadas e personagens caricatos (levando em conta também que o humor da televisão aberta praticamente nem existe mais), "E.T: Edu & Tatá", surgiu como uma agradável exceção. A atração, que marcou o reencontro de Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck (após o sucesso de "Shippados", em 2019), chegou ao fim após apenas dez episódios, mas deixou uma certeza: ainda existe espaço na televisão para o humor imprevisível, anárquico e genuinamente criativo.
Exibido entre 19 de maio e 19 de junho, sempre às terças e quintas-feiras, o programa apostou em uma proposta simples e ao mesmo tempo ousada: abandonar qualquer compromisso com a lógica. O slogan "tem tudo, menos sentido" não era apenas uma frase de efeito. Em cada episódio, Tatá e Edu mergulhavam em um universo caótico onde a única regra era fazer rir, inclusive eles mesmos.
Ao longo da temporada, os dois interpretaram mais de 200 personagens em esquetes que transitavam entre a paródia, o nonsense e o improviso. E é justamente nesse improviso que reside a grande força de "E.T.".
A sensação constante era a de estar assistindo a dois humoristas brincando sem amarras, exatamente como acontecia no início de suas carreiras. Não havia preocupação excessiva com acabamento, perfeição ou correção. O importante era a espontaneidade. E ela transbordava da tela.A direção de Joana Clark e Rafael Queiroga compreendeu perfeitamente a natureza da dupla. Em vez de tentar controlar o caos criativo dos humoristas, os diretores abraçaram a proposta e permitiram que ela florescesse. O resultado foi um programa que parecia estar permanentemente à beira do colapso e justamente por isso funcionava tão bem.
Os convidados também entraram na brincadeira sem qualquer vaidade. Nomes como Angélica, Fátima Bernardes, Pedro Bial, Paola Carosella, Milton Cunha, Nicole Bahls e Rodrigo Lombardi mostraram uma disposição admirável para participar das situações mais absurdas imaginadas pelos apresentadores. A presença deles ajudava a ampliar ainda mais a sensação de imprevisibilidade que dominava cada episódio.
Mas o grande trunfo da atração era, obviamente, a química entre Tatá e Edu. Poucos humoristas brasileiros possuem uma sintonia tão natural. Frequentemente os dois abandonavam os personagens porque simplesmente não conseguiam conter o riso. Muitas vezes as gargalhadas fora de personagem eram ainda mais engraçadas do que as próprias esquetes.
Entre os momentos mais memoráveis da temporada está a impagável imitação de Sandra Annenberg feita por Tatá Werneck. É difícil lembrar de uma representação tão igual do tom de voz e das pausas da jornalista. Ao lado dela, merece destaque a interpretação de Ernesto Paglia por Eduardo Sterblitch, cuja principal missão era desmontar completamente a colega em cena. O resultado eram sequências hilárias que frequentemente terminavam com ambos incapazes de continuar a esquete.
O retorno de personagens clássicos de Sterblitch, como Fred Mercury Prateado, Melhor do Melhor do Mundo e Poderoso Castiga, também reforçou a sensação de reencontro com uma fase do humor brasileiro que parecia esquecida. Havia em "E.T." um espírito que remetia aos tempos da MTV, quando programas como "Comédia MTV", "Quinta Categoria" e até mesmo o humor escrachado de "Hermes e Renato" apostavam na liberdade criativa acima de qualquer preocupação comercial.
Curiosamente, o orçamento enxuto nunca representou uma limitação. Em uma época em que muitas produções tentam compensar a falta de boas ideias com cenários e efeitos, "E.T." demonstrou que o elemento mais importante do humor continua sendo o talento de quem está em cena. Mesmo recorrendo ocasionalmente à inteligência artificial em algumas esquetes, o programa jamais perdeu sua essência artesanal. As propagandas fictícias, os quadros improvisados e as situações absurdas confirmavam que a criatividade da dupla era mais valiosa do que qualquer investimento milionário.
Talvez a melhor definição para "E.T." seja a de um "sopro de novidade nostálgica". Parece contraditório, mas faz sentido. O programa resgatava uma forma de fazer humor que parecia ter desaparecido da televisão brasileira, ao mesmo tempo em que a apresentava com uma energia contemporânea. Era velho e novo ao mesmo tempo. E isso combina perfeitamente com o DNA de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch.
Com direção de gênero de Patricia Pedrosa, produção de Bruna Zimbrão e produção executiva de Claudio Dager, "E.T." encerra sua primeira temporada sem planos concretos para uma continuação. A própria natureza improvisada do projeto dificulta qualquer planejamento a longo prazo. Ainda assim, fica a impressão de que existe potencial de sobra para novos episódios.
Se a televisão brasileira pretende continuar apostando em formatos capazes de surpreender o público, seria um desperdício deixar essa nave estacionada. Porque, durante um mês, "E.T." lembrou algo que muitos programas de humor parecem ter esquecido: rir do absurdo ainda é uma das coisas mais divertidas que existem.
Um comentário:
Para quem como eu, vi todos os grandes humorísticos de TV, começando lá atrás com Balança Mas Não Cai, o humor hoje é praticamente inexistente na TV, e o humor que ainda se faz no Multishow, acho muito chato, sem criatividade. Mas lendo o que você diz, acho até que vou dar uma chance para esses E.T..
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