quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Por Você" começa com o pé direito e mostra força para se firmar como um grande dramalhão das sete

 Estreada na última segunda-feira, 17 de agosto, na TV Globo, Por Você já deixa, em quase duas semanas, uma impressão bastante positiva. Criada e escrita por Dino Cantelli e Juliana Peres, com direção artística de André Câmara, a novela das sete encontrou rapidamente o tom que pretende seguir: um melodrama popular, emocional, bem amarrado e com personagens capazes de sustentar diferentes frentes narrativas.


A história de Bela (Sheron Menezzes) e Juli (Lucy Ramos) é o coração da trama. Amigas de infância e irmãs de coração, as duas construíram trajetórias muito diferentes, mas permaneceram profundamente ligadas. Enquanto Bela se tornou uma obstetra bem-sucedida e dedicada à profissão, Juli constituiu uma família e criou sozinha os quatro filhos, Peixe (Cauê Campos), Glorinha (Laura Luz), Ítalo (Fabrício Assis) e Samuca (Kadu Spinola).

O primeiro capítulo foi especialmente feliz ao apresentar esse universo. Bela, logo de cara, protagoniza um parto de emergência no corredor de um supermercado, situação que viraliza e evidencia seu olhar humanizado para a Medicina.

Ao mesmo tempo, a novela apresenta a relação das duas amigas, introduz os conflitos profissionais da protagonista e prepara a tragédia que mudará definitivamente sua vida.

E aqui está um dos grandes acertos dessa estreia: Juli morre no primeiro capítulo. Lendo a sinopse, poderia parecer uma decisão precipitada ou até mesmo uma maneira de acelerar artificialmente a história. Não foi. A morte aconteceu de maneira construída, emocional e coerente. O capítulo terminou com Juli na sala de operação, diante de Bela, fazendo seu último pedido: que a amiga cuide de seus filhos.

Fica, naturalmente, aquela sensação de “quero mais” em relação a Juli e à interpretação de Lucy Ramos. Mas justamente aí está a força da escolha. Se os autores prolongassem sua permanência apenas para evitar uma morte tão precoce, provavelmente perderiam o impacto daquela apresentação. A personagem cumpre, em pouco tempo, uma função dramática enorme e deixa uma marca que continuará presente justamente por meio dos quatro filhos e da promessa feita por Bela.

Mais importante ainda é que aquela boa impressão inicial não ficou restrita ao primeiro capítulo. Ao longo dos demais episódios, Por Você vem confirmando que havia planejamento por trás daquela estreia. A novela está expondo seus conflitos de maneira gradual, sem atropelar os acontecimentos, mas também sem cair naquela lentidão que tantas vezes prejudica as primeiras semanas de uma produção. Até aqui, o ritmo está no ponto certo.

O início da convivência entre Bela e os quatro filhos de Juli é um dos melhores exemplos disso. Existe estranhamento, há conflitos e situações inevitavelmente difíceis, mas tudo está sendo desenvolvido sem transformar a relação em uma mudança instantânea de comportamento. Bela não acorda de repente como mãe de quatro crianças, e os filhos também não passam a enxergá-la automaticamente como substituta da mãe. É uma relação que precisa ser construída, e acompanhar esse processo tem sido bastante gostoso de assistir.

Outro ponto que merece destaque é Vanessa, vivida por Alinne Moraes. A novela não teve pressa para simplesmente colocar uma vilã em cena e esperar que ela cometesse maldades. Existe um elo dramático muito rico entre Vanessa e Bela, o que torna a rivalidade mais interessante.

Vanessa estava grávida de um menino e perdeu a criança após um episódio provocado pelo próprio ciúme que sente da relação do marido com Bela. Mesmo em repouso absoluto, ela decidiu ir atrás de Gabriel, caiu da escada e sofreu o aborto. No hospital, porém, ela e a melhor amiga mentiram para Bela, afirmando que o sangramento havia começado espontaneamente. Pior: Vanessa ainda responsabilizou a obstetra pela perda.

A revelação em flashback funcionou muito bem porque não apareceu gratuitamente. Ela está diretamente ligada ao conflito envolvendo a sucessão do hospital. Pérola (Renata Sorrah), presidente da instituição, começa a questionar a capacidade da própria filha de assumir o comando definitivo do negócio depois de descobrir que Vanessa desviou recursos do setor de oncologia para financiar sua ala Premium Baby, voltada para mães de alto poder aquisitivo. E, diante disso, Bela passa a ser considerada uma possível sucessora.

É uma cadeia de acontecimentos muito bem amarrada: a rivalidade pessoal, a disputa profissional, o trauma da perda do bebê e a luta pelo poder dentro do hospital estão conectados. Vanessa, portanto, não é apenas uma antagonista que deseja prejudicar a mocinha. Ela tem motivações, contradições e um conflito familiar que pode render bastante.

Os núcleos paralelos também vêm mostrando potencial. A rivalidade entre os personagens de José de Abreu e Antonio Pitanga, donos de bares concorrentes, tem um sabor popular que combina muito com a faixa das sete. Da mesma forma, o filho do personagem de José de Abreu já desperta curiosidade por sua paixão platônica por Leandra (Giovanna Grigio), filha de Vanessa. A trilha escolhida para essas sequências ajuda a estabelecer um tom cômico leve e agradável, sem parecer deslocado da trama principal.

Até aqui, portanto, tudo parece caminhar de maneira bastante harmoniosa. Há drama, romance, humor, conflitos familiares, disputa por poder, tragédia e personagens populares. A novela sabe o que quer contar e, principalmente, parece saber o momento certo de contar cada coisa.

O único porém, infelizmente, não está relacionado aos autores, à direção de André Câmara, ao elenco ou à construção dos personagens. Está na questão orçamentária da Globo.

A redução de investimentos nas novelas da emissora já deixou de ser algo pontual e vem se tornando cada vez mais perceptível. Por Você não escapa disso. O excesso de chroma key em algumas cenas chama atenção e, em determinados momentos, tira parte da naturalidade que a produção deveria transmitir. A própria emissora chegou a publicar nas redes sociais uma cena de bastidores envolvendo esse recurso, aparentemente com a intenção de exibir o processo de produção, mas o efeito acabou sendo quase o oposto: evidenciou justamente a artificialidade do resultado.

O problema também apareceu na batida do primeiro capítulo, construída com CGI. A expectativa era grande quando se divulgou que o acidente seria gravado em uma externa na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, remetendo àquela tradição das grandes cenas externas da Globo. No entanto, a execução acabou entregando uma sensação de economia que interfere na experiência do público. O carro já estava posicionado para a gravação e a colisão propriamente dita não aconteceu diante das câmeras.

Pode parecer um detalhe, mas é justamente porque a Globo acostumou seu público durante décadas com um determinado padrão de produção que essas escolhas ficam tão evidentes. Não se trata de exigir que toda cena tenha proporções cinematográficas, mas de reconhecer que determinados momentos dramáticos pedem um grau maior de realismo. E esse é um problema que parece estar muito mais relacionado à atual política de contenção de custos da emissora do que à equipe responsável pela novela.

Felizmente, esse aspecto técnico não consegue apagar os méritos de Por Você. Pelo contrário: o mais impressionante é perceber que, mesmo diante de limitações visíveis de produção, a novela consegue se destacar pelo que realmente sustenta uma boa história: texto, direção, elenco, personagens e capacidade de criar envolvimento.

É claro que apenas uma semana é pouco para decretar o sucesso de uma novela. Ainda há muito para acontecer e algumas histórias sequer começaram a mostrar toda a sua força. Mas o início é dos mais animadores.

Por Você tem uma história central forte, uma protagonista carismática, uma antagonista com conflitos relevantes, bons núcleos paralelos e, sobretudo, um melodrama que não parece ter medo de assumir sua vocação popular. Se continuar mantendo esse equilíbrio entre emoção, humor, conflitos e ritmo, a novela tem todos os ingredientes para conquistar o público e se transformar em um dos bons dramalhões da faixa das sete.

Até aqui, o saldo é bastante claro: Por Você começou muito bem. E, mais do que uma boa impressão inicial, já dá sinais de que existe uma história consistente sendo construída

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