sexta-feira, 5 de junho de 2020

Os 20 anos de "Laços de Família"

Após o sucesso de "Por Amor" (1997), Manoel Carlos precisava encarar dois difíceis desafios: emplacar uma outra grande novela no horário nobre e ainda substituir o fenômeno "Terra Nostra" (1999), de Benedito Ruy Barbosa, que estava no ar até o final de maio. Apesar da nada simples nova empreitada, a missão foi cumprida com louvor através da envolvente e bem escrita "Laços de Família", folhetim que completa 20 anos hoje ----- estreou no dia 5 de junho de 2000 e ficou no ar até dia 2 de fevereiro de 2001. Foram 209 capítulos de um dramalhão de qualidade.


Dirigida por Ricardo Waddington, a novela conta a história do amor incondicional que uma mãe tem por sua filha. A mãe foi mais uma Helena do autor e interpretada muito bem por Vera Fisher. Já a filha, a mimada Camila, foi vivida por Carolina Dieckmann. A trama, ambientada no bairro do Leblon, começa às vésperas do Réveillon de 2000, com um pequeno acidente de trânsito envolvendo a protagonista e Edu (Reynaldo Gianecchini estreando na televisão), um médico recém-formado. Os dois têm uma discussão, mas depois vivem um intenso romance, que sofreu forte rejeição da tia do rapaz (Alma - Marieta Severo) por causa da diferença de idade ---- ele era vinte anos mais novo que ela.

Helena é uma empresária bem-sucedida, de 45 anos --- que tem outro filho além de Camila (um rapaz íntegro chamado Fred - Luigi Barricelli) ---, sócia de uma clínica de estética, e tem a fiel escudeira Yvete (Soraya Ravenle) como melhor amiga e confidente.
O culto Miguel (Tony Ramos) ----- dono da livraria Dom Casmurro e pai de dois filhos: a rebelde Ciça (Júlia Feldens) e o simpático Paulo (Flávio Silvino), que apresenta graves sequelas neurológicas após um desastre de carro que vitimou a esposa de Miguel ----- nutre uma paixão platônica pela protagonista e foi justamente em frente à livraria que Helena e Edu se conheceram por meio do acidente de trânsito.

Inicialmente, a história é voltada para o preconceito que Helena e Edu enfrentam diante da sociedade. E a principal opositora é a arrogante Alma, tia do rapaz, uma ricaça ironicamente casada com um homem bem mais novo (o galinha Danilo - Alexandre Borges). A poderosa mulher é proprietária de um haras, entregue aos cuidados de Pedro (José Mayer), homem rústico e primo de Helena, que é alvo da obsessão da ninfeta Íris (Deborah Secco), filha de Ingrid (Lilia Cabral) e Aléssio (saudoso Fernando Torres), pai de Helena.


A trama sofre uma primeira virada quando Camila e Edu começam a se envolver. O choque de ver a filha e o namorado apaixonados deixa Helena transtornada e a relação familiar sofre um forte baque, deixando o afeto de lado, cedendo lugar a constantes conflitos e embates pesados. As brigas entre mãe e filha eram fortes e a arrogância de Camila despertou a fúria do público que ficou do lado de Helena, repetindo uma situação que viraria uma constante nas obras de Maneco: as filhas das Helenas serem sempre odiadas, vide Joyce (Carla Marins), de "História de Amor" e Maria Eduarda (Gabriela Duarte), de "Por Amor".

Outra situação ótima que o conflito gerou foi o festival de ataques de Íris. A debochada garota passou a torturar Camila psicologicamente depois que tomou conhecimento do romance com Edu. Isso porque a jovem passou a morar com Helena depois de duas tragédias em sua vida: a morte do pai (em uma cena antológica protagonizada por Fernando Torres e Lilia Cabral ---- quando Aléssio falece sentado em uma cadeira, diante de sua esposa, deixando a bengala cair no chão) e o falecimento da mãe, vítima de um assalto ---- mais um momento chocante e emblemático do enredo.


Após muitos conflitos e brigas, Helena decide se afastar de Edu para que a filha seja feliz com seu ex. Para isso, aceita as investigas de Miguel e inicia um bonito romance com ele. Camila se casa com Edu, engravida e a felicidade domina a trama. Entretanto, uma nova virada promove uma sucessão de cenas emocionantes no folhetim de Manoel Carlos: Camila perde o bebê que esperava e descobre que tem leucemia. A partir de então um ciclo dramático se inicia, focando no amor incondicional que uma mãe tem por sua filha.

A sequência da raspagem dos cabelos de Camila, ao som de 'Love by grace' (Lara Fabian), entrou para a história da teledramaturgia e colocou Carolina Dieckmann em outro patamar na carreira. A cena antológica foi brilhantemente interpretada pela atriz e emocionou o Brasil. Todo o tratamento da doença foi minuciosamente explorado pelo autor e o grau de verossimilhança envolveu o telespectador do início ao fim.


A única chance de cura da personagem é um transplante de medula, mesmo depois de várias sessões de quimioterapia. O doador em potencial seria Fred, seu irmão. Porém, todos descobrem que eles não eram filhos do mesmo pai. Isso porque Helena mantinha em segredo o relacionamento que teve com seu primo, Pedro, anos atrás ---- o verdadeiro pai de Camila. Após a revelação, a protagonista abre mão mais uma vez da sua felicidade, se afasta de Miguel, e se envolve com Pedro para tentar engravidar e gerar um doador para a filha. Apesar da idade avançada para uma gravidez, Helena consegue atingir seu objetivo e a bebê (chamada de Vitória) nasce, realizando assim o transplante com sucesso.

Além da trama central emocionante e muito bem desenvolvida por Maneco, a novela apresentou várias outras histórias interessantes e que emplacaram. Por exemplo, a vida de Capitu (ótima Giovanna Antonelli), uma prostituta que sustenta os pais (Pascoal - Leonardo Villar e Ema - Walderez de Barros), o filho e paga sua faculdade com o dinheiro dos programas. A personagem ainda se envolve com Fred, despertando a fúria da arrogante Clara (Regiane Alves), esposa do filho de Helena. Destaque também para os vilões Orlando (Henrique Pagnocelli), ex-cliente obcecado por Capitu, e Maurinho (Luiz Nicolau), pai do seu filho. Sem dúvida, um dos melhores núcleos paralelos do folhetim. Capitu virou a mocinha da trama.


Havia também o romance quente protagonizado por Pedro e pela veterinária Cíntia (Helena Ranaldi), que transbordava química. Todavia, a situação renderia uma avalanche de críticas atualmente em virtude do desenvolvimento machista de Maneco. O domador de cavalos muitas vezes agarrava a colega à força. Ou seja, contextos que seriam enquadrados como assédio e abuso hoje. Outra trama que renderia uma forte rejeição era a comicidade de Danilo, o mulherengo marido de Alma, que engravida a empregada (Rita, estreia de Juliana Paes nas novelas). Todas as cenas colocadas como engraçadas em 2000 seriam vistas como assédio moral e sexual. A solução do autor também merece críticas: a doméstica morre no parto e Alma cuida da criança com Danilo. Final mais machista impossível. Muitos olhares mudaram em 20 anos, o que demonstra uma evolução da sociedade. Já o enredo da impotência de Viriato (Zé Victor Castiel), marido de Yvete, continuaria rendendo boas sequências, embora sem o mesmo humor da época. Hoje em dia serviria como alerta para homens que sofrem do mesmo problema.


O elenco era repleto de grandes nomes e todos os atores citados brilharam na história, inclusive Vera Fisher, que honrou a confiança do autor para viver a melhor Helena escrita por ele. Além dos profissionais já mencionados, é preciso destacar também Thalma de Freitas, Umberto Magnani, Xuxa Lopes, Eliete Cigarini, André Valli, Beatriz Lyra, Yara Lins, Lionel Fisher, Manoelita Lustosa, Alexandra Richter, Lavínia Vlasak e Marly Bueno. Vale lembrar ainda a memorável trilha sonora recheada de músicas que viraram a marca da história, como a já mencionada "Love By Grace", além de "Man I Fell Like a Woman" (Shania Twain), "Perdendo Dentes" (Pato Fu), "Corcovado" (a abertura com Tom Jobim, João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz), "Balada do Amor Inabalável" (Skank), "Spanish Guitar" (Toni Braxton), "Save Me" (Hanson), "Devolva-me" (Adriana Calcanhoto), entre tantas mais.


"Laços de Família" foi uma das novelas mais dramáticas e envolventes de Manoel Carlos. Quase todos os conflitos familiares foram brilhantemente bem elaborados e desenvolvidos com competência pelo autor, que estava inspirado quando produziu essa obra de tanta qualidade. A produção está entre os 50 títulos no catálogo que a Globoplay, serviço de streaming da Globo, passou a disponibilizar em junho. Em breve a produção poderá ser vista na íntegra. Mas, para comemorar esses vinte anos, a emissora deveria reprisá-la pela segunda vez no "Vale a Pena Ver de Novo" (a primeira foi em 2005 e a terceira no Viva em 2016), depois do término de "Êta Mundo Bom!".

23 comentários:

Anônimo disse...

Essa novela foi espetacular!!!

Caio disse...

Nossa é verdade as cebas do Pedro com a Cintia hoje em dia seriam vistas como estupro.

Anônimo disse...

Impecável como sempre, Sérgio, ao descrever essa novela como a melhor de Manoel Carlos em vários aspectos. Há muitas novelas que permanecem atuais mesmo com o passar dos anos, e com "Laços De Família" (2000) não poderia ser diferente. Seria muito digna uma re-reprise do folhetim no "Vale A Pena Ver De Novo" em virtude dos 20 anos de estreia.

Guilherme

Anônimo disse...

A melhor novela do Maneco e a melhor Helena. Regina Duarte sonha.

chica disse...

Por isso ficamos velhos...Já 20 anos!!! Foi muito legal essa novela! abração,chica

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Na minha humilde opinião, a melhor novela do autor neste milênio é Mulheres Apaixonadas. Nada contra Laços de Família que também foi uma ótima produção. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

Unknown disse...

Excelente novela com grandes atores, aliás Vera Fischer acaba de ser dispensada pela globo que absurdo a emissora deixar sua história de lado, como se já não bastasse terem demitido Stenio Garcia,José Mayer,Miguel Falabella e tantos outros.

Anônimo disse...

Que saudade e amei a ideia de vir depois de Eta Mundo Bom!

Anderson da Rosa disse...

Novela ótima.Muito antes da problematização de tudo.A sociedade evoluir sim,mas isso fez um grande mal para as novelas,mais da metade de novelas antigas hoje seriam julgadas por tramas homofóbicas,machistas e muitas outras coisas.Na época passou batido ,sem contar que não ter redes sociais ajudava muito,hoje qualquer cena rende horas de discussão na internet. Mas enfim foi uma ótima novela de uma época onde a TV era praticamente o único meio disponível e que faz falta,mas tenho medo de cortes na reprise,igual Por Amor.Depois de ver inteira no Viva deu até desgosto ver os cortes.

Anderson da Rosa disse...

Novela ótima.Muito antes da problematização de tudo.A sociedade evoluir sim,mas isso fez um grande mal para as novelas,mais da metade de novelas antigas hoje seriam julgadas por tramas homofóbicas,machistas e muitas outras coisas.Na época passou batido ,sem contar que não ter redes sociais ajudava muito,hoje qualquer cena rende horas de discussão na internet. Mas enfim foi uma ótima novela de uma época onde a TV era praticamente o único meio disponível e que faz falta,mas tenho medo de cortes na reprise,igual Por Amor.Depois de ver inteira no Viva deu até desgosto ver os cortes.

Anônimo disse...

só tenho três coisas para falar: novelão, novelão e .........................................................................................novelão

Anônimo disse...

Saudades desse Maneco, Sérgio, que escrevia novelas tão bem.

Sérgio Santos disse...

Foi, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Seriam, Caio.

Sérgio Santos disse...

Muito obrigado, Guilherme!

Sérgio Santos disse...

Concordo, anonimo.

Sérgio Santos disse...

O tempo voa, Chica.

Sérgio Santos disse...

Ok, Fabio. Discordo pq a Helena de Mulheres foi ofuscada.

Sérgio Santos disse...

Pois é, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Tomara, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Nem ttudo, Anderson.

Sérgio Santos disse...

Novelão, anonimo.

Sérgio Santos disse...

Depois se perdeu tanto, anonimo...