terça-feira, 14 de julho de 2026

"Você Decide" no "Domingão": uma ideia que nunca fez sentido

 A Globo parece determinada a colecionar decisões questionáveis nos últimos tempos. Depois da surpreendente escolha de abrir mão dos direitos de transmissão de todos os jogos da Copa do Mundo como forma de economizar dinheiro ---- uma economia cujos efeitos negativos ficaram evidentes no crescimento da CazéTV e no vácuo que abriu em sua programação no horário de partidas relevantes ----, a emissora agora aposta em mais uma ideia difícil de defender: ressuscitar o "Você Decide" como quadro do "Domingão com Huck".


O "Você Decide" foi um enorme sucesso na década de 1990. Em uma época em que a interatividade na televisão ainda engatinhava, o programa inovou ao apresentar uma história cujo desfecho era escolhido pelo público por meio de ligações telefônicas. Para isso, a produção gravava dois finais diferentes, algo impressionante para os padrões tecnológicos da época. Era uma proposta criativa, que ajudou a transformar a atração em um fenômeno.

Como acontece com tantos sucessos da TV, o programa saiu do ar, voltou anos depois em uma nova tentativa de emplacar, mas já não encontrou o mesmo público e acabou sendo encerrado definitivamente. Ou pelo menos era o que parecia.

Agora, a Globo resolveu trazê-lo de volta, mas da pior maneira possível: transformando-o em um quadro dentro do "Domingão com Huck". A decisão simplesmente não faz sentido.

Um programa de auditório precisa de ritmo, dinamismo e continuidade. Tudo isso vai por água abaixo quando Luciano Huck interrompe a atração para exibir uma história de cerca de meia hora, com produção simplificada e interpretações que, em alguns momentos, ficam abaixo da média. Quando a trama finalmente começa a criar algum envolvimento, ela é interrompida novamente para que Huck abra um debate com seus convidados e sua bancada fixa ---- formada por Dona Déa, Lívia Andrade, Rafael Portugal e Ed Gama.

O resultado é um longo bate-papo em que cada um dá sua opinião sobre o que deveria acontecer com os personagens. Depois, a plateia vota, o final escolhido é exibido e o quadro termina. Na prática, a dinâmica consegue prejudicar tanto o programa de auditório quanto o próprio drama. O "Domingão" perde seu ritmo natural, enquanto a história perde completamente a tensão ao ser interrompida justamente no momento em que deveria prender a atenção do público.

O problema não é o "Você Decide" em si, mas o contexto em que foi inserido. Um formato pensado para funcionar como programa independente dificilmente se adapta a um dominical de variedades sem perder sua essência. O resultado é uma mistura que não satisfaz nenhum dos dois públicos.

Nem toda nostalgia merece ser resgatada. Às vezes, o maior acerto é deixar um sucesso permanecer como parte da memória afetiva da televisão. A Globo, no entanto, parece cada vez mais disposta a apostar em soluções que olham para o passado sem entender por que elas funcionaram em seu tempo. E o novo Você Decide é mais um exemplo de que reviver um clássico não basta. É preciso encontrar um formato que faça sentido para os dias de hoje --- e, nesse caso, definitivamente não encontrou.

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