A morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, poucos meses depois da despedida de Manoel Carlos, representa mais do que a perda de um dos maiores novelistas da televisão brasileira. É o fim de uma geração de autores que escrevia a partir de um universo muito particular, reconhecível desde a primeira cena. Se Manoel Carlos eternizou o cotidiano da classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro, Benedito fez exatamente o oposto: transformou o Brasil rural em protagonista de suas histórias.
Num período em que boa parte da teledramaturgia caminhava para os grandes centros urbanos, ele insistiu em voltar os olhos para o interior. Fazendas, plantações, rios, peões, colonos, boias-frias, jagunços, coronéis e famílias divididas pela posse da terra nunca serviram apenas como pano de fundo. Em suas novelas, a terra era personagem. Produzia riqueza, despertava cobiça, separava famílias, alimentava lendas e moldava o destino de gerações.
Sua identidade autoral já estava evidente em Os Imigrantes, exibida pela Band entre 1981 e 1982, uma superprodução que retratava a formação do povo brasileiro a partir das ondas migratórias.
Poucos anos depois, Benedito escreveria uma das maiores revoluções da história da televisão nacional com Pantanal, na extinta Rede Manchete. A novela mostrou que era possível enfrentar a hegemonia da Globo apostando em locações naturais, fotografia cinematográfica e uma narrativa contemplativa, onde o silêncio dizia tanto quanto os diálogos.Foi ali que surgiram personagens inesquecíveis como Juma Marruá (Cristiana Oliveira) e Velho do Rio (Cláudio Marzo), figuras que entraram definitivamente para o imaginário popular. Ao mesmo tempo, Benedito consolidava uma característica que marcaria praticamente toda a sua obra: a convivência entre realidade e misticismo. O Velho do Rio, as lendas pantaneiras e até o famoso diabinho preso na garrafa, figura recorrente em novelas como Renascer e Paraíso, nunca eram simples elementos sobrenaturais. Eram expressões da religiosidade popular, das crenças do homem do campo e da tradição oral do interior brasileiro.
Essa mistura alcançou seu auge em Renascer. O jequitibá onde José Inocêncio (Antonio Fagundes) fincava seu facão transformou-se em um dos maiores símbolos da teledramaturgia nacional, representando poder, ancestralidade e a ligação quase espiritual entre o homem e a terra. Na mesma novela, Benedito surpreendia ao apresentar Buba (Maria Luísa Mendonça), personagem descrita à época como hermafrodita ---- terminologia então utilizada pela medicina e pela própria novela, hoje substituída por intersexo. Em pleno início da década de 1990, a obra discutia identidade, preconceito e aceitação quando esses temas ainda eram praticamente inéditos na televisão aberta. Buba tornou-se uma das personagens mais ousadas da carreira do autor.
Se Renascer falava da força da natureza, O Rei do Gado talvez represente o ponto máximo de seu equilíbrio entre entretenimento e debate social. Benedito conseguiu colocar a reforma agrária no horário nobre sem transformar sua novela em panfleto político. Enquanto acompanhava o romance entre Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) e Luana Berdinazzi (Patrícia Pillar), uma boia-fria ligada aos trabalhadores rurais, o público também assistia a um retrato das desigualdades no campo e dos conflitos pela posse da terra, tema que raramente havia sido tratado com tanta profundidade na televisão.
Em Terra Nostra, voltou suas atenções para outro tema que conhecia profundamente: a imigração italiana. A história de Giuliana (Ana Paula Arósio) e Matteo (Thiago Lacerda) conquistou o país ao reconstruir a chegada dos imigrantes às fazendas de café, reafirmando sua habilidade em transformar acontecimentos históricos em grandes melodramas populares.
Nem tudo, porém, foi sucesso. Seu maior tropeço aconteceu com Esperança. Concebida para repetir o êxito de Terra Nostra, a novela enfrentou dificuldades desde os primeiros capítulos. O agravamento do estado de saúde de Benedito obrigou o autor a se afastar da produção, que passou para as mãos de Walcyr Carrasco. O novo autor promoveu mudanças importantes na narrativa, reformulou personagens e conseguiu elevar os índices de audiência. Benedito nunca escondeu o descontentamento com os rumos tomados pela obra, tornando esse episódio uma das maiores polêmicas de sua carreira.
Outra obra frequentemente esquecida quando se fala de seu legado é Meu Pedacinho de Chão. A novela de 1971 já trazia elementos que atravessariam praticamente toda sua trajetória: o coronelismo, a educação, os conflitos do interior e a simplicidade da vida rural. Décadas depois, ganhou uma segunda vida em um remake memorável dirigido por Luiz Fernando Carvalho, que transformou uma história aparentemente singela em uma fábula visual de cores vibrantes, cenários artesanais e atmosfera lúdica.
Maria Catarina (Juliana Paes), Professora Juliana (Bruna Linzmeyer) e Zelão (Irandhir Santos) foram alguns que ganharam novas camadas em uma das experiências estéticas mais ousadas da história da televisão brasileira. O que era uma novela rural tornou-se um verdadeiro conto de fadas brasileiro sem perder a essência criada por Benedito. A novela fracassou nos números, mas foi linda.
Sua obra ainda atravessou gerações por meio dos remakes. Cabocla, Sinhá Moça e Paraíso ganharam novas versões escritas por suas filhas, Edmara Barbosa e Edilene Barbosa, preservando a essência dos textos originais. Anos depois, seu neto Bruno Luperi apresentou Pantanal a uma nova geração em um remake amplamente celebrado pelo público. A tentativa de repetir o feito com Renascer, entretanto, encontrou uma recepção mais dividida e não alcançou o mesmo impacto cultural, demonstrando que algumas obras pertencem também ao contexto histórico em que foram concebidas.
Há ainda uma lembrança inevitável: Velho Chico. A novela ficou marcada pela morte de Domingos Montagner, que desapareceu nas águas do Rio São Francisco durante um intervalo das gravações. A tragédia transformou o desfecho da produção em um dos momentos mais tristes da história da televisão brasileira, onde Santos dos Anjos virou a câmera subjetiva e deu uma dimensão ainda mais simbólica a uma obra que já abordava a força da natureza e do próprio rio como personagens centrais.
Ao longo de mais de cinco décadas, Benedito Ruy Barbosa escreveu sobre coronéis, peões, boias-frias, imigrantes, fazendeiros, beatos, jagunços e famílias destruídas pela ambição da terra. Falou de reforma agrária, imigração, preservação ambiental, preconceito, religiosidade popular e identidade muito antes de esses temas se tornarem frequentes na ficção.
Mas sua maior contribuição foi ter convencido a televisão brasileira de que o interior também era protagonista. Que havia poesia entre cafezais, tragédias às margens dos rios, épicos em disputas por um pedaço de terra e magia escondida nas matas. Enquanto muitos autores escreviam novelas que poderiam acontecer em qualquer grande cidade, Benedito escrevia histórias que só poderiam acontecer no Brasil e dificilmente outro autor escreverá com a mesma autenticidade. O neto e as filhas herdaram o legado, mas o olhar do avô é insubstituível.
Com a morte de Benedito Ruy Barbosa, a televisão brasileira perde um dos seus maiores autores e aquele que melhor compreendeu que o Brasil também se conta a partir do interior, onde a terra, os rios, a fé e as raízes familiares sempre tiveram tanto peso quanto qualquer protagonista.
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