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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Trama de Francesca em "Quem Ama Cuida" mostra como as novelas espíritas fazem falta na teledramaturgia

 A trama espírita envolvendo Francesca, personagem de Nathalia Dill em Quem Ama Cuida, é uma das surpresas mais interessantes da novela. O que começou cercado de mistério ganhou contornos sobrenaturais e, aos poucos, transformou-se em uma história com camadas, revelações e bons momentos dramáticos. Mais do que funcionar dentro do folhetim, o núcleo também evidencia como as novelas espíritas fazem falta na teledramaturgia brasileira.


Todos sabem que o enredo de Francesca foi modificado por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Walcyr é conhecido por alterar os rumos de suas obras de acordo com a receptividade do público, e não foi diferente desta vez. Não se sabe exatamente como os autores pretendiam conduzir inicialmente a personagem, mas a especulação dos telespectadores de que Francesca poderia ser um espírito que somente Otoniel, vivido por Ton Ramos, conseguia enxergar abriu uma possibilidade que a dupla decidiu aproveitar.

Até então, havia outras explicações possíveis. Francesca poderia ser fruto de algum quadro de esquizofrenia de Otoniel ou consequência de alguma perturbação provocada por um possível Alzheimer. Não havia como saber.

Ao optar pelo espiritismo, porém, os autores encontraram um caminho que vem funcionando e proporcionando desdobramentos interessantes.

Aos poucos, a novela revelou que Francesca era mãe de Joel (Ricardo Teodoro) e que havia trabalhado como cozinheira no apartamento de Arthur (Antonio Fagundes). As informações foram apresentadas gradualmente, até que surgiu outra revelação importante: Francesca havia sido assassinada e sequer tinha consciência de que tinha sido morta por alguém. Ela só começou a compreender sua própria condição depois de participar de uma sessão espírita da qual Otoniel também fez parte e que acabou confirmando para ela aquilo que ainda parecia inexplicável.

A entrada de um núcleo espírita propriamente dito também foi um acerto, vide a participação de Charles Fricks, que viveu Ademir em Terra e Paixão, novela também de Walcyr Carrasco, onde fez uma boa dupla com Tony Ramos (Antônio La Selva) e agora repete a parceria. 

Outro momento que merece elogios é a cena em que Otoniel conta a Cesar (Rainer Cadete), que seu pai estava presente no momento em que os dois conversavam e o chamou de “Bimbo”, apelido que somente ele e sua esposa, Bia (Maria Ribeiro), conheciam. A sequência ganhou ainda mais força pela presença do espírito vivido pelo talentoso dublador Hélio Ribeiro e pela participação de Francesca, em mais uma boa atuação de Nathalia Dill.

Também existe um enigma envolvendo o pai de Cesar, que já apareceu como espírito em duas ocasiões. Tudo indica que há alguma injustiça relacionada à sua vida ou que ele pode ter sido vítima de uma armação. É mais uma camada acrescentada à novela e que amplia o interesse do público pelos acontecimentos sobrenaturais.

É verdade que essa temática pode parecer um pouco deslocada em uma novela que, em sua concepção original, não tinha o espiritismo atravessando todos os núcleos. Afinal, o universo espírita foi incorporado com a trama já em andamento. Também chama atenção a ausência de Arthur nesse universo e isso se deve ao fato de Antonio Fagundes ter acertado sua participação apenas nos primeiros capítulos. Ainda assim, os autores vêm conseguindo contornar essas limitações e fazer com que a novidade pareça cada vez mais integrada à narrativa.

E talvez seja justamente aí que esteja o maior mérito dessa história: ela mostra como o espiritismo continua tendo enorme potencial dramático.

Durante muitos anos, a teledramaturgia brasileira encontrou no espiritismo uma fonte para histórias de amor, mistério, redenção, conflitos familiares e questionamentos sobre vida e morte. Obras como Além do Tempo, de Elizabeth Jhin, provaram que essa temática pode ser utilizada de maneira sofisticada e popular, sem impedir que a novela alcance públicos de diferentes crenças.

A reprise de Além do Tempo na edição especial, já em sua reta final, também ajuda a matar a saudade dos espectadores que gostam desse tipo de narrativa. A novela permanece como uma lembrança de um período em que o sobrenatural e a espiritualidade tinham espaço mais frequente nos folhetins.

Segundo várias notícias de sites na imprensa, o fim desse tipo de produção na Globo ocorreu por ordem da atual cúpula da teledramaturgia, devido ao medo de provocar rejeição entre segmentos evangélicos. Essa interpretação, porém, é um enorme equívoco. O espiritismo já esteve presente em diversas novelas de grande repercussão e essas histórias alcançaram espectadores de diferentes religiões e visões de mundo.

A força desse tipo de trama está justamente na capacidade de transformar uma crença em matéria-prima para o drama. Não é necessário que todos os espectadores sejam espíritas para se interessarem por uma história sobre espíritos, vidas interrompidas, injustiças que precisam ser esclarecidas ou personagens que procuram respostas depois da morte. O que importa é a qualidade da narrativa.

Nesse sentido, a história de Francesca pode representar uma pequena brecha para que a teledramaturgia volte a experimentar mais com esse universo. Walcyr Carrasco e Claudia Souto encontraram, dentro de uma novela que originalmente não tinha essa proposta, uma maneira de inserir o espiritismo e criar mistérios que passaram a movimentar a história.

Francesca ainda tem muito a revelar, e justamente por isso sua presença se tornou uma das peças mais curiosas de Quem Ama Cuida. A personagem mostra que o sobrenatural, quando bem utilizado, não precisa ser um elemento estranho ao folhetim: pode ser justamente aquilo que acrescenta mistério, emoção e novas possibilidades à narrativa.

Talvez seja cedo para dizer que essa experiência provocará uma mudança de rumo na teledramaturgia da Globo, mas seria interessante que outras novelas voltassem a apostar nesse universo. Se Quem Ama Cuida conseguir provar que há público interessado em histórias espíritas, quem sabe a televisão não perceba que esse filão nunca deixou de existir e apenas ficou tempo demais sem ser explorado.

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