O capítulo desta terça-feira de Por Você, atual novela das sete da Globo, foi uma verdadeira aula de teledramaturgia. Dino Cantelli e Juliana Peres entregaram um roteiro redondo, com começo, meio e fim de um arco dramático eletrizante, emocionante e, sobretudo, muito bem amarrado. Foi daqueles capítulos que conseguem fazer a história avançar, aprofundar personagens, provocar reflexão e ainda oferecer momentos de grande impacto.
A trama começou com Juarez (Milhem Cortaz) mais uma vez encurralado diante das ameaças de Zé Vitório (Ângelo Antônio). Desta vez, porém, a situação ganhou proporções ainda mais perigosas quando os dois passaram a ser perseguidos e alvejados durante um tiroteio, já que Juarez estava dando carona ao bandido. Paralelamente, a novela mostrava a sobrinha de Nelma (Ariane Souza), grávida, conversando com a tia e Suellen (Bia Santana) sobre os preparativos para o parto.
Essa preparação foi fundamental para o que viria depois. Ao apresentar a personagem grávida antes do clímax, a novela criou uma expectativa que tornou ainda mais impactante a junção das duas histórias, quando a perseguição chegou até o local e a jovem acabou atingida por uma bala perdida.
A sequência, gravada em uma locação externa, ganhou uma força especial justamente por explorar o espaço urbano e o caos provocado pela violência.A direção de André Câmara e Ana Paula Guimarães foi irretocável. Um dos maiores exemplos está no plano da pipa voando, imagem que carrega um simbolismo: diante de todo aquele cenário de violência, ainda existe um resquício de inocência, esperança e vida cotidiana. Quando a grávida é atingida e a pipa cai no chão, a imagem se transforma em uma síntese poderosa de tudo o que aquela sequência queria dizer. É uma escolha visual simples, mas extremamente eficiente.
A novela também soube tratar a violência para além do espetáculo. Em uma cena necessária e emocionante, Suellen reforçou para Dalila (Livia Silva) que aquilo não deveria ser tratado simplesmente como uma tragédia isolada, já que a violência costuma atingir repetidamente as mesmas pessoas e os mesmos lugares --- e dificilmente uma mulher grávida de uma área nobre seria vítima de uma bala perdida nas mesmas circunstâncias. É uma discussão social importante inserida organicamente na narrativa, sem interromper o ritmo da história.
Outro momento sensível foi protagonizado por Juarez, que aparece rezando pela recuperação da jovem. A cena funciona como mais um capítulo no rastro de culpa que o personagem carrega pelas consequências de suas próprias escolhas. Milhem Cortaz novamente encontra a medida certa para transmitir o peso emocional de Juarez.
E toda essa situação ainda desembocou diretamente na protagonista. Bela (Sheron Menezzes) foi responsável pelo parto no hospital Maternidade Luz e, mais uma vez, a novela evidenciou a importância da personagem para a narrativa. Bela é o coração da trama, e o fato de ela salvar tanto o bebê quanto Tamara (Emilly Amaral) reforçou essa posição de maneira orgânica, fazendo com que o clímax dramático desembocasse em uma celebração emocionante.
E a bebê ganhou um nome que torna toda essa sequência ainda mais especial: Helena. Trata-se de uma clara homenagem a Manoel Carlos, autor que transformou esse nome em uma de suas marcas mais reconhecíveis na teledramaturgia brasileira. E a novela ainda fez questão de deixar a referência explícita, mas sem exageros, quando o segurança Guto (Gustavo Arthidoro) pergunta: “Cafezinho, dona Helena?”. É uma piscadela deliciosa para o público que conhece o clássico meme de Laços de Família, em que Zilda (Thalma de Freitas) frequentemente oferecia café a Helena (Vera Fischer).
A brincadeira funciona justamente porque é breve e está inserida dentro da própria cena, sem parecer uma referência forçada. E há algo ainda mais simbólico nessa escolha: nada mais “Maneco” do que uma Helena nascer justamente em meio ao caos de violência, desigualdade e contrastes sociais do Rio de Janeiro, na Zona Sul.
Essa celebração, aliás, proporcionou outra sequência belíssima. Dalila e Suellen conversaram sobre a sensação estranha de perceber que a vida continua depois de uma situação tão violenta, ao mesmo tempo em que reconhecem que é justamente necessário seguir em frente apesar da dor. A partir daí, a novela promoveu uma espécie de flash mob, reunindo parte do elenco e vários figurantes para cantar e dançar ao som de “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca.
É uma escolha que merece ser destacada também porque cenas com grande número de figurantes, música e dança integradas à narrativa são cada vez menos frequentes na Globo (por conta do evidente corte de orçamento da teledramaturgia da emissora), e Por Você conseguiu fazer isso. A sequência nasce diretamente da emoção construída ao longo do capítulo e funciona como uma celebração da vida depois de um momento de extrema violência.
E, como se tudo isso já não fosse suficiente, o capítulo terminou com outra sequência de lavar a alma.
Vanessa (Alinne Moraes) disse a Nelma que descontaria sua falta, mesmo depois de saber que ela havia sido vítima de uma bala perdida. A postura da vilã foi imediatamente confrontada por Bela, que agora ocupa a presidência interina do hospital enquanto Pérola (Renata Sorrah) está em tratamento. O diálogo envolvendo racismo e elitismo foi muito bem construído por Dino Cantelli e Juliana Peres, especialmente porque a discussão não ficou restrita a uma simples troca de ofensas: ela expôs as diferenças de visão de mundo entre as duas personagens.
O gancho foi perfeito: Bela comunica que quem deixará o hospital não é Nelma, mas Vanessa. É uma daquelas viradas que fazem o público terminar o capítulo querendo assistir imediatamente ao próximo.
Por Você vem se consolidando como uma deliciosa novela das sete, e os elogios que a produção vem recebendo encontram cada vez mais justificativa em capítulos como este. Há ritmo, emoção, crítica social, humor, simbolismo, bons diálogos, personagens bem trabalhados e uma direção que sabe transformar momentos aparentemente simples em imagens marcantes.
O capítulo desta terça-feira, porém, merecia um texto à parte. Não apenas por ter sido eletrizante, mas por mostrar como uma novela popular pode falar sobre violência, desigualdade, racismo, culpa, esperança e celebração da vida sem perder a leveza e o prazer de acompanhar uma boa história.
Foi, sem dúvida, uma aula de teledramaturgia.
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