terça-feira, 8 de setembro de 2026

Nicolas Prattes encontra sua melhor versão como Mirinho em "A Nobreza do Amor"

 Nicolas Prattes finalmente ganhou a oportunidade que sua carreira pedia há tempos: interpretar um personagem que fugisse do lugar-comum dos mocinhos que marcaram boa parte de sua trajetória na televisão. Em A Nobreza do Amor, novela das seis de Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., o ator vive Mirinho, um vilão que lhe permite explorar duas facetas até então pouco experimentadas em sua carreira: a vilania e a comédia. E ele tem aproveitado muito bem a oportunidade.


Nicolas estreou na televisão ainda criança, em uma breve participação na reta final de Terra Nostra, em 2000, quando interpretou o filho de Giuliana, personagem de Ana Paula Arósio. Mas sua estreia efetiva veio mesmo em Malhação – Seu Lugar no Mundo, em 2015, quando viveu Rodrigo, o mocinho da temporada. A partir dali, criou-se uma constante em sua trajetória: os heróis, os rapazes corretos e os chamados "bons moços".

Em 2016, brilhou como o querido Zac em Rock Story. Dois anos depois, ganhou mais um mocinho, Samuca, de O Tempo Não Para. Foi somente em Éramos Seis, em 2019, que surgiu uma oportunidade mais consistente de mostrar uma faceta diferente, com Alfredo, um dos filhos de Dona Lola, vivida por Gloria Pires.

Rebelde, impulsivo e cheio de conflitos, o personagem representou um divisor de águas para Nicolas e, até então, seu melhor desempenho na televisão.

Mas, em 2022, Todas as Flores o colocou novamente no caminho do bom moço. Diego era praticamente um segundo mocinho da trama, um rapaz que parecia condenado a passar por todas as desgraças possíveis. Em 2024, veio Rudá, protagonista de Mania de Você, novela que se mostrou um verdadeiro desastre narrativo. O personagem, um dos grandes equívocos da trama de João Emanuel Carneiro, acabou morrendo assassinado em uma das muitas sequências pouco convincentes da produção.

Nicolas, porém, não teve culpa alguma. Fez exatamente aquilo que lhe foi proposto. E Rudá estava longe de ser o único problema de Mania de Você: praticamente todo o elenco sofreu com personagens mal escritos, rasos ou pessimamente desenvolvidos. O fracasso da produção deixou evidente que Nicolas precisava, mais do que nunca, romper com esse ciclo.

Por isso, sua decisão de recusar o protagonismo de Coração Acelerado, em que viveria João Raul, parece ter sido acertada. Depois de tantos mocinhos, insistir novamente na mesma fórmula poderia significar mais uma oportunidade desperdiçada. Nicolas queria algo diferente. E Mirinho apareceu no momento exato.

A melhor coisa que poderia ter acontecido ao ator foi justamente esse personagem.

Mirinho é um canalha daqueles que conseguem provocar raiva e, ao mesmo tempo, arrancar algumas risadas. Há um componente cômico muito bem explorado por Nicolas, mas o personagem também carrega características bastante repulsivas, como o racismo e a inveja. É uma combinação que poderia facilmente cair no exagero, mas que o ator consegue equilibrar com segurança.

A origem da rivalidade com Tonho, vivido por Ronald Sotto, é especialmente interessante. Mirinho não suporta o carinho que Casemiro, interpretado por Cássio Gabus Mendes, sempre demonstrou pelo afilhado. A relação entre pai e filho é marcada por ressentimentos justamente porque Mirinho sabe, ainda que não admita, que sua própria conduta contribuiu para o distanciamento. Tonho acaba funcionando como o espelho daquilo que ele gostaria de ser e, principalmente, como alguém que recebeu o afeto paterno que ele nunca conseguiu conquistar.

A obsessão por Alika, personagem de Duda Santos, só piora tudo. Como a mocinha tem olhos apenas para Tonho, Mirinho transforma o desejo em ressentimento e o ressentimento em ódio. É mais um combustível para sua perseguição ao rival.

O problema é que o próprio roteiro parece preso em um ciclo. A novela já ultrapassou a marca do capítulo 130 sem conseguir avançar significativamente em algumas de suas principais tramas, e Mirinho também acaba vítima dessa repetição. Recentemente, tentou matar Tonho pela terceira vez. Já pode até pedir música no Fantástico.

Essa repetição, entretanto, é um problema de roteiro, não de interpretação. Nicolas continua encontrando maneiras de renovar Mirinho mesmo quando a história insiste em colocá-lo nas mesmas situações. E isso diz muito sobre a qualidade de seu trabalho.

Se Alfredo foi, até então, sua melhor oportunidade de mostrar uma nova faceta dramática, Mirinho representa um passo ainda maior. Nicolas nunca havia tido a chance de mergulhar de verdade na comédia e na vilania, muito menos de combinar as duas coisas em um mesmo personagem. Agora, ele demonstra que tem recursos para muito mais do que os mocinhos que lhe foram oferecidos durante anos.

Seus embates com Ronald Sotto são um dos pontos altos da novela. Existe uma boa química entre os dois, e a rivalidade funciona justamente porque Nicolas consegue imprimir em Mirinho uma mistura de arrogância, ressentimento, inveja e humor. Também é muito interessante sua parceria com Theresa Fonseca, intérprete de Virgínia, a vilã e eterna noiva traída de Mirinho. A dupla encontra uma dinâmica própria e rende algumas das melhores cenas do núcleo.

O mais importante, porém, é perceber Nicolas se divertindo em cena. Há um evidente prazer do ator em explorar um personagem tão distante de tudo aquilo que vinha fazendo. Mirinho oferece liberdade, e Nicolas responde a ela com presença, timing cômico e uma composição cheia de personalidade.

É uma pena que uma novela com tantos problemas de ritmo e desenvolvimento não consiga aproveitar melhor o potencial do personagem. Ainda assim, Mirinho já cumpre uma função fundamental na carreira de Nicolas Prattes: mostra que o ator não precisa estar necessariamente no centro da história como o mocinho para se destacar.

Talvez a grande revelação de A Nobreza do Amor seja justamente perceber que Nicolas Prattes pode ser muito mais interessante quando deixa de ser o herói. Mirinho é imperfeito, inconveniente, invejoso, racista, engraçado e desprezível. É justamente essa mistura que permite ao ator finalmente sair da zona de conforto.

Depois de tantos mocinhos, Nicolas merecia um personagem assim. E, pelo que vem entregando, ele está fazendo valer cada oportunidade.

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