A atual novela das sete de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, transformou as poções, chás e combinações de ervas em um dos principais motores de sua narrativa. O problema não é a existência desse elemento fantástico em si, mas a insistência em recorrer a ele para provocar praticamente qualquer reviravolta importante da história, dirigida por Carlos Araújo e a um mês de seu final na Globo.
Curiosamente, Izabel de Oliveira já havia utilizado um recurso semelhante no sucesso "Cheias de Charme" (2012), escrita em parceria com Filipe Miguez. Na ocasião, o famoso chá de ferragoela foi usado pelas vilãs Chayene (Cláudia Abreu) e Socorro (contra as Empreguetes, mas acabou sendo tomado pelas próprias vilãs. A situação era pontual, divertida e coerente com o tom farsesco da novela. Funcionava justamente por ser uma exceção, e não uma muleta narrativa.
Em Coração Acelerado, porém, o expediente virou regra. Logo no início da trama, Naiane (Isabelle Drummond) tenta usar o próprio ferragoela para prejudicar Ana Castela, mas acaba ingerindo a bebida.
Já na reta final, a personagem repete exatamente a mesma estratégia para atingir Agrado (Isadora Cruz), mas quem toma o chá é a fofoqueira Talita Mendes (Luellem de Castro). A repetição da mesma estrutura dramática evidencia a falta de criatividade para construir conflitos de maneira orgânica.O problema se agrava com o caderno de ervas de Nora (Virginia Rosa), que passa a funcionar como uma solução conveniente para qualquer necessidade do roteiro. Zilá (Leandra Leal) e Roney (Thomás Aquino), por exemplo, utilizam uma combinação de ervas retirada do livro da avó de Cinara (Ramille) para sabotar o festival de sucos promovidos por Zuza (Elisa Lucinda) e Janete (Letícia Spiller). O plano dá errado e os convidados acabam excessivamente animados, quase dopados de felicidade. Em outro momento, Cinara prepara uma mistura para fazer Palhares (Gabriel Godoy) deixar de ser tão íntegro, enquanto ele responde com outra combinação destinada a torná-la menos trambiqueira.
Talvez o exemplo mais problemático tenha sido quando Agrado, sob efeito das ervas, beijou João Raul (Filipe Bragança). A cena serviu como ponto de partida para a reaproximação do casal protagonista, mas construiu um momento romântico a partir de uma personagem sem pleno domínio de suas ações, o que torna a situação de extremo mau gosto.
São tantas situações semelhantes ao longo da novela que se torna difícil enumerá-las. Sempre que o roteiro precisa provocar um conflito, uma aproximação amorosa, uma confusão ou uma mudança de comportamento, surge uma nova mistura de ervas para resolver o impasse. Em vez de desenvolver os personagens e permitir que suas escolhas conduzam a narrativa, as autoras recorrem repetidamente a um elemento mágico que funciona como um atalho dramático.
O caderno de ervas de Nora deixa de ser um detalhe curioso do universo da novela para se tornar um verdadeiro "coringa" do roteiro, capaz de justificar qualquer acontecimento. O resultado é uma narrativa superficial, dependente de soluções fáceis e cada vez menos interessada em construir conflitos com consistência. Quando praticamente tudo pode ser explicado por um chá ou uma combinação de ervas, fica evidente a pobreza dramatúrgica de uma história que parece incapaz de encontrar caminhos próprios para evoluir.
Quando vi a Agrado beijando o João Raul eu pensei a mesma coisa. Ele correspondendo o beijo foi de péssimo gosto….
ResponderExcluirConcordo plenamente com o texto. Só que tem um ponto que também me chana muita atenção. Cadê a mão da Maria Helena Nascimento nesse roteiro? Todos os elementos usados na história são os mesmos já inseridos em outras histórias de Izabel de Oliveira. Tem o tom farsesco, a superficialidade dos conflitos e a ausência de história que vira um amontoado de situações bobas, muitas vezes esquetes soltas. Não tem absolutamente nada que aparente ser da Maria Helena no roteiro. É impossível identicar qualquer detalhe sequer que pertença a ela. É como se a novela fosse escrita totalmente pela Izabel de Oliveira. Nem como colaboradora a Maria Helena Nascimento parece inserida, que dirá como autora.
ResponderExcluirMenino, olha só, estou nesse predicamento: as novelas modernas estão ficando muito esquisitas com tanta temática de magia ou metafísica. Tenho até pavor de olhar o que vai ser feito com a assombração de Quem ama cuida, só espero que não vá ajudar a vingança de Adriana num ponto, meu problema é que narrativas como essa estão mais perto do deus ex-machina, um jeito narrativo usado desde os antigos quando o autor não sabia como resolver as coisas. E até na antiguidade era mal visto por críticos como Horácio, é um estilo narrativo gratuito. Olha só como magicamente resolvo tudo.
ResponderExcluirDaniel
Gostei de ler sobre, confesso que não conhecia!
ResponderExcluirAproveito para desejar um bom fim-de-semana!
Bjxxx,
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