Exibida entre 2 de abril e 26 de outubro de 1990, "Rainha da Sucata" foi a estreia de Silvio de Abreu no horário nobre da Globo. Com o objetivo de substituir o fenômeno "Tieta", a novela teve um início turbulento e sofreu com a repercussão de "Pantanal", estrondoso sucesso da Rede Manchete, escrito por Benedito Ruy Barbosa --- vale lembrar que as tramas não concorriam diretamente. A forte linguagem cômica não foi muito bem aceita e o enredo ganhou alguns elementos mais dramáticos. Aos poucos, a trama foi se acertando e conquistando o público.
Como acontece em todas as obras do autor, a trama tinha fortes elementos cômicos e uma boa dose de tensão. Maria do Carmo enriquece com os negócios do pai (Onofre - Lima Duarte -, vendedor de um ferro velho) e se torna uma rica empresária, apesar de manter os costumes e hábitos da época que era pobre.
Incluindo a forma espalhafatosa de falar e se vestir (nada elegantes) e o local onde mora: bairro de Santana, na zona norte de São Paulo.
Ela resolve se vingar de Edu Figueiroa (Tony Ramos) ---- um boa vida que a humilhou no passado (cena clássica onde um balde de lixo é jogado em cima da sucateira durante uma festa) ---- e resolve comprá-lo, propondo um casamento para ajudar a família tradicional do rapaz que está à beira da falência. Falido, ele topa, o que faz a protagonista se mudar para a mansão, iniciando assim a ótima rivalidade de Maria do Carmo e Laurinha, madrasta de Edu e esposa de Betinho (saudoso Paulo Gracindo). Betinho, aliás, proferia um dos mais famosos bordões da novela: "Coisas de Laurinha.".
Afinal, como esquecer da interpretação impagável de Aracy Balabanian vivendo uma das personagens mais marcantes da teledramaturgia? A senhora briguenta tinha três filhos que tratava como bebês. Chamados por ela de 'filhinhas da mamãe', os grandalhões Gera (Marcello Novaes), Gino (Jandir Ferrari) e Gerson (Gerson Brenner) amavam aquele carinho, mas muitas vezes não conseguiam disfarçar o constrangimento.
Com um sotaque que misturava português com armênio, Dona Armênia ainda vivia ameaçando Maria do Carmo. Tudo porque seu terreno na Avenida Paulista havia sido ocupado por um prédio comercial, onde ficava o escritório da Do Carmo Veículos e a Sucata, empresa e Casa de Shows da protagonista. A senhora rabugenta gritava inúmeras vezes que explodiria aquele edifício e o colocaria 'Na chón'. Foi o bastante para esta expressão virar uma das maiores marcas da personagem, que, em virtude do imenso sucesso, voltou ao ar em outra novela de Silvio de Abreu: "Deus nos Acuda".
Outro destaque da trama foi o triângulo formado por Caio, Adriana e Nicinha. Ele, um antropólogo tímido e gago (vivido por Antônio Fagundes, seu primeiro papel cômico na carreira), era noivo da fogosa Nicinha (estreia de Marisa Orth na televisão) e se via balançado por Adriana, uma dançarina de Cabaré (apelidada de 'bailarina da coxa grossa') interpretada pela ótima Cláudia Raia. Os três tiveram um entrosamento incrível em cena e protagonizaram vários momentos hilários.
Entre as cenas marcantes do folhetim, é preciso citar a emblemática sequência do suicídio de Laurinha. Com uma interpretação visceral de Glória Menezes, que fez uma ótima dobradinha com Regina Duarte, a vilã se jogou do alto de um prédio com o objetivo de incriminar Maria do Carmo ---- ela puxou um brinco da sucateira para simular que foi empurrada pela rival ---- e o momento até hoje é lembrado pelo público. Difícil esquecer daquela imagem da víbora caindo com seu vestido branco esvoaçante.
Além de todos os grandes atores mencionados, a novela ainda contou com Renata Sorrah (Mariana, irmã de Caio), Daniel Filho (Renato), Raul Cortez (Jonas), Laura Cardoso (Iolanda), Lolita Rodrigues (Lena), Gianfrancesco Guarnieri (Irineu), Patrícia Pillar (Alaíde/Beatriz), Cláuda Ohana (Paula), Nicette Bruno (Neiva), saudosa Cleyde Yáconis (Isabelle), Flávio Migliaccio (Seu Moreiras), Beatriz Lyra (Odete), Neuza Amaral (Dalva), Ida Gomes (Mariza), entre outros, incluindo uma luxuosa participação de Fernanda Montenegro (Salomé) no começo da trama.
Dirigida por Jorge Fernando, "Rainha da Sucata" foi um grande sucesso de Silvio de Abreu e fez história da teledramaturgia. Neste dia 2 de abril de 2026, a estreia deste importante folhetim completa 36 anos e, coincidentemente, nesta sexta-feira, dia 3, a reprise no "Vale a Pena Ver de Novo" chega ao fim. A reprise fracassou por alguns motivos ---- início apressado demais, várias situações datadas e baixa qualidade das imagens ----, mas a produção sempre será um clássico da teledramaturgia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário