A trajetória de Daphne Bozaski até chegar a Lucélia de "Três Graças" é, por si só, um estudo interessante sobre construção de carreira e, sobretudo, sobre expansão de registro interpretativo. Depois de anos marcada por personagens que exigiam um certo “tom acima”, mais estilizado ou mesmo teatral, a atriz finalmente encontra aqui um terreno onde o naturalismo não apenas é possível, como se torna sua principal ferramenta de composição.
Desde os primeiros trabalhos em "Pedro e Bianca" e "Que Monstro Te Mordeu?" (ambas em 2014), onde a expressividade mais aberta era quase uma exigência do formato, Daphne demonstrava presença cênica e domínio técnico. Esse traço se consolidou com a icônica Benê de "Malhação - Viva a Diferença" (2017), papel que exigia precisão, sensibilidade e um cuidado extremo para evitar caricaturas em cima da abordagem do autismo ---- algo que ela realizou com enorme êxito, conquistando público e crítica. Em "As Five" (2020/24), teve ainda a oportunidade de maturar essa criação, explorando novas camadas da personagem.
Mesmo quando o material não ajudava tanto, como em "Nos Tempos do Imperador" (2022), onde viveu a tímica Dolores, ou quando mergulhava de vez no campo da caricatura em "Família é Tudo!" (2024), quando brilhou na pele da estereotipada Lupita,
Daphne nunca passou despercebida. Pelo contrário: frequentemente era um dos pontos de sustentação das obras, mesmo diante de roteiros que deixavam muito a desejar.É justamente por isso que sua Lucélia surpreende.
A personagem começa como uma vilã quase arquetípica: invejosa, ressentida, dessas que orbitam o núcleo despejando comentários ácidos e alimentando pequenas intrigas. E Daphne demonstra inteligência ao evitar excessos: sua vilania é mais insinuada do que escancarada, mais debochada do que explosiva. O “tom a menos”, raro em sua trajetória até aqui, faz toda a diferença.
Ao longo da trama, especialmente nas sequências da novelinha vertical "Loquinha", que estreou recentemente nas plataformas da Globo, a atriz encontra um equilíbrio muito interessante entre o humor e a sordidez. Sua Lucélia é sonsa, cínica, capaz de dizer barbaridades com uma leveza quase irritante. Há um prazer evidente na forma como ela manipula situações e pessoas, e Daphne traduz isso com pequenas inflexões de voz, olhares enviesados e um timing cômico afiado.
Na reta final de "Três Graças", porém, vem a virada mais radical e também a mais controversa do ponto de vista da licença poética. A ascensão repentina de Lucélia ao posto de chefe do tráfico do morro da Chacrinha beira o inverossímil: não há conflito, não há resistência, não há sequer a sensação de um ecossistema criminoso minimamente estruturado. Dramaturgicamente, é uma solução frágil, que escancara limitações de produção e roteiro --- vale ressaltar o número limitado de figuração em novelas mais recentes da Globo.
Mas é justamente nesse terreno instável que Daphne brilha ainda mais. Se o contexto não convence, a atriz convence. Ela abraça o absurdo da situação e o transforma em diversão. A cena em que Lucélia atira para o alto e dispara a expressão “respeita as mina” é um exemplo perfeito: poderia ser risível (e, em alguma medida, é), mas ganha força pelo talento da intérprete, que parece plenamente consciente do tom quase farsesco do momento.
A mudança visual ---- o loiro chamativo, a postura mais expansiva, a incorporação de trejeitos típicos de figuras do imaginário popular ligado ao tráfico ---- funciona como extensão dessa nova persona. Daphne não apenas muda a personagem por fora, mas ajusta sua energia em cena, tornando Lucélia mais impositiva, mais performática, sem perder completamente o traço debochado que sempre a definiu.
No fim, o que fica é a sensação de que "Três Graças" oferece a Daphne Bozaski algo raro em sua trajetória: a chance de transitar entre registros dentro de uma mesma personagem. Da vilãzinha invejosa à líder improvável do morro, ela constrói uma curva que evidencia versatilidade, controle e, acima de tudo, inteligência cênica. Mesmo quando o roteiro escorrega, Daphne sustenta. E isso, para uma atriz, é talvez o maior elogio possível.
É, ela teve chance, e é uma pena que o autor não tenha dado a mesma para Fernanda. A sorte dela foi ter vínculo com a história da estátua e Kasper (alter ego do autor), que sempre foram as verdadeiras Três Graças que Joelly e Lígia não conseguiram ser.
ResponderExcluirBy the way: quase com um mês para o final da novela, Zamenza deve ser a primeira vez desde que você criou o blog que você se apaixonou com uma novela inédita de Aguinaldo, para bem para você e para ele.
Gabriel
sim, essa realmente me apaixonou
ExcluirThank you for sharing this. Warm greetings from Montreal, Canada.
ResponderExcluirI also wanted to mention that I love cats and the cat in your profile picture is beautiful.
ResponderExcluirNão conheço Daphne Bozaski, mas pela sua análise acredito que seja uma atriz extraordinária.
ResponderExcluirAbraços
Também achei muito inverossímil a ascenção da Lucélia a chefe do tráfico do morro. Ficou muito forçado e faltou construção narrativa. Não teve conflito em cima disso e foi algo simplesmente inserido subitamente. Isso foi falha do roteiro, mas também evidenciou a falta de estrutura cenográfica para esse acontecimento no enredo. Não ocorreu uma resistência, uma luta pelo poder, nem uma aproximação de Lucélia com esse mundo do crime nos seus meros detalhes, como foi o caso de Bibi Perigosa em A Força do Querer, por exemplo. E a ausência de figurantes e realismo na representação dos cenários também compromete o resultado, isso é nítido e também um fato consumado. Uma pena porque poderia ter sido algo esplêndido com uma devida construção narrativa e também com uma estrutura cenográfica adequada, incluindo figurantes. Nesse caso, apenas a Daphne que consegue prevalecer devido ao seu conhecido talento e agora apresentando uma nova faceta para o público.
ResponderExcluirNão conhecia a atriz, mas fiquei muito curiosa sobre ela.
ResponderExcluirBeijão
Genial. Te mando un beso.
ResponderExcluirEla realmente é fantástica. É uma atriz consistente que nunca passou despercebida..Parabéns pelo texto!
ResponderExcluirOlá, Sérgio!
ResponderExcluirEu estava esperando esse texto, não sei se teremos outro, então vamos aproveitar. Hahahahah.
Acho que vou começar de trás pra frente.
Em uma situação como a atual onde Bagdá abandona o posto na Chacrinha, na vida real provavelmente, o chefe de outra comunidade tentaria tomar o poder o que geraria um conflito por disputa de território, mas é claro que tamanha ação demandaria uma produção enorme com muitas externas, figuração de peso e outras porções de coisas que uma situação assim exige. E a Globo anda na Skin Jaiminho querendo evitar a fadiga. Já entendemos que são os tempos das vacas magras do Faraó, mas eu confesso que me pega muito também nenhum dos subalterno do Bagdá a questionarem, eles simplesmente aceitam e amém? Talvez eu tenha perdido alguma coisa em algum momento. Mas acho esquisito, os caras não entraram nessa vida ontem pra simplesmente abaixarem a cabeça assim pra qualquer pessoa estranha que chega lá dizendo que manda e desmanda. Isso é o que chamo de conveniência de roteiro. Estraga a novela? Não! TG vai sair de cena com saldo muito positivo, mas se fosse um livro eu já tiraria uma estrela. Detalhe que essa não é a única situação que acho inverossímil, mas creio que você ainda vai escrever sobre a outra que estou pensando.
Agora vamos falar de Lucélia?
Geralmente um perfil como o da Lucélia dentro de uma trama é o perfil de quem busca agradar até para não levantar suspeitas. É aquela pessoa boa, tão legal, tão galera, tão gentil, tão doce, mas a Lucélia não. Ela desde o início se mostra inconveniente, chata, tem comentários preconceituosos, os quais ela fala com muita naturalidade e as pessoas ao redor a vêem apenas como uma criatura insuportável e sem noção.
Cont...
Eu sempre falei aqui em casa que ela havia mandado os pais de arrasta, desde o início essa ideia passou pela minha mente. Então quando ela confessa tal fato eu não fico surpresa. Curiosamente eu achava Lucélia e Samira muito mais perigosas do que Ferrete, Arminda. Elas causam mais medo do que a dupla principal de vilões. Acredito que seja porque Ferrete e Arminda não são vilões maniqueístas e já demonstraram vulnerabilidade e comicidade. Samira vem demonstrar vulnerabilidade quando se despede de Raul no aeroporto que poderia ser fingimento? Muito, mas também pode não ser. Já Lucélia até então não demonstrou nenhum tipo de vulnerabilidade.E é curioso porque uma vende o filho, a outra desvive os pais. Se voltarmos de novo em Ferrete e Arminda, os momentos em que eles demostram vulnerabilidade são justamente os que envolvem a família.
ResponderExcluirOutro ponto que me chamou muita a atenção sobre a Lucélia é que todo mundo que esteve com As Três Graças ficou besta com a Estátua. (Confesso que também ficaria, mas eu gosto de arte) Mas a Lucélia não. Poderia até se usar como justificativa o fato dela não entender de arte, mas Joaquim e vários outros personagens também não entendem e ainda assim diante da estátua ficaram magiados, mas a Lucélia não. E eu posso estar enganada, mas o fato dela não ter ficado "boba" com As Três Graças revela pra mim não só a ausência de vulnerabilidade, mas também o quanto ela é imune a sentimento e emoção e arte é isso. Então talvez por isso ela olhou pra elas como quem olha um copo descartável. Se ela tivesse se derretido como tantos outros isso nos levaria a considerá-la de uma forma mais humana e alguém que eliminou os pais não tem tal essência.
Não vejo mais novelas da Globo mas li sobre a cena em que a personagem interpretada por ela chega com discurso feminista de empoderamento na....biqueira!!!!!!!!!
ResponderExcluirAchei surreal. Não precisava.
Olá, tudo bem? Sobre post anterior: concordo. Rainha da Sucata sempre será um clássico da teledramaturgia brasileira. Uma das minhas primeiras lembranças televisivas. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br
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